Do futebol e seus anexos
Durante toda a passada semana, e esta é uma avaliação por defeito, o País e mesmo o mundo estiveram na TV portuguesa reduzidos às dimensões do Euro 2004 ou, mais exactamente, à mobilização geral em curso para que no Alvalade XXI se resgatasse a auto-estima nacional, se não a honra pátria. Sendo assim, estranha cousa seria que esta coluna não se referisse hoje não apenas à vitória sobre os de Castela (e seus amplos arredores, é certo) mas também à pesada nuvem de ansiedade que a precedeu e à vaga de orgulhosa euforia que se lhe seguiu. Na verdade, trata-se de um tema obrigatório para quem se proponha falar da televisão que vemos, que nos entra pelos olhos adentro e se nos infiltra no sangue, se anicha nas nossas circunvoluções cerebrais, tal como, afinal, se torna obrigatório partilhar a alegria nacional que o golo solitário mas suficiente de Nuno Gomes derramou de Norte a Sul e, lembrando-nos dos milhões emigrados, também de Leste a Oeste. Além do mais, é muita gente feliz, e não podemos alhearmo-nos desse facto. Bem se sabe que, um dia destes ou já no momento em que escrevo, entre os que esfuziante ou discretamente celebraram esta Aljubarrota II muitos se darão conta de que continuam desempregados, que o subsídio de doença a que têm direito quando doentes foi mutilado pelo dr. Bagão, que é cada vez mais difícil e mais restritivo o apoio que lhes é dado pelo que resta do Serviço Nacional de Saúde, que o custo de estar vivo e sustentar família é cada vez mais pesado enquanto o poder de compra dos salários é cada vez mais leve. E, então, verificarão também que a profusão de bandeirinhas nacionais, que pelos vistos contribuíram decisivamente para a festa da noite de 20, não pode nada contra o sentimento de desesperada indignação que é muito capaz de tomar conta deles.
Uns discretos visitantes
Porém, acontece que o futebol, que bem se sabe ser um vasto território com muitos recantos, não é apenas o que decorre nos relvados, quando relvados são, e que nesse largo reino há zonas que não só já não são desporto, o que não surpreende ninguém, mas também não são sequer espectáculo desportivo, indústria, negócio de compra e venda. E que muito conveniente será que todos nós em geral, e em especial a TV como privilegiado instrumento de informação, as conheçamos e divulguemos. É nesse quadro que se inclui o que num programa da SIC-Notícias o jornalista Mário Crespo apontou: a infiltração de movimentos de extrema-direita nas claques futebolísticas comummente designadas por «hooligans», a premeditada semelhança entre alguns supostamente da área desportiva e sinais emblemáticos do nazifascismo e, é claro, a prática da violência preferentemente racista mas sem desdenhar outras vítimas. Apesar do tom obviamente desafiante de tais grupos, não se lhes depara uma resposta eficaz, ou até simplesmente empenhada, das autoridades ou das estruturas da chamada sociedade civil responsáveis na área desportiva. Mas há um ou outro caso que constitui excepção: também pela TV, mas pelo noticiário geral, soube-se que a UEFA decidiu investigar a presença de sinais nazis entre apoiantes da selecção croata, sendo que por acaso a Croácia tem um passado incómodo nessa matéria pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, quando, após a sua criação como estado «independente» pela Alemanha de Hitler, alguns croatas se destacaram pela prática de crimes de guerra.
Convergentemente com tudo isto e decerto muito mais, também a TV deu, embora de raspão, a notícia da reunião em Portugal, exactamente por altura do Euro 2004, de umas centenas de «skinheads» vindos de toda a Europa. Tanto quanto se sabe, e sabe-se pouco porque o Governo acerca desse evento não se deu ao trabalho de informar os cidadãos portugueses, os «skins» acabaram por reunir-se em propriedade privada, local onde pelos vistos é possível discorrer sobre a necessidade e urgência de implantar regimes nazifascistas sem que tal actividade seja impedida. Aliás, tanto quanto de sabe, o que os pacíficos jovens fizeram foi ouvir música, não se sabe qual, talvez o «Deutschland Über Alles» ou o «Cara al sol», porventura um trecho de Wagner para os mais instruídos. De qualquer modo, é óbvio que os núcleos da extrema-direita portuguesa que já cresceu e se organizou o bastante para concorrer às eleições, hão-de ter ficado agradados e estimulados pela visitinha. É que, como lembrou o Eduardo Guerra Carneiro, «isto anda tudo ligado». E o facto de o governo não parecer importar-se nada com isto é também um dado desse conjunto em que os futebóis podem funcionar como cartaz e pretexto. E em que o resto poderá ir vindo, tempo após tempo, por acréscimo.
Uns discretos visitantes
Porém, acontece que o futebol, que bem se sabe ser um vasto território com muitos recantos, não é apenas o que decorre nos relvados, quando relvados são, e que nesse largo reino há zonas que não só já não são desporto, o que não surpreende ninguém, mas também não são sequer espectáculo desportivo, indústria, negócio de compra e venda. E que muito conveniente será que todos nós em geral, e em especial a TV como privilegiado instrumento de informação, as conheçamos e divulguemos. É nesse quadro que se inclui o que num programa da SIC-Notícias o jornalista Mário Crespo apontou: a infiltração de movimentos de extrema-direita nas claques futebolísticas comummente designadas por «hooligans», a premeditada semelhança entre alguns supostamente da área desportiva e sinais emblemáticos do nazifascismo e, é claro, a prática da violência preferentemente racista mas sem desdenhar outras vítimas. Apesar do tom obviamente desafiante de tais grupos, não se lhes depara uma resposta eficaz, ou até simplesmente empenhada, das autoridades ou das estruturas da chamada sociedade civil responsáveis na área desportiva. Mas há um ou outro caso que constitui excepção: também pela TV, mas pelo noticiário geral, soube-se que a UEFA decidiu investigar a presença de sinais nazis entre apoiantes da selecção croata, sendo que por acaso a Croácia tem um passado incómodo nessa matéria pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, quando, após a sua criação como estado «independente» pela Alemanha de Hitler, alguns croatas se destacaram pela prática de crimes de guerra.
Convergentemente com tudo isto e decerto muito mais, também a TV deu, embora de raspão, a notícia da reunião em Portugal, exactamente por altura do Euro 2004, de umas centenas de «skinheads» vindos de toda a Europa. Tanto quanto se sabe, e sabe-se pouco porque o Governo acerca desse evento não se deu ao trabalho de informar os cidadãos portugueses, os «skins» acabaram por reunir-se em propriedade privada, local onde pelos vistos é possível discorrer sobre a necessidade e urgência de implantar regimes nazifascistas sem que tal actividade seja impedida. Aliás, tanto quanto de sabe, o que os pacíficos jovens fizeram foi ouvir música, não se sabe qual, talvez o «Deutschland Über Alles» ou o «Cara al sol», porventura um trecho de Wagner para os mais instruídos. De qualquer modo, é óbvio que os núcleos da extrema-direita portuguesa que já cresceu e se organizou o bastante para concorrer às eleições, hão-de ter ficado agradados e estimulados pela visitinha. É que, como lembrou o Eduardo Guerra Carneiro, «isto anda tudo ligado». E o facto de o governo não parecer importar-se nada com isto é também um dado desse conjunto em que os futebóis podem funcionar como cartaz e pretexto. E em que o resto poderá ir vindo, tempo após tempo, por acréscimo.