Greve geral no Peru

Trabalhadores contra o neoliberalismo

Milhares de pessoas paralisaram o Peru, na passada quarta-feira, numa greve geral de 24 horas convocada para exigir outra política e uma nova constituição para o país.

«A convocação de uma Assembleia Constituinte é uma necessidade vital»

A contestação à política neoliberal seguida pelo presidente peruano, Alejandro Toledo, e a exigência da sua demissão foram algumas das razões que estiveram na base da greve geral de 24 horas convocada pela Confederação Geral de Trabalhadores do Peru (CGTP), à qual aderiram também outras 150 organizações laborais.
Apesar das ameaças governamentais de reprimir qualquer alteração da ordem pública - medida que foi posta em marcha com a mobilização das forças armadas e o destacamento de cerca de 93 mil polícias nas principais cidades do País - o protesto decorreu de forma pacífica, havendo, ainda assim, a registar a detenção de 70 pessoas na sequência de escaramuças com as autoridades.
De acordo com o balanço feito pela organização, cerca de 15 milhões de trabalhadores, aproximadamente 80 por cento, aderiram ao protesto, com evidentes reflexos em sectores como o da educação e dos transportes.
Nas províncias de Puno, Cusco, Chiclayo, Trujillo, Tacna e tantas outras, para além da paralisação de 24 horas, o povo saiu às ruas para contestar o modelo económico e social aplicado por Toledo.
Em Arequipa, uma localidade voltada para o turismo onde estão a decorrer, a par de outras cidades, os jogos da Copa América de Futebol (competição da América do Sul equivalente ao Campeonato da Europa de Futebol), os trabalhadores e a população não se deixaram intimidar pelos desígnios da organização de um evento com expressão internacional e divulgaram um comunicado de imprensa exigindo a mudança do governo e a alteração da constituição.
Na capital, Lima, as manifestações sucederam-se em diversos locais da cidade, confluindo posteriormente num comício realizado na Praça Dois de Maio. Muito embora os relatos indiquem a existência de bloqueios policiais em algumas vias de acesso à metrópole, que impediram a passagem de excursões provenientes de vários pontos do país, a concentração juntou 300 mil pessoas.

Uma constituição, outro governo, nova política

Além das reivindicações de carácter económico envolvendo aumentos imediatos dos salários e das pensões para a esmagadora maioria dos trabalhadores do Peru, a CGTP apresentou 13 pontos de reivindicação que pretende ver satisfeitos até ao próximo dia 28 de Julho, caso contrário levará a cabo novas e mais radicais formas de luta.
Em causa está a continuação do modelo económico neoliberal por parte do executivo liderado por Toledo que, acusam os representantes laborais, insiste em políticas que aumentam o desemprego e as condições de vida da população em benefício dos grandes grupos económicos transnacionais.
O Manifesto do Comando Nacional da Greve Geral afirma que «não estamos dispostos a suportar que num país com tantos recursos se reproduza a pobreza, a falta de segurança, se repita a corrupção e a impunidade perante a mesma, e de tempos em tempos se mudem os rostos prolongando o mesmo modelo económico e social.»
No documento, as organizações apelam ainda para «a convocação de uma Assembleia Constituinte como uma necessidade vital», cujo âmbito seria «uma mudança radical na política económica, a reforma do Estado, o aprofundamento do processo de descentralização, a restituição dos valores morais e éticos no país, assim como a criação de mecanismos de sanção exemplar para a corrupção e contra a impunidade, em suma, a refundação da República.»

Toledo encurralado

A iniciativa sindical da passada quarta-feira confirmou que o presidente do Peru perde cada vez mais margem de manobra e não granjeia, como outrora, de legitimidade perante o povo.
Para além de gozar de apenas seis por cento de aprovação popular, segundo uma sondagem divulgada dias antes da greve geral, Toledo começa a sentir dificuldades em aprovar sem contestação, mesmo no interior do seu governo, as medidas neoliberais serventuárias do capitalismo multinacional.
Três dias depois dos protestos nas ruas, o chefe de Estado anunciou a demissão do ministro da justiça, Baldo Kresalja, em desacordo com a nova lei de rádio e televisão, a qual passa a permitir que entidades privadas estrangeiras detenham mais de 40 por cento das emissoras e estações do Peru.
Paralelamente, a mudança de governo parece não ter resultado em alterações significativas no quadro de corrupção e favorecimento que pautaram a década de regência do ex-presidente Alberto Fujimori.
Toledo e um dos seus acessores, César Almeyda, são suspeitos de terem recebido milhares de dólares de uma empresa cervejeira colombiana que penetrou no mercado peruano depois da ascensão do actual presidente.
A acusação baseia-se no relato de uma testemunha não revelada e está a sob investigação por parte de uma comissão especial do Congresso.
Um outro processo diz respeito ao período de campanha de Toledo. O partido Peru Possível foi acusado de falsificar parte das assinaturas entregues no Tribunal Eleitoral, mas a mulher que inicialmente deu rosto à acusação acabou por desmentir os factos numa mensagem de vídeo, antes de abandonar o Peru rumo ao exílio no Equador.
A juntar a tudo isto, a pressão popular dos últimos três anos, que agora resultou na primeira greve geral desde a subida de Alejandro Toledo ao poder, pode bem marcar a saída de cena do presidente.
Recorde-se que, em 1999, a CGTP mobilizou milhões de pessoas contra a reeleição de Alberto Fujimori, posteriormente acusado de crimes de corrupção.
A «Marcha dos Quatro Céus», que propiciou a destituição de «El chino» e ajudou à eleição de Toledo, constituiu um símbolo da força da luta e da capacidade de realização das organizações sindicais e populares daquela república andina, por isso a CGTP lança agora a palavra de ordem contra Toledo: «Pusemos-te lá, agora tiramos-te!»


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