Agir para vencer
O sol brilha, as nuvens aproximam-se, o Tejo brilha lá em baixo, Lisboa estende-se ao fundo e o País mostra-se na Quinta da Atalaia. Está lá tudo, o melhor e o pior, as tradições e as novidades, os ofícios e as artes, o vestuário e os adornos, a doçaria e as bebidas, o passado e o presente. E também o futuro, através das preocupações e das propostas do PCP e principalmente das pessoas, os naturais e os visitantes, que têm nas suas mãos e na sua força o dia de amanhã.
Algarve, Beira Interior, Santarém, Viseu e Porto
Comecemos pelo princípio, ou seja, pelo fim. Quem entra pela Medideira começa por visitar o Algarve, região com belíssimas praias, muitos turistas de perto e de longe e… 40 mil hectares destruídos pelo fogo, a maior área ardida do País este ano. Desapareceram sobreiros, medronheiros, colmeias, o sustento de milhares de pessoas. A paisagem natural ficou destruída. «Quem vai pagar os prejuízos? É criminosa a falta de medidas e meios adequados para prevenir os incêndios», lê-se na exposição política.
Outros temas são abordados como as assembleias de organizações do PCP, a campanha de contactos e as campanhas eleitorais. Uma reivindicação surge destacada: a criação da Região Administrativa do Algarve em vez da Grande Área Metropolitana do Algarve.
Com um D. Rodrigo na mão, descemos à Beira Interior, que é como quem diz a Castelo Branco e à Guarda, terra alta lá e aqui, mas na Atalaia com a particularidade de ser vista de cima pelo Algarve. Só na Festa! Primeiras páginas do Avante! decoram o pavilhão. Pintadas na madeira, mostram manchetes com notícias da região. Ao lado, em pequeno e em papel, a cópia do jornal. Em 1946, falava-se na repressão brutal de greves nos lanifícios, em 1975 na vontade dos assalariados rurais se organizarem num sindicato, em 1979 era a vitória dos trabalhadores da Panasqueira, em 2004 a luta pelos direitos laborais na empresa Gartêxtil.
Cebola, alho, presunto, azeite, pão de centeio, vinho, azeite e, claro, queijo espalham-se pelo stand, ora para decorar, ora para comprar. Numa das paredes, um mapa de desertificação impressiona o visitante, mostrando a diminuição da população nos concelhos, especificado valores e comparações em tabelas. É o resultado da desindustrialização e da «desagriculturação». As propostas do Partido estão junto à análise dos problemas: implementar um plano de revitalização do plano produtivo e de postos de trabalho, atrair o investimento público, criar incentivos fiscais para as empresas se instalarem na região e reforçar o associativismo e o cooperativismo agrícola.
Está tanta gente agrupada em Santarém. O que será? Caminhamos um pouco e descobrimos um homem a construir pequenas peças de madeira num torno mecânico. Em poucos minutos saem piões, candeeiros, almofarizes e rolos da massa, provocando sorrisos encantados de miúdos e graúdos, peças que podem ser compradas pelos visitantes pelo valor que queiram dar. É uma recordação da Festa, feita quase por encomenda.
Uma cronologia entre 1974 e 2004 espalha-se pelas paredes, ilustrada com imagens das diferentes épocas, desde as cargas policiais da ditadura às manifestações, cooperativas e eleições do período revolucionário. A primeira página da Constituição de 1976 também lá está, importante pilar da democracia portuguesa.
Depois de uma sopa da pedra e de uma tijelada de Abrantes, de estômago cheio mas ainda de olhos gulosos, seguimos um rancho folclórico que vai a passar, cantando melodias tradicionais portuguesas. Vão para Viseu, tocando as suas guitarras e mostrando os dotes vocais. À chegada deparamo-nos com vários autocolante contra as portagens no IP5 e na A25, apelando a assinar a petição na internet: www.contraportagens.com. Não nos podemos esquecer de acrescentar o nosso nome no site.
Parece que estamos num páteo típico, com mesas e cadeiras para amparar os visitantes mais cansados. Silhuetas de torres de castelo encimam fotografias de manifestações realizadas no distrito este ano. «PCP com os agricultores por um mundo rural vivo», sublinha um mural em letras vermelhas. Em frente, encontramos compota de abóbora, produtos de agricultura biológica, potes de mel, mealheiros de barro e peças de linho.
Segue-se um longo pavilhão vermelho e azul, o do Porto, com inúmeros pratos culinários e produtos artesanais. A pronúncia do Norte mostra que chegámos a outra zona do País. «Agir para vencer» afirma um placard do restaurante de Gondomar. As propostas do PCP e as medidas surgidas da iniciativa do Partido surgem ao longo de todo o pavilhão, como a criação do Parque Natural da Serra de Santa Justa, em Valongo. Mas os problemas também lá aparecem: pressão imobiliária, incêndios, crescimento de entulho, pilhagens de espécies, poluição dos rios. «Que futuro?» é a pergunta que surge. A resposta está à nossa volta: as pessoas.
Já cheira a francesinhas. O bacalhau à Maia e o vinho verde também piscam o olho aos visitantes e muitos não se fazem difíceis, depois de petiscar uns tremoços. Logo ali temos a campanha de fundo para as obras de restauro do Centro de Trabalho de Gaia. Vamos lá, vale a pena contribuir.
Lisboa, Braga, Aveiro, Madeira e Açores
Estamos em frente ao Palco 25 de Abril. Uma banda ensaia para os espectáculos de longo à noite. O sol aquece. O melhor é atravessar a rua e visitar o pavilhão de Lisboa, pintado em tons de amarelo. Uma frase do poeta chileno Pablo Neruda, retirada de «O meu Partido», recebe o visitante: «Fizeste-me indestrutível, porque contigo não termino em mim mesmo.» Mesmo ao lado, foi pintada uma lindíssima foice e martelo feita com o alinhamento de pessoas. Somos nós todos.
O pavilhão está repleto de textos de outros poetas, todos eles com um conteúdo político, como um poema de Bertold Brecht sobre privatizações ou o «Soneto do Trabalho», de Ary dos Santos. A completar, cartazes com a caracterização da realidade política, social e económica do País e do distrito, com fotos de manifestações dos motoristas da Carris, dos estudantes do ensino secundário e superior, do 25 de Abril. O novo Governo, esse, é igual ao anterior. «Igual na ofensiva contra os trabalhadores e as populações», explica-se na exposição. Recortes de jornais concretizam, noticiando o aumento das propinas e dos preços dos transportes públicos, despedimentos na Bombardier e na Delphi…
Com a crise a prolongar-se, a Feira da Ladra vem mesmo a calhar. Entramos como se fossemos apanhar o eléctrico para a Graça, o 28, amarelinho e típico. Escolhemos uns livros e espreitamos as peças de roupa e rumamos a Braga, do outro lado da rua, ainda contornando a praça.
«Luta por ti, junta-te a nós» – a frase recebe-nos à chegada. Lá dentro descobrimos bandeiras vermelhas nas paredes, pintadas com palavras cheias, grandes, vivas, de necessária concretização e alargamento a toda a população: liberdade, emprego, habitação, saúde, educação, paz, cultura.
Uma pausa já sabia bem. Sentamo-nos na Tasca do Camilo. Piscamos o olho aos pratinhos de presunto e de salpicão, matamos a sede com vinho verde, projectamos um jantar de massa à lavrador e uma sobremesa com papos de anjo e acabamos por encontrar um oleiro a trabalhar o barro. Os lenços dos namorados e os brinquedos de madeira de Vila Verde e Famalicão são tão bonitos! Como está a carteira?
Voltamos a atravessar a rua e chegamos a Aveiro. Uma enorme foice e martelo em ferro forjado está no centro do pavilhão, lembrando um barco, com a estrela a orientar a navegação. Visitamos a exposição política, construída em volta de seis temas: organização – «base essencial para um Partido marxista-leninista» –, eleições para o Parlamento Europeu – com a campanha eleitoral a traduzir-se numa grande jornada de contacto com os trabalhadores e as populações –, defesa do mundo rural – «Pequenos e médios agricultores lutam pela sobrevivência contra os ditames das políticas de direita do Governo e da União Europeia», lembra-se –, aborto – o julgamento de sete mulheres e familiares em Aveiro gerou um amplo movimento de solidariedade e obrigou à discussão do problema –, Universal Motors – desde Maio, 70 trabalhadores mantêm-se à porta da empresa contra os despedimentos – e trabalhadores, tema ilustrado com fotos de manifestações recentes.
Passamos agora para as ilhas, primeiro a Madeira, onde uma exposição de fotografias mostra alguns «Contributos do PCP» desde 1974, como a luta contra os separatistas e os bombistas ou as manifestações pelos direitos laborais e contra a guerra na Jugoslávia. Cartazes eleitorais da APU e uma foto do poeta Ary dos Santos declamando poesia no encerramento da I Assembleia da Organização Regional concluem a mostra.
A campanha de recolha de fundos para as eleições regionais está presente em quase todos os pavilhões, mas aqui ocupa um lugar de destaque. Bilhas de barro recolhem os donativos dos militantes e amigos do PCP para dar «Mais Força à CDU».
Também nos Açores, os cartazes da campanha se evidenciam. E logo na exposição se apresentam argumentos para votar na coligação: «É pela consciência do trabalho feito que se alicerça a legitimidade do crescimento eleitoral. Provámos ser dignos da sua confiança, por isso estamos confiantes no futuro. Defendemos os interesses de cada ilha, por isso registámos novas adesões de militantes e fizemos mais amigos.» Chá, queijo, chouriço e ananás lembram os cheiros do arquipélago atlântico, em parte transplantado para a Atalaia.
Leiria, Trás-os-Montes e Coimbra
O dia avança e começa a escurecer. Visitar os pavilhões das organizações regionais e apreciar todo o que há para ver não pode ser uma tarefa rápida. O de Leiria é decorado com loiça de Alcobaça e fotos de lutas de trabalhadores do distrito. Garrafas de ginja de Óbidos atraem as gargantas secas. Os olhos seguem para a exposição, em frente a uma banca com copos, taças, candeeiros e jarras em vidro. Não é difícil de adivinhar que vêm da Marinha Grande.
«Um Partido com iniciativa» é o tema da exposição, mostrando fotos de assembleias regionais, visitas de Carlos Carvalhas e Ilda Figueiredo a zonas ardidas e a localidades piscatórias e recortes de jornais locais falando sobre as propostas do PCP. São ainda mostradas obras de freguesias com presidência da CDU. A Junta da Ajuda, por exemplo, constitui uma equipa com três operários com pequenas máquinas para executar obras por administração directa. E elas lá estão à vista de todos.
A região de Trás-os-Montes e Alto Douro está duplamente representada por Vila Real e Bragança. Vinhos de reserva da região do Douro são saboreados juntamente com cristas de galo, alheira, orelheira, massa vilhaense e feijoada transmontana. Tudo o que é bom está incluído neste prato. Nas paredes, os visitantes podem descobrir novidades sobre o movimento unitário camponês, as ameaças à propriedade comunitárias e os protestos de milhares de viticultores na Régua, no fim do mês de Julho, contra a reforma da Região demarcada do Douro. Ou ainda admirar em fotos a arquitectura da zona de 14 exemplares de casas típicas de Trás-os-Montes ou admirar as cores vivas dos fatos carnavalescos dos caretos. As suas máscaras podem ser adquiridas na banca, juntamente com cestos, mantas e talheres de cabo de madeira.
Coimbra é a próxima paragem. As pernas estão cansadas, os olhos pedem repouso e o estômago não recusa uma chanfana, acompanhada por broa de milho e coroada por um pastelito do Tentúgal. Come-se bem e muito na Atalaia! Para desmoer a refeição observamos a exposição «Abril em Coimbra», com grande fotos a preto e branco das manifestações dos primeiros dias após a Revolução de 1974. Muitos são os cartazes a exigir «Socialismo». A retirada da placa da sede da Pide e a saída dos agentes, a 28 de Abril, também está registada. Há tantas pessoas a assistir que se têm de empurrar para caberem todas. É quase como aqui, na Festa. Os grupos vão escolhendo o poiso para o jantar, alegres e esfomeados. Avancemos.
Setúbal, Viana do Castelo e Alentejo
Saímos na Praça 1.º de Maio e encontramos um dos pavilhões mais bonitos da Atalaia, junto ao lago, a esta hora ainda povoado de crianças encaloradas e pouco envergonhadas. É a Setúbal que chegamos.
A base do pavilhão é o tubo – símbolo do trabalho e da Festa –, usado na construção e na decoração. Até mesmo as designações das localidades são feitas com o desenho de tubos. O verde impera, acompanhado por tons vermelhos e brancos. À entrada uma foice e martelo destaca-se, também em tubo, mas vermelha. Não dá mesmo para mudar esta cor.
Ao longo dos stands cartazes mostram reivindicações do PCP para o distrito, como a manutenção do pólo ferroviário do Barreiro, ou o protesto contra o encerramento de empresas têxteis. No centro do espaço, uma exposição sobre as prioridades para a região: desenvolvimento sustentável dos recursos piscatórios, agrícolas, pecuários e florestais; a protecção das áreas naturais; e uma nova orientação para a construção e reparação naval e a produção siderúrgica, de celuloses e de energia. A completar, recordam-se conquistas de Abril, como as eleições livres, a liberdade de associação, o fim da censura, as nacionalizações e a reforma agrária.
O som de um grupo folclórico no Palco Arraial atrai-nos mais para cima e encontramos finalmente Viana do Castelo. Animada pela música e decorada com imitações de bordados, filigrana e contas de ouro, o stand apresenta fotos de murais do PCP. «Os ricos construíram riqueza sobre o suor dos pobres» lê-se num deles. O cheiro do arroz de serrabulho, dos rojões e do vinho à pressão – servido em malgas – misturam-se no ar. Visitamos uma exposição de arte, calma, para equilibrar a loucura que lá vai fora. Cerca de 50 obras de 22 pintores espalham-se pelas paredes. Algumas já estão vendidas.
A noite vai longa. A lua mostra-se no céu escuro, entre nuvens passageiras que contemplam a Festa de cima. A música surge de todos os lados, só é difícil optar por um palco. O dia termina está a terminar, mas antes há que completar esta volta a Portugal.
Só falta o Alentejo, vermelho por fora e por dentro. Os restaurantes parecem casas. Até têm abóboras em montinhos e cebolas penduradas. Redes de pescadores decoram as cozinhas do litoral. As ideias políticas ocupam o lugar principal deste espaço, dando razões para que se constitua a Grande Área Metropolitana do Alentejo, como o melhor uso dos recursos humanos e técnicos da região, a defesa da coesão cultural e o fortalecimento dos interesses da região em organismos nacionais e internacionais.
«Queremos que emprego, solidariedade, direitos e liberdades sejam palavras com sentido», sustenta-se, lembrando-se que o Governo continua a retirar verbas ao Alentejo dos programas europeus, impedindo o seu progresso. «Precisamos de apoio financeiro para actividades e não de promessas.»
Já está, conseguimos ver tudo! Será que ainda falta um cantinho com novas surpresas? Não? Então, abrimos o programa para optar entre uma peça de teatro, um debate ou um espectáculo musical, mas sentados numa cadeira…
Algarve, Beira Interior, Santarém, Viseu e Porto
Comecemos pelo princípio, ou seja, pelo fim. Quem entra pela Medideira começa por visitar o Algarve, região com belíssimas praias, muitos turistas de perto e de longe e… 40 mil hectares destruídos pelo fogo, a maior área ardida do País este ano. Desapareceram sobreiros, medronheiros, colmeias, o sustento de milhares de pessoas. A paisagem natural ficou destruída. «Quem vai pagar os prejuízos? É criminosa a falta de medidas e meios adequados para prevenir os incêndios», lê-se na exposição política.
Outros temas são abordados como as assembleias de organizações do PCP, a campanha de contactos e as campanhas eleitorais. Uma reivindicação surge destacada: a criação da Região Administrativa do Algarve em vez da Grande Área Metropolitana do Algarve.
Com um D. Rodrigo na mão, descemos à Beira Interior, que é como quem diz a Castelo Branco e à Guarda, terra alta lá e aqui, mas na Atalaia com a particularidade de ser vista de cima pelo Algarve. Só na Festa! Primeiras páginas do Avante! decoram o pavilhão. Pintadas na madeira, mostram manchetes com notícias da região. Ao lado, em pequeno e em papel, a cópia do jornal. Em 1946, falava-se na repressão brutal de greves nos lanifícios, em 1975 na vontade dos assalariados rurais se organizarem num sindicato, em 1979 era a vitória dos trabalhadores da Panasqueira, em 2004 a luta pelos direitos laborais na empresa Gartêxtil.
Cebola, alho, presunto, azeite, pão de centeio, vinho, azeite e, claro, queijo espalham-se pelo stand, ora para decorar, ora para comprar. Numa das paredes, um mapa de desertificação impressiona o visitante, mostrando a diminuição da população nos concelhos, especificado valores e comparações em tabelas. É o resultado da desindustrialização e da «desagriculturação». As propostas do Partido estão junto à análise dos problemas: implementar um plano de revitalização do plano produtivo e de postos de trabalho, atrair o investimento público, criar incentivos fiscais para as empresas se instalarem na região e reforçar o associativismo e o cooperativismo agrícola.
Está tanta gente agrupada em Santarém. O que será? Caminhamos um pouco e descobrimos um homem a construir pequenas peças de madeira num torno mecânico. Em poucos minutos saem piões, candeeiros, almofarizes e rolos da massa, provocando sorrisos encantados de miúdos e graúdos, peças que podem ser compradas pelos visitantes pelo valor que queiram dar. É uma recordação da Festa, feita quase por encomenda.
Uma cronologia entre 1974 e 2004 espalha-se pelas paredes, ilustrada com imagens das diferentes épocas, desde as cargas policiais da ditadura às manifestações, cooperativas e eleições do período revolucionário. A primeira página da Constituição de 1976 também lá está, importante pilar da democracia portuguesa.
Depois de uma sopa da pedra e de uma tijelada de Abrantes, de estômago cheio mas ainda de olhos gulosos, seguimos um rancho folclórico que vai a passar, cantando melodias tradicionais portuguesas. Vão para Viseu, tocando as suas guitarras e mostrando os dotes vocais. À chegada deparamo-nos com vários autocolante contra as portagens no IP5 e na A25, apelando a assinar a petição na internet: www.contraportagens.com. Não nos podemos esquecer de acrescentar o nosso nome no site.
Parece que estamos num páteo típico, com mesas e cadeiras para amparar os visitantes mais cansados. Silhuetas de torres de castelo encimam fotografias de manifestações realizadas no distrito este ano. «PCP com os agricultores por um mundo rural vivo», sublinha um mural em letras vermelhas. Em frente, encontramos compota de abóbora, produtos de agricultura biológica, potes de mel, mealheiros de barro e peças de linho.
Segue-se um longo pavilhão vermelho e azul, o do Porto, com inúmeros pratos culinários e produtos artesanais. A pronúncia do Norte mostra que chegámos a outra zona do País. «Agir para vencer» afirma um placard do restaurante de Gondomar. As propostas do PCP e as medidas surgidas da iniciativa do Partido surgem ao longo de todo o pavilhão, como a criação do Parque Natural da Serra de Santa Justa, em Valongo. Mas os problemas também lá aparecem: pressão imobiliária, incêndios, crescimento de entulho, pilhagens de espécies, poluição dos rios. «Que futuro?» é a pergunta que surge. A resposta está à nossa volta: as pessoas.
Já cheira a francesinhas. O bacalhau à Maia e o vinho verde também piscam o olho aos visitantes e muitos não se fazem difíceis, depois de petiscar uns tremoços. Logo ali temos a campanha de fundo para as obras de restauro do Centro de Trabalho de Gaia. Vamos lá, vale a pena contribuir.
Lisboa, Braga, Aveiro, Madeira e Açores
Estamos em frente ao Palco 25 de Abril. Uma banda ensaia para os espectáculos de longo à noite. O sol aquece. O melhor é atravessar a rua e visitar o pavilhão de Lisboa, pintado em tons de amarelo. Uma frase do poeta chileno Pablo Neruda, retirada de «O meu Partido», recebe o visitante: «Fizeste-me indestrutível, porque contigo não termino em mim mesmo.» Mesmo ao lado, foi pintada uma lindíssima foice e martelo feita com o alinhamento de pessoas. Somos nós todos.
O pavilhão está repleto de textos de outros poetas, todos eles com um conteúdo político, como um poema de Bertold Brecht sobre privatizações ou o «Soneto do Trabalho», de Ary dos Santos. A completar, cartazes com a caracterização da realidade política, social e económica do País e do distrito, com fotos de manifestações dos motoristas da Carris, dos estudantes do ensino secundário e superior, do 25 de Abril. O novo Governo, esse, é igual ao anterior. «Igual na ofensiva contra os trabalhadores e as populações», explica-se na exposição. Recortes de jornais concretizam, noticiando o aumento das propinas e dos preços dos transportes públicos, despedimentos na Bombardier e na Delphi…
Com a crise a prolongar-se, a Feira da Ladra vem mesmo a calhar. Entramos como se fossemos apanhar o eléctrico para a Graça, o 28, amarelinho e típico. Escolhemos uns livros e espreitamos as peças de roupa e rumamos a Braga, do outro lado da rua, ainda contornando a praça.
«Luta por ti, junta-te a nós» – a frase recebe-nos à chegada. Lá dentro descobrimos bandeiras vermelhas nas paredes, pintadas com palavras cheias, grandes, vivas, de necessária concretização e alargamento a toda a população: liberdade, emprego, habitação, saúde, educação, paz, cultura.
Uma pausa já sabia bem. Sentamo-nos na Tasca do Camilo. Piscamos o olho aos pratinhos de presunto e de salpicão, matamos a sede com vinho verde, projectamos um jantar de massa à lavrador e uma sobremesa com papos de anjo e acabamos por encontrar um oleiro a trabalhar o barro. Os lenços dos namorados e os brinquedos de madeira de Vila Verde e Famalicão são tão bonitos! Como está a carteira?
Voltamos a atravessar a rua e chegamos a Aveiro. Uma enorme foice e martelo em ferro forjado está no centro do pavilhão, lembrando um barco, com a estrela a orientar a navegação. Visitamos a exposição política, construída em volta de seis temas: organização – «base essencial para um Partido marxista-leninista» –, eleições para o Parlamento Europeu – com a campanha eleitoral a traduzir-se numa grande jornada de contacto com os trabalhadores e as populações –, defesa do mundo rural – «Pequenos e médios agricultores lutam pela sobrevivência contra os ditames das políticas de direita do Governo e da União Europeia», lembra-se –, aborto – o julgamento de sete mulheres e familiares em Aveiro gerou um amplo movimento de solidariedade e obrigou à discussão do problema –, Universal Motors – desde Maio, 70 trabalhadores mantêm-se à porta da empresa contra os despedimentos – e trabalhadores, tema ilustrado com fotos de manifestações recentes.
Passamos agora para as ilhas, primeiro a Madeira, onde uma exposição de fotografias mostra alguns «Contributos do PCP» desde 1974, como a luta contra os separatistas e os bombistas ou as manifestações pelos direitos laborais e contra a guerra na Jugoslávia. Cartazes eleitorais da APU e uma foto do poeta Ary dos Santos declamando poesia no encerramento da I Assembleia da Organização Regional concluem a mostra.
A campanha de recolha de fundos para as eleições regionais está presente em quase todos os pavilhões, mas aqui ocupa um lugar de destaque. Bilhas de barro recolhem os donativos dos militantes e amigos do PCP para dar «Mais Força à CDU».
Também nos Açores, os cartazes da campanha se evidenciam. E logo na exposição se apresentam argumentos para votar na coligação: «É pela consciência do trabalho feito que se alicerça a legitimidade do crescimento eleitoral. Provámos ser dignos da sua confiança, por isso estamos confiantes no futuro. Defendemos os interesses de cada ilha, por isso registámos novas adesões de militantes e fizemos mais amigos.» Chá, queijo, chouriço e ananás lembram os cheiros do arquipélago atlântico, em parte transplantado para a Atalaia.
Leiria, Trás-os-Montes e Coimbra
O dia avança e começa a escurecer. Visitar os pavilhões das organizações regionais e apreciar todo o que há para ver não pode ser uma tarefa rápida. O de Leiria é decorado com loiça de Alcobaça e fotos de lutas de trabalhadores do distrito. Garrafas de ginja de Óbidos atraem as gargantas secas. Os olhos seguem para a exposição, em frente a uma banca com copos, taças, candeeiros e jarras em vidro. Não é difícil de adivinhar que vêm da Marinha Grande.
«Um Partido com iniciativa» é o tema da exposição, mostrando fotos de assembleias regionais, visitas de Carlos Carvalhas e Ilda Figueiredo a zonas ardidas e a localidades piscatórias e recortes de jornais locais falando sobre as propostas do PCP. São ainda mostradas obras de freguesias com presidência da CDU. A Junta da Ajuda, por exemplo, constitui uma equipa com três operários com pequenas máquinas para executar obras por administração directa. E elas lá estão à vista de todos.
A região de Trás-os-Montes e Alto Douro está duplamente representada por Vila Real e Bragança. Vinhos de reserva da região do Douro são saboreados juntamente com cristas de galo, alheira, orelheira, massa vilhaense e feijoada transmontana. Tudo o que é bom está incluído neste prato. Nas paredes, os visitantes podem descobrir novidades sobre o movimento unitário camponês, as ameaças à propriedade comunitárias e os protestos de milhares de viticultores na Régua, no fim do mês de Julho, contra a reforma da Região demarcada do Douro. Ou ainda admirar em fotos a arquitectura da zona de 14 exemplares de casas típicas de Trás-os-Montes ou admirar as cores vivas dos fatos carnavalescos dos caretos. As suas máscaras podem ser adquiridas na banca, juntamente com cestos, mantas e talheres de cabo de madeira.
Coimbra é a próxima paragem. As pernas estão cansadas, os olhos pedem repouso e o estômago não recusa uma chanfana, acompanhada por broa de milho e coroada por um pastelito do Tentúgal. Come-se bem e muito na Atalaia! Para desmoer a refeição observamos a exposição «Abril em Coimbra», com grande fotos a preto e branco das manifestações dos primeiros dias após a Revolução de 1974. Muitos são os cartazes a exigir «Socialismo». A retirada da placa da sede da Pide e a saída dos agentes, a 28 de Abril, também está registada. Há tantas pessoas a assistir que se têm de empurrar para caberem todas. É quase como aqui, na Festa. Os grupos vão escolhendo o poiso para o jantar, alegres e esfomeados. Avancemos.
Setúbal, Viana do Castelo e Alentejo
Saímos na Praça 1.º de Maio e encontramos um dos pavilhões mais bonitos da Atalaia, junto ao lago, a esta hora ainda povoado de crianças encaloradas e pouco envergonhadas. É a Setúbal que chegamos.
A base do pavilhão é o tubo – símbolo do trabalho e da Festa –, usado na construção e na decoração. Até mesmo as designações das localidades são feitas com o desenho de tubos. O verde impera, acompanhado por tons vermelhos e brancos. À entrada uma foice e martelo destaca-se, também em tubo, mas vermelha. Não dá mesmo para mudar esta cor.
Ao longo dos stands cartazes mostram reivindicações do PCP para o distrito, como a manutenção do pólo ferroviário do Barreiro, ou o protesto contra o encerramento de empresas têxteis. No centro do espaço, uma exposição sobre as prioridades para a região: desenvolvimento sustentável dos recursos piscatórios, agrícolas, pecuários e florestais; a protecção das áreas naturais; e uma nova orientação para a construção e reparação naval e a produção siderúrgica, de celuloses e de energia. A completar, recordam-se conquistas de Abril, como as eleições livres, a liberdade de associação, o fim da censura, as nacionalizações e a reforma agrária.
O som de um grupo folclórico no Palco Arraial atrai-nos mais para cima e encontramos finalmente Viana do Castelo. Animada pela música e decorada com imitações de bordados, filigrana e contas de ouro, o stand apresenta fotos de murais do PCP. «Os ricos construíram riqueza sobre o suor dos pobres» lê-se num deles. O cheiro do arroz de serrabulho, dos rojões e do vinho à pressão – servido em malgas – misturam-se no ar. Visitamos uma exposição de arte, calma, para equilibrar a loucura que lá vai fora. Cerca de 50 obras de 22 pintores espalham-se pelas paredes. Algumas já estão vendidas.
A noite vai longa. A lua mostra-se no céu escuro, entre nuvens passageiras que contemplam a Festa de cima. A música surge de todos os lados, só é difícil optar por um palco. O dia termina está a terminar, mas antes há que completar esta volta a Portugal.
Só falta o Alentejo, vermelho por fora e por dentro. Os restaurantes parecem casas. Até têm abóboras em montinhos e cebolas penduradas. Redes de pescadores decoram as cozinhas do litoral. As ideias políticas ocupam o lugar principal deste espaço, dando razões para que se constitua a Grande Área Metropolitana do Alentejo, como o melhor uso dos recursos humanos e técnicos da região, a defesa da coesão cultural e o fortalecimento dos interesses da região em organismos nacionais e internacionais.
«Queremos que emprego, solidariedade, direitos e liberdades sejam palavras com sentido», sustenta-se, lembrando-se que o Governo continua a retirar verbas ao Alentejo dos programas europeus, impedindo o seu progresso. «Precisamos de apoio financeiro para actividades e não de promessas.»
Já está, conseguimos ver tudo! Será que ainda falta um cantinho com novas surpresas? Não? Então, abrimos o programa para optar entre uma peça de teatro, um debate ou um espectáculo musical, mas sentados numa cadeira…