O camarada Tribuna do Povo
Recordo mal as feições e a voz do camarada Tribuna do Povo.
Era alto, magro, de poucas falas, e o seu olhar tinha um brilho que parecia imprimir-lhe movimento, ignorando as órbitas.
Em Menongue fora incumbido pelo MPLA de acompanhar a nossa delegação na visita à Província do Kuando Kubango. O grupo era heterogéneo: repórteres e câmaras do Izvestia, da TV soviética, da TV da RDA, eu, pelo «diário», um redactor do Guardian e um casal de portugueses residentes em Londres. Ele escrevia para a BBC e ela, sua auxiliar, era belíssima.
Findava o ano de 1980 e a UNITA, derrotada, tinha sido expulsa de Cuito Cuanavale e de Mavinga no fluxo e refluxo de uma guerra que iria prolongar-se por mais de duas décadas. Mas os bandos de Savimbi permaneciam activos nas matas.
Como escasseavam os transportes, a nossa delegação dividira-se para ir a Mpupa, onde as FAPLA tinham instalado uma base no rio Cuito, para vigiar a fronteira da Namíbia, na Faixa de Caprivi. Metade dos jornalistas ficou em Menongue, por falta de lugar no Cessna. Como voávamos baixo na pequena aeronave, a travessia não era isenta de riscos porque a UNITA já então dispunha de mísseis stinger oferecidos pelos EUA.
Mas tudo correu maravilhosamente até Mpupa, onde o aldeamento, o kimbo, próximo do acampamento das FAPLA, nos mergulhou num cenário que, pelo exotismo, me trouxe à memória filmes vistos na adolescência. Os portugueses chamavam ao Kuando Kubango as Terras do Fim do Mundo, impressionados pela solidão e talvez pela beleza selvagem dos seus rios, florestas e savanas.
Foi no dia seguinte, quando regressávamos, que a delegação foi confrontada com o inesperado.
A avioneta desceu em Mavinga, na rota para Cuito Cuanavale. A vila fora arrasada. O que se nos deparou foi um amontoado de ruínas fantasmático. Não sobrara uma casa de pé, nem um telhado.
A força da solidariedade
A horda de Savimbi destruíra tudo. Contemplando aquela devastação, o assombro gerava uma dúvida: bombardeamento ou terramoto?
Num muro esburacado pela metralha lia-se uma advertência. Não posso reproduzir exactamente as palavras da inscrição. Mas, com margem de erro mínima, eles tinham escrito ali: «Mavinga é um exemplo dos métodos da UNITA na sua luta libertadora!»
Passado o efeito de choque, todos os estrangeiros começaram a filmar e a fotografar as paredes esventradas que aqui e ali subiam para o céu azul da defunta Mavinga.
Foi então que Tribuna do Povo se interpôs.
- Camaradas - informou - aqui estão proibidas filmagens e fotografias.
A delegação não tinha chefe, mas eu, por decisão colectiva, representava o fraccionado grupo nos contactos com as autoridades provinciais e o MPLA.
Insisti com Tribuna do Povo para que permitisse aos jornalistas realizar o seu trabalho. Invoquei a importância que teria para Angola fazer chegar ao mundo aquelas imagens da barbárie da UNITA.
A minha argumentação esbarrou numa resposta granítica:
- Esta é uma zona de guerra na qual é proibido filmar. Sou um militante disciplinado e cumpro ordens recebidas.
O desespero alastrava no grupo quando me ocorreu uma ideia feliz :
- Camarada, coloca-me também numa situação difícil. Serei obrigado a informar o presidente Eduardo dos Santos, que vai conceder-me uma entrevista, de que o mundo não pode ver imagens da destruição de Mavinga porque o camarada Tribuna do Povo, do MPLA, proibiu as filmagens.
Tribuna não reagiu. Mas minutos depois, quando nos preparávamos para tomar o avião, tocou-me no ombro e pronunciou duas palavras que fizeram a alegria dos visitantes:
- Podem filmar !
Não voltei a encontrar Tribuna do Povo desde que, dias depois, nos despedimos em Menongue.
Mas, transcorridos meses, recebi dele uma carta cujo tom emotivo me comoveu. Nela me dizia ter lido os artigos que eu publicara em «o diário» sobre Angola. Os recortes tinham chegado a Menongue. Numa linguagem directa, muito simples, o jovem militante do MPLA dizia-me que a leitura dessas reportagens fora para ele importante porque o ajudara a compreender a força e o significado da solidariedade internacional. E acrescentava que passara algum tempo até perceber que em Mavinga, quando discutira com ele, eu lhe prestara um grande serviço na sua aprendizagem de revolucionário angolano. Esse desabafo tocou-me mais do que as palavras elogiosas que o acompanhavam.
Era alto, magro, de poucas falas, e o seu olhar tinha um brilho que parecia imprimir-lhe movimento, ignorando as órbitas.
Em Menongue fora incumbido pelo MPLA de acompanhar a nossa delegação na visita à Província do Kuando Kubango. O grupo era heterogéneo: repórteres e câmaras do Izvestia, da TV soviética, da TV da RDA, eu, pelo «diário», um redactor do Guardian e um casal de portugueses residentes em Londres. Ele escrevia para a BBC e ela, sua auxiliar, era belíssima.
Findava o ano de 1980 e a UNITA, derrotada, tinha sido expulsa de Cuito Cuanavale e de Mavinga no fluxo e refluxo de uma guerra que iria prolongar-se por mais de duas décadas. Mas os bandos de Savimbi permaneciam activos nas matas.
Como escasseavam os transportes, a nossa delegação dividira-se para ir a Mpupa, onde as FAPLA tinham instalado uma base no rio Cuito, para vigiar a fronteira da Namíbia, na Faixa de Caprivi. Metade dos jornalistas ficou em Menongue, por falta de lugar no Cessna. Como voávamos baixo na pequena aeronave, a travessia não era isenta de riscos porque a UNITA já então dispunha de mísseis stinger oferecidos pelos EUA.
Mas tudo correu maravilhosamente até Mpupa, onde o aldeamento, o kimbo, próximo do acampamento das FAPLA, nos mergulhou num cenário que, pelo exotismo, me trouxe à memória filmes vistos na adolescência. Os portugueses chamavam ao Kuando Kubango as Terras do Fim do Mundo, impressionados pela solidão e talvez pela beleza selvagem dos seus rios, florestas e savanas.
Foi no dia seguinte, quando regressávamos, que a delegação foi confrontada com o inesperado.
A avioneta desceu em Mavinga, na rota para Cuito Cuanavale. A vila fora arrasada. O que se nos deparou foi um amontoado de ruínas fantasmático. Não sobrara uma casa de pé, nem um telhado.
A força da solidariedade
A horda de Savimbi destruíra tudo. Contemplando aquela devastação, o assombro gerava uma dúvida: bombardeamento ou terramoto?
Num muro esburacado pela metralha lia-se uma advertência. Não posso reproduzir exactamente as palavras da inscrição. Mas, com margem de erro mínima, eles tinham escrito ali: «Mavinga é um exemplo dos métodos da UNITA na sua luta libertadora!»
Passado o efeito de choque, todos os estrangeiros começaram a filmar e a fotografar as paredes esventradas que aqui e ali subiam para o céu azul da defunta Mavinga.
Foi então que Tribuna do Povo se interpôs.
- Camaradas - informou - aqui estão proibidas filmagens e fotografias.
A delegação não tinha chefe, mas eu, por decisão colectiva, representava o fraccionado grupo nos contactos com as autoridades provinciais e o MPLA.
Insisti com Tribuna do Povo para que permitisse aos jornalistas realizar o seu trabalho. Invoquei a importância que teria para Angola fazer chegar ao mundo aquelas imagens da barbárie da UNITA.
A minha argumentação esbarrou numa resposta granítica:
- Esta é uma zona de guerra na qual é proibido filmar. Sou um militante disciplinado e cumpro ordens recebidas.
O desespero alastrava no grupo quando me ocorreu uma ideia feliz :
- Camarada, coloca-me também numa situação difícil. Serei obrigado a informar o presidente Eduardo dos Santos, que vai conceder-me uma entrevista, de que o mundo não pode ver imagens da destruição de Mavinga porque o camarada Tribuna do Povo, do MPLA, proibiu as filmagens.
Tribuna não reagiu. Mas minutos depois, quando nos preparávamos para tomar o avião, tocou-me no ombro e pronunciou duas palavras que fizeram a alegria dos visitantes:
- Podem filmar !
Não voltei a encontrar Tribuna do Povo desde que, dias depois, nos despedimos em Menongue.
Mas, transcorridos meses, recebi dele uma carta cujo tom emotivo me comoveu. Nela me dizia ter lido os artigos que eu publicara em «o diário» sobre Angola. Os recortes tinham chegado a Menongue. Numa linguagem directa, muito simples, o jovem militante do MPLA dizia-me que a leitura dessas reportagens fora para ele importante porque o ajudara a compreender a força e o significado da solidariedade internacional. E acrescentava que passara algum tempo até perceber que em Mavinga, quando discutira com ele, eu lhe prestara um grande serviço na sua aprendizagem de revolucionário angolano. Esse desabafo tocou-me mais do que as palavras elogiosas que o acompanhavam.