Espaço Mulher

Trinta anos de lutas pela igualdade e emancipação

O 30.º aniversário da Revolução vai ser o tema principal que, durante os três dias de Festa atravessará a vasta actividade prevista para o espaço dedicado às lutas e à acção das mulheres comunistas no Portugal de Abril.
Idalina Pedaço e Isabel Cruz fazem parte do grupo de trabalho que está a preparar um exigente programa que se apresenta este ano ainda com mais actividades, multiplicando a oferta aos visitantes.
O espaço situa-se em local privilegiado, concebido para o convívio, o bem estar, a reflexão e o debate. Este incidirá sobre as discriminações de toda a espécie que continuam a existir em todos os ramos de actividade e da sociedade, especialmente no mundo do trabalho onde as assimetrias salariais, os direitos à maternidade, a precariedade, os salários reais cada vez mais baixos e a falta de tempo livre limitam cada vez mais a vida e o futuro das mulheres portuguesas.
Desde sempre que as mulheres comunistas estão na vanguarda da luta pela dignidade das mulheres e na primeira linha de denúncia das injustiças, desde a violência doméstica ao criminoso julgamento de mulheres por motivo de aborto clandestino, passando por todos os problemas que o capitalismo produz com a sua marca predominantemente machista, onde a distribuição de tarefas – principalmente as domésticas – continua a recair quase em exclusivo sobre os ombros das mulheres.
Segundo Idalina Pedaço, o espaço este ano está localizado em local «que praticamente obriga o visitante a entrar, dada a sua excelente localização»: na Avenida da Liberdade, artéria principal da Festa, logo depois da Praça da Paz, junto ao Pavilhão Central.
Decorado com palavras de ordem de chamada de atenção à luta das mulheres pela sua emancipação, o pavilhão promete ser ainda mais aprazível do que nas edições anteriores.

A Igualdade é «canja»

Com uma vasta e diversificada programação cultural, o espaço completa-se com o Bar da Igualdade onde, no ano passado, muitos visitantes se renderam aos sabores dos chás - novidade que se repete este ano – acompanhados por bolos caseiros e compotas de fazer crescer água na boca. Além destas especiais ofertas, Idalina Pedaço revelou-nos mais uma estreia absoluta na Quinta da Atalaia: pela primeira vez, o Espaço da mulher comunista vai servir canja de galinha, «porque, em edições anteriores, muitos visitantes propuseram que fizéssemos alguma sopa», esclareceu, salientado que é mais uma proposta tendo em conta que o visitante deve ser recebido da melhor forma possível.
Unidas com o PCP por objectivos concretos, a luta das mulheres pela igualdade é inabalável ou se preferirem, «é canja».
Além do Bar, o espaço conta ainda com as vendas de trabalhos de artesanato, bijuterias e trapologia.

«Vozes e lutas em discurso directo»

Este é o tema principal da agenda da mulher comunista para 2005 que muitos já se habituaram a adquirir anualmente. Isabel Cruz faz parte do grupo de trabalho que elaborou a agenda composta por um manancial de informação de extrema importância para o conhecimento das lutas das mulheres.
Se no ano passado foi dedicada aos direitos sexuais e reprodutivos, este ano a agenda subordina-se à comemoração dos 30 anos do Dia Mundial das Mulheres e ao primeiro 8 de Março em liberdade, após o 25 de abril de 1974, e às primeiras eleições livres.
A agenda comporta uma vasta recolha de dados que provam, «ao contrário do que se pretende fazer crer, que as mulheres sempre lutaram pelos seus direitos e, logo após a Revolução de Abril – à semelhança do que fizeram durante décadas as mulheres comunistas – movimentaram-se, organizaram-se e intervieram de várias formas no Portugal democrático», como afirmou Isabel Cruz.
A agenda baseia-se num texto de Maria Velho da Costa, «As mulheres e a Revolução».
Na introdução de cada mês aparece uma frase daquele texto junto a frases proferidas no período revolucionário, recolhidas das páginas do Avante!, do O Militante, do O diário e de outros materiais recolhidos da imprensa do Partido.
As frases reflectem o sentir, os sonhos, aspirações e reivindicações da altura.
No fundo, pretende-se fazer uma súmula das lutas das mulheres em várias áreas, do trabalho aos direitos políticos, da cultura ao desporto, aos estudos e à investigação e ainda na luta pela paz e contra a guerra.
As marchas da paz dos anos oitenta e as várias acções de solidariedade com as mulheres e os povos do resto do mundo também não foram esquecidas.
Recordam-se ainda, no contexto da celebração do 30.º aniversário do 25 de Abril, as acesas lutas pelo direito de participação das mulheres nos órgãos políticos de poder, e as jornadas de trabalho voluntárias de alfabetização após a Revolução dos cravos em que, generosamente, muitas mulheres de Abril – com as comunistas na vanguarda - participaram, nos campos e nas cidades, num acto generoso ao qual ainda hoje muitos devem, por terem tido a primeira oportunidade para aprender a ler e escrever num país onde o analfabetismo era arma do regime fascista para manter o povo na ignorância.
«O 25 de Abril despertou as mulheres portuguesas e deu-lhes uma grande força e consciencialização, principalmente às mulheres comunistas que tiveram um papel muito importante nas lutas desenvolvidas pelas mulheres desde essa data até hoje», afirmou Idalina Pedaço.
As intervenientes só lamentam o facto de, 30 anos depois, as mulheres ainda terem de se bater pelos mesmos objectivos: o direito ao trabalho em igualdade e com dignidade, os direitos de maternidade, de interromper voluntariamente a gravidez e de ter tempo para educar os filhos, por exemplo, são provas de que «as reivindicações são actuais e os direitos só podem ser conquistados com a luta».

Cultura, debates e desporto

Música, dança, teatro, debates e animação em várias vertentes prometem animar o espaço Mulher durante os três dias.
O debate no salutar convívio da Atalaia subordina-se a três temáticas de relevante importância na actualidade: «Mulheres e cidadania» pretende fazer uma retrospectiva sobre a acção política das mulheres portuguesas entre 1949 e 1973. Na introdução ao tema, Maria José Barradas dissertará sobre o tema, baseada em estudos de mestrado sobre as mulheres na Universidade Aberta.
Os direitos das mulheres no contexto da legislação da União Europeia e da sua «constituição» – em fase de elaboração – serão tema para outro debate que vai ainda abordar os problemas do militarismo. A eurodeputada comunista, Ilda Figueiredo e Manuela Bernardino, membro da Comissão Central de Controlo, do Comité Central e da secção internacional do PCP, participam nesta iniciativa.
No contexto dos jogos olímpicos a decorrer na Grécia, os visitantes vão ainda debater um tema caro à mulher portuguesa: «Mulheres e desporto: barreiras, obstáculos e desafios» vai contar com a participação da nossa entrevistada, Isabel Cruz, que nos revelou alguns dados interessantes sobre esta temática, a saber: em Portugal,
de acordo com o último estudo oficial realizado em 1998, tem-se registado um decréscimo da prática de actividades desportivas pelas mulheres. Nessa altura, apenas 27 por cento de toda a população portuguesa praticava algum desporto dos quais 14 por cento eram mulheres, registando-se nesta área, entre 1988 e 1998, um decréscimo de dois pontos percentuais. É uma das mais baixas percentagens em toda a União Europeia.
Segundo Isabel Cruz, os números espelham as consequências de práticas discriminatórias que se mantêm inalteráveis há décadas, desde o acesso a instalações desportivas que é muito mais limitado para o género feminino, à já famosa prática dos clubes em crise que, sentindo a falta de verbas, passaram a ter o hábito de suprimir as modalidades nas vertentes feminina.
Se há vinte anos os grandes clubes de futebol tinham praticamente todos equipas femininas, hoje nenhum deles investe nesta área. Quanto às outras modalidades, o quadro de apoios tem emagrecido cada vez mais.
Isabel Cruz fez ainda notar que as iniciativas desportivas que acontecem dão, em muitos casos, provas de discriminação até na atribuição de prémios. Há freguesias que premeiam os homens com medalhas e taças de maior dimensão, além dos próprios valores de primeiros prémios contemplados em algumas provas federativas discriminarem as mulheres pela negativa.

Programação cultural

Sexta-feira:

19h00 – Animação circense e magia
20h00 - «Toca a Rufar»: percussão
21h00 - À conversa com: Maria José Barradas sobre «Mulheres e Cidadania»
22h15 – Grupo de Teatro de Carnide: «Última pirueta»
23h00 - «Katambu» Grupo de Percussão (Malta)

Sábado:

14h00 – Animação Circense
15h00 – Magia
16h00 – À conversa com: Manuela Bernardino e Ilda Figueiredo sobre a «Constituição Europeia, Militarismo e Direitos das Mulheres»
17h00 – Dança do Tango
18h30 – Grupo «Ennawrouz», percussão e dança tradicional da Tunísia.
21h15 - Hip Hop Nation (Reino Unido)
22h00 – A poesia está na Festa...
23h00 – Odete Santos e Ricardo Castro em «A mania das doenças», da revista «Vai para fora ou vai dentro»
23h15 – Grupo «La Paranza del Greco», danças tradicionais de Itália

Domingo:

15h00 – Animação Circense
15h30 - «Ballet Entredanzas», dança flamenga
16h00 – À conversa com... Isabel Cruz sobre «As Mulheres e o Desporto: barreiras, obstáculos e desafios»
19h30 - «Thorivos», música e teatro tradicional do Chipre.


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