«A Palestina está em perigo»
«Se há algum lugar no mundo onde se trave um conflito, uma tragédia, que tenha sido mal comunicada esse lugar é a Palestina e o seu povo a principal vítima», afirmou José Saramago na sessão de solidariedade com o povo da Palestina que reuniu, na Casa do Alentejo, em Lisboa, mais de duas centenas de pessoas. A sessão, em que esteve presente a escritora palestiniana Hanan Awwad, contribuiu para o que Saramago considera a única esperança da Palestina: a criação de um forte movimento de opinião em sua defesa.
«Na Palestina, realizamos funerais todos os dias e todos os dias crescem novos colonatos. As oliveiras estão a ser queimadas e temos destruição em toda a parte», afirmou, no passado dia 7, a consagrada escritora palestiniana Hanan Awwad. Vinda de Jerusalém para Lisboa, Awwad contou que lhe é mais fácil viajar para Portugal do que para muitas regiões do seu próprio país. E questionou: «conseguem imaginar a situação que se vive hoje na Palestina, dividida em cantões?»
Considerando que, na sua terra, tudo estará «numa situação crítica», a escritora destaca três pontos particularmente críticos: o cerco ao presidente eleito da Autoridade Palestiniana, Yasser Arafat, as condições dos «presos de consciência» e a construção do muro. Sobre este último ponto, Awwad desmonta a argumentação das autoridades israelitas de que o muro serve para a segurança de Israel dos bombistas vindos da Palestina: «já na literatura sionista dos anos 50 surgiam referências à construção de um muro de separação.» E este muro está a roubar 58 por cento do território da Palestina e a impedir a «livre circulação das pessoas na sua terra», sustenta a escritora.
«Este é um muro real, material. Mas há outros, que eles ergueram para o povo palestiniano», acusa Hanan Awwad, denunciando as graves limitações à liberdade de movimento dos palestinianos: «como se pode negar o direito de circulação a pessoas que pretendem ir para as suas casas, para os seus empregos, para as suas escolas e universidades?» Segundo Awwad, o que os israelitas fazem ao construir o muro é «roubar o tempo aos palestinianos».
Não pode haver paz com ocupação
Segundo os acordos assinados por ambas as partes – lembrou a escritora – os palestinianos deveriam já ter o seu estado independente desde 1999. «Entretanto estamos em 2004 e não temos nada.» Hanan Awwad recordou ainda que as autoridades palestinianas aceitaram o famoso Roteiro para a Paz, com muitas reservas, pois este dá «muito pouco aos palestinianos». Mas foi aceite na totalidade e, lembrou, «pedimos que ele fosse concretizado de forma honesta e séria, com prazos fixos para a sua concretização». A escritora entende que deveriam ter sido desde logo fixados prazos para a retirada de Israel dos territórios palestinianos, bem como para o desmantelamento dos colonatos e a destruição do muro. «Caso contrário, falar em paz seria uma falsa noção. É totalmente artificial falar de paz com um muro que nos divide, com o assassinato do nosso povo.»
Recordando terem sido os israelitas a colocar dúvidas ao Roteiro para a Paz (Sharon colocava em causa 14 pontos do «acordo»), Hanan Awwad destacou que os palestinianos defendem a paz. «Mas não há paz sem justiça», sustentou. «Como pode haver paz com ocupação?», questionou. Sobretudo quando essa ocupação é acompanhada pelo terrorismo de Estado. «Nós temos o direito a defender a nossa identidade, a nossa dignidade, a nossa terra», destacou. «A nossa terra está a ser roubada. Vemos o nosso território a ser invadido por colonatos. É a própria Palestina que está em perigo.»
Alcançar a justiça possível
Hannan Awwad fez questão de recordar que os palestinianos sempre procuraram a «justiça possível». Em 1988, iniciou-se o processo de paz que Arafat nomeou de Paz dos Bravos. Esta paz, que a escritora considera uma paz da «coragem e do sacrifício», passou pela aceitação da constituição de um estado autónomo, mesmo que dentro das fronteiras surgidas da guerra de 1967, ou seja, aquém daquilo a que «obrigam» as várias resoluções da ONU. «Arafat sempre acreditou na política de alcançar o possível e pedir mais», afirmou Hanan Awwad, que reafirmou as reivindicações dos palestinianos: «Nós queremos uma Palestina baseada nas fronteiras anteriores a 1967, com capital em Jerusalém Leste.»
Mas os acordos de paz, lembrou, nunca foram cumpridos por parte de Israel, que sempre foi adiando os compromissos assumidos. «A resposta, em vez de paz, foi o terrorismo de Estado.»
«Quando assinámos os acordos de paz, falou-se das resoluções das Nações Unidas e da necessidade de estas serem efectivamente implementadas. Todas estas resoluções falam de um estado independente para a Palestina e da ilegalidade da ocupação e dos colonatos», lembrou Hanan Awwad. Até ao momento, nenhuma das resoluções foi implementada e sem que nada tenha acontecido a Israel por esse facto. Também as armas nucleares israelitas nunca suscitaram a preocupação da «comunidade internacional», que tanto se preocupa quando outros países possuem – ou supõe-se possuírem – arsenais semelhantes.
Quanto à «retirada unilateral» de Gaza proposta por Sharon, Awwad considera que esta apenas pretende «criar uma série de problemas ao nosso país». Afirmando que as autoridades palestinianas estão preparadas para assumir a responsabilidade por qualquer parte do território que seja libertada, a escritora acusou as manobras de Israel, que quer entregar apenas uma parte do território da Palestina, mantendo o controlo de todas as fronteiras. «Assim podem dizer que estão a fazer alguma coisa», denunciou Awwad.
«Estamos dispostos a acolher este passo desde que seja o primeiro de muitos outros passos para a retirada total da Palestina e que permita a formação de um estado da Palestina independente e soberano», afirmou a escritora. Reafirmando o compromisso dos palestinianos com uma paz «justa e duradoura», Hanan Awwad realça que esta não será fácil, «com todos os assassinatos de que somos vítimas todos os dias». Mas, acredita, «sabemos que vamos sair vitoriosos».
Coragem sitiada
«A Palestina é o princípio» é o mais recente livro de Hanan Awwad. A obra descreve a vida quotidiana do presidente Yasser Arafat na sua residência em Ramallah, onde se encontra cercado e sitiado há três anos. O livro debruça-se, em particular, sobre os três meses mais difíceis desse cerco brutal a que o povo palestiniano e o seu presidente – a quem a obra é dedicada – responderam com grande determinação, coragem e heroísmo.
Na sessão em Lisboa, a escritora contou que o edifício que serve de sede à Autoridade Nacional Palestiniana, onde Arafat se encontra, está destruído em 80 por cento. Mas garantiu que o presidente continua no controlo da situação. Para Awwad, é incrível que se permita que um presidente eleito democraticamente pelo seu povo permaneça cercado por tropas ocupantes durante tanto tempo.
Apesar do cerco, já muita gente visitou Arafat, sobretudo delegações estrangeiras. Dos EUA, vieram já várias. Mas o que fazem é exigir coisas aos palestinianos, conta Awwad. E não consta que façam o mesmo aos israelitas.
«A questão com que muitas vezes nos vemos confrontados em todo o mundo é a forma como Israel e Palestina são tratados, como que postos num equilíbrio que não existe. Como se não houvesse um ocupante e um ocupado.»
Solidariedade portuguesa
Do encontro de Lisboa com a escritora palestiniana Hanan Awwad, para além do apoio sentido na presença de mais de duas centenas de pessoas, saiu uma moção de solidariedade com a luta do povo da Palestina. Na moção, exige-se a demolição do muro e o fim do cerco imposto ao presidente da ANP, Yasser Arafat. Os presentes apelam também ao Conselho de Segurança da ONU para que obrigue Israel a acatar as resoluções, que prevêem o fim da ocupação militar israelita dos territórios palestinianos. Ao Governo português, exige-se a rejeição da «política guerreira do governo de Sharon», sem subserviências aos Estados Unidos.
Na mesa do encontro, para além de Hanan Awwad, encontravam-se Aquilino Ribeiro Machado, o presidente do CPPC João Cunha Serra, os prefessores universitários Jorge Cadima e Silas Cerqueira, o sacerdote Frei Bento Domingues, o dirigente da CGTP-IN Carlos Carvalho, o embaixador palestiniano Issam Besseisso e José Saramago.
Considerando que, na sua terra, tudo estará «numa situação crítica», a escritora destaca três pontos particularmente críticos: o cerco ao presidente eleito da Autoridade Palestiniana, Yasser Arafat, as condições dos «presos de consciência» e a construção do muro. Sobre este último ponto, Awwad desmonta a argumentação das autoridades israelitas de que o muro serve para a segurança de Israel dos bombistas vindos da Palestina: «já na literatura sionista dos anos 50 surgiam referências à construção de um muro de separação.» E este muro está a roubar 58 por cento do território da Palestina e a impedir a «livre circulação das pessoas na sua terra», sustenta a escritora.
«Este é um muro real, material. Mas há outros, que eles ergueram para o povo palestiniano», acusa Hanan Awwad, denunciando as graves limitações à liberdade de movimento dos palestinianos: «como se pode negar o direito de circulação a pessoas que pretendem ir para as suas casas, para os seus empregos, para as suas escolas e universidades?» Segundo Awwad, o que os israelitas fazem ao construir o muro é «roubar o tempo aos palestinianos».
Não pode haver paz com ocupação
Segundo os acordos assinados por ambas as partes – lembrou a escritora – os palestinianos deveriam já ter o seu estado independente desde 1999. «Entretanto estamos em 2004 e não temos nada.» Hanan Awwad recordou ainda que as autoridades palestinianas aceitaram o famoso Roteiro para a Paz, com muitas reservas, pois este dá «muito pouco aos palestinianos». Mas foi aceite na totalidade e, lembrou, «pedimos que ele fosse concretizado de forma honesta e séria, com prazos fixos para a sua concretização». A escritora entende que deveriam ter sido desde logo fixados prazos para a retirada de Israel dos territórios palestinianos, bem como para o desmantelamento dos colonatos e a destruição do muro. «Caso contrário, falar em paz seria uma falsa noção. É totalmente artificial falar de paz com um muro que nos divide, com o assassinato do nosso povo.»
Recordando terem sido os israelitas a colocar dúvidas ao Roteiro para a Paz (Sharon colocava em causa 14 pontos do «acordo»), Hanan Awwad destacou que os palestinianos defendem a paz. «Mas não há paz sem justiça», sustentou. «Como pode haver paz com ocupação?», questionou. Sobretudo quando essa ocupação é acompanhada pelo terrorismo de Estado. «Nós temos o direito a defender a nossa identidade, a nossa dignidade, a nossa terra», destacou. «A nossa terra está a ser roubada. Vemos o nosso território a ser invadido por colonatos. É a própria Palestina que está em perigo.»
Alcançar a justiça possível
Hannan Awwad fez questão de recordar que os palestinianos sempre procuraram a «justiça possível». Em 1988, iniciou-se o processo de paz que Arafat nomeou de Paz dos Bravos. Esta paz, que a escritora considera uma paz da «coragem e do sacrifício», passou pela aceitação da constituição de um estado autónomo, mesmo que dentro das fronteiras surgidas da guerra de 1967, ou seja, aquém daquilo a que «obrigam» as várias resoluções da ONU. «Arafat sempre acreditou na política de alcançar o possível e pedir mais», afirmou Hanan Awwad, que reafirmou as reivindicações dos palestinianos: «Nós queremos uma Palestina baseada nas fronteiras anteriores a 1967, com capital em Jerusalém Leste.»
Mas os acordos de paz, lembrou, nunca foram cumpridos por parte de Israel, que sempre foi adiando os compromissos assumidos. «A resposta, em vez de paz, foi o terrorismo de Estado.»
«Quando assinámos os acordos de paz, falou-se das resoluções das Nações Unidas e da necessidade de estas serem efectivamente implementadas. Todas estas resoluções falam de um estado independente para a Palestina e da ilegalidade da ocupação e dos colonatos», lembrou Hanan Awwad. Até ao momento, nenhuma das resoluções foi implementada e sem que nada tenha acontecido a Israel por esse facto. Também as armas nucleares israelitas nunca suscitaram a preocupação da «comunidade internacional», que tanto se preocupa quando outros países possuem – ou supõe-se possuírem – arsenais semelhantes.
Quanto à «retirada unilateral» de Gaza proposta por Sharon, Awwad considera que esta apenas pretende «criar uma série de problemas ao nosso país». Afirmando que as autoridades palestinianas estão preparadas para assumir a responsabilidade por qualquer parte do território que seja libertada, a escritora acusou as manobras de Israel, que quer entregar apenas uma parte do território da Palestina, mantendo o controlo de todas as fronteiras. «Assim podem dizer que estão a fazer alguma coisa», denunciou Awwad.
«Estamos dispostos a acolher este passo desde que seja o primeiro de muitos outros passos para a retirada total da Palestina e que permita a formação de um estado da Palestina independente e soberano», afirmou a escritora. Reafirmando o compromisso dos palestinianos com uma paz «justa e duradoura», Hanan Awwad realça que esta não será fácil, «com todos os assassinatos de que somos vítimas todos os dias». Mas, acredita, «sabemos que vamos sair vitoriosos».
Coragem sitiada
«A Palestina é o princípio» é o mais recente livro de Hanan Awwad. A obra descreve a vida quotidiana do presidente Yasser Arafat na sua residência em Ramallah, onde se encontra cercado e sitiado há três anos. O livro debruça-se, em particular, sobre os três meses mais difíceis desse cerco brutal a que o povo palestiniano e o seu presidente – a quem a obra é dedicada – responderam com grande determinação, coragem e heroísmo.
Na sessão em Lisboa, a escritora contou que o edifício que serve de sede à Autoridade Nacional Palestiniana, onde Arafat se encontra, está destruído em 80 por cento. Mas garantiu que o presidente continua no controlo da situação. Para Awwad, é incrível que se permita que um presidente eleito democraticamente pelo seu povo permaneça cercado por tropas ocupantes durante tanto tempo.
Apesar do cerco, já muita gente visitou Arafat, sobretudo delegações estrangeiras. Dos EUA, vieram já várias. Mas o que fazem é exigir coisas aos palestinianos, conta Awwad. E não consta que façam o mesmo aos israelitas.
«A questão com que muitas vezes nos vemos confrontados em todo o mundo é a forma como Israel e Palestina são tratados, como que postos num equilíbrio que não existe. Como se não houvesse um ocupante e um ocupado.»
Solidariedade portuguesa
Do encontro de Lisboa com a escritora palestiniana Hanan Awwad, para além do apoio sentido na presença de mais de duas centenas de pessoas, saiu uma moção de solidariedade com a luta do povo da Palestina. Na moção, exige-se a demolição do muro e o fim do cerco imposto ao presidente da ANP, Yasser Arafat. Os presentes apelam também ao Conselho de Segurança da ONU para que obrigue Israel a acatar as resoluções, que prevêem o fim da ocupação militar israelita dos territórios palestinianos. Ao Governo português, exige-se a rejeição da «política guerreira do governo de Sharon», sem subserviências aos Estados Unidos.
Na mesa do encontro, para além de Hanan Awwad, encontravam-se Aquilino Ribeiro Machado, o presidente do CPPC João Cunha Serra, os prefessores universitários Jorge Cadima e Silas Cerqueira, o sacerdote Frei Bento Domingues, o dirigente da CGTP-IN Carlos Carvalho, o embaixador palestiniano Issam Besseisso e José Saramago.