As portas abriram-se do lado de fora
Para muitos presos políticos, a liberdade chegou um dia mais tarde. Enquanto os capitães e o povo livravam Portugal de quase cinco décadas de fascismo, o último funcionário do PCP preso enfrentava, em Caxias, os torcionários da PIDE, num confronto que um e outros não imaginavam tão breve.
Quando foi preso, a 21 de Abril de 1974, José Carlos Almeida estava longe de imaginar que não passaria mais de cinco dias nos calabouços do fascismo. Em doze anos de actividade revolucionária clandestina, como funcionário do PCP, tinha-se preparado para a eventualidade de vir a ser capturado. Leu relatórios e ouviu experiências que diversos camaradas iam contando. Experiências que foram compiladas e editadas pelo Partido, no mítico Se fores preso, camarada, que os militantes clandestinos estudavam minuciosamente.
A análise destes documentos e experiências não evitou a surpresa e o susto, quando foi cercado por dez agentes da PIDE, na manhã de 21 de Abril, no Porto. Mas a perplexidade não lhe toldou o raciocínio. Aproveitando a passagem de um autocarro, tratou de levar à prática aquilo que era uma das experiências estudadas: fazer barulho para denunciar a situação, esclarecer as pessoas que assistissem e fazer chegar ao Partido a informação de que tinha havido uma prisão. «Comecei a gritar e eles começaram à coronhada: fiquei com um lenho na cabeça durante muito tempo. Depois algemaram-me e levaram-me para a sede da PIDE no Porto», recorda José Carlos Almeida. Chegado ao reduto dos esbirros, recusou identificar-se ou prestar quaisquer declarações. Mais tarde, foi metido num carro, rumo a Lisboa, escoltado por outras duas viaturas. Destino: o forte de Caxias.
«Eu sofria de ciática e tinha uma hérnia. Vir algemado com as mãos atrás das costas do Porto para Lisboa foi muito doloroso», lembra José Carlos Almeida. Chegado ao cárcere, recusou novamente identificar-se, desta vez aos serviços prisionais. Depois de revistado, foi encarcerado numa cela, isolado. Na manhã seguinte, deu entrada na sala das torturas da ala sul do forte. O interrogatório ia começar. A receita era a de sempre: violência, humilhação, tortura. Tudo com um único objectivo, vergar a determinação e vontade dos resistentes. Tal como em muitos outros casos, a PIDE falhou.
A «simpatia» de um agente, logo seguida da investida de um outro, ofensivo e brutal, estava tudo previsto na mente do comunista preso. Assim como a atitude perante a tortura da estátua. «Quero uma cadeira ou sento-me no chão», exigiu. A cadeira veio. «É evidente que isto não seria sempre assim», afirma. «Eles espancavam as pessoas, mas como eu tinha chegado há pouco tempo, estavam ainda a estudar a minha personalidade», recorda José Carlos Almeida.
A liberdade com um dia de atraso
Quando tudo fazia esperar o início da explosão de fúria dos esbirros da PIDE sobre o prisioneiro, que teimava em não se identificar e em não prestar quaisquer declarações, José Carlos Almeida é algemado e metido numa carrinha. «Ainda pensei que fosse para o hospital, já que eu tinha passado todo o tempo a protestar sobre o meu estado de saúde», recorda. O destino não era o hospital, mas outro bem diferente, uma cela no reduto norte da prisão.
Na manhã do dia 26, ouvem-se gritos nos corredores, imperceptíveis para José Carlos Almeida. «Pensei que estavam a espancar gente», lembra. De repente, alguém abre a sua cela. Atrás do agente da GNR, surgem militares. Na sala de tortura há quatro dias, não tinha conhecimento de que o governo fascista tinha sido deposto e que a liberdade nascia já em Portugal. Quando o militar lhe pede identificação, recusa-se mais uma vez. Não falaria.
Só momentos mais tarde, com as explicações dos militares e após encontrar velhos conhecidos da resistência antifascista nos corredores da prisão, se apercebe que algo mudara. Definitivamente. Aliando todos os acontecimentos de que era testemunha à recordação de uma informação recebida tempos antes numa reunião do Partido, sobre movimentações militares em curso, se deu conta do golpe vitorioso. Finalmente, identificou-se.
Nas ruas já se cantava a liberdade, mas em Caxias os presos continuavam nas celas. «Nós exigíamos sair, pois era inadmissível ter havido um golpe e nós não podermos ter liberdade», afirma. Mas os mesmos que aproveitariam o poder dado pelos militares do povo para impedir a concretização do sonho tentavam matar a liberdade à nascença. Nem todos os presos seriam libertados, afirmavam. «Eu fazia parte destes», refere o comunista.
José Carlos Almeida recorda perfeitamente os momentos da libertação: «começámos a dizer que sairiam todos ou não sairia nenhum.» Os presos uniram-se e conseguiram vir para o pátio. «A malta agarrava-se e chorava de emoção. Eu pensava que ia passar ali anos», lembra. Antes de abandonarem definitivamente o cárcere, os ex-presos ainda teriam o prazer de ver entrar os agentes da PIDE, que ocupariam as celas onde antes haviam estado os resistentes. Os torcionários, enviados finalmente para o sítio que lhes era devido, não ficariam muito tempo. A liberdade não ajustaria contas com os seus carrascos.
Depois de livre, José Carlos Almeida quis reaver os seus pertences, roubados à entrada para a tortura. Procurava sobretudo um isqueiro, oferecido por camaradas do Porto, de onde se preparava para partir. Não o encontrou. Do que lhe foi subtraído, apenas recuperou os atacadores dos sapatos, dentro de um envelope. Com a inscrição «preso sem nome».
Anos na escuridão
Após 12 anos de dura luta clandestina, José Carlos Almeida recuperou o nome que havia perdido em finais do ano de 1962, quando se tornou funcionário do PCP. Se durante cinco dias foi o «preso sem nome», por mais de uma década somou identidades. A última, à data da sua prisão, era Fernando Duarte Bastos. As filhas conheciam-no apenas por «pai».
Desses tempos já distantes, em que Abril se construía, recorda sobretudo as lutas e a camaradagem. «Vários camaradas deram muito ao Partido e nunca foram conhecidos», destaca. Mas não esquece também os momentos dolorosos, quando a polícia destruía o trabalho de meses ou anos, ou quando algum camarada fraquejava na tortura.
Das suas referências, destaca as tradições familiares, de esquerda do lado paterno. As leituras também jogaram o seu papel. Livros como Os Thibault, de Roger Martin du Gard, Jean Cristophe, de Romain Roland, ou A Mãe, de Máximo Gorki, marcaram indelevelmente o percurso e as opções de José Carlos Almeida, bem como de muitas gerações de resistentes. O trabalho no banco, o estudo nocturno e a presença assídua na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal proporcionam-lhe o contacto com o Partido e o seu órgão central, o Avante!, que passou a receber na escola. A adesão consumou-se anos depois, em 1957. Passados tantos anos de actividade revolucionária, que se confunde com a sua vida, não tem dúvidas: «valeu a pena!»
A análise destes documentos e experiências não evitou a surpresa e o susto, quando foi cercado por dez agentes da PIDE, na manhã de 21 de Abril, no Porto. Mas a perplexidade não lhe toldou o raciocínio. Aproveitando a passagem de um autocarro, tratou de levar à prática aquilo que era uma das experiências estudadas: fazer barulho para denunciar a situação, esclarecer as pessoas que assistissem e fazer chegar ao Partido a informação de que tinha havido uma prisão. «Comecei a gritar e eles começaram à coronhada: fiquei com um lenho na cabeça durante muito tempo. Depois algemaram-me e levaram-me para a sede da PIDE no Porto», recorda José Carlos Almeida. Chegado ao reduto dos esbirros, recusou identificar-se ou prestar quaisquer declarações. Mais tarde, foi metido num carro, rumo a Lisboa, escoltado por outras duas viaturas. Destino: o forte de Caxias.
«Eu sofria de ciática e tinha uma hérnia. Vir algemado com as mãos atrás das costas do Porto para Lisboa foi muito doloroso», lembra José Carlos Almeida. Chegado ao cárcere, recusou novamente identificar-se, desta vez aos serviços prisionais. Depois de revistado, foi encarcerado numa cela, isolado. Na manhã seguinte, deu entrada na sala das torturas da ala sul do forte. O interrogatório ia começar. A receita era a de sempre: violência, humilhação, tortura. Tudo com um único objectivo, vergar a determinação e vontade dos resistentes. Tal como em muitos outros casos, a PIDE falhou.
A «simpatia» de um agente, logo seguida da investida de um outro, ofensivo e brutal, estava tudo previsto na mente do comunista preso. Assim como a atitude perante a tortura da estátua. «Quero uma cadeira ou sento-me no chão», exigiu. A cadeira veio. «É evidente que isto não seria sempre assim», afirma. «Eles espancavam as pessoas, mas como eu tinha chegado há pouco tempo, estavam ainda a estudar a minha personalidade», recorda José Carlos Almeida.
A liberdade com um dia de atraso
Quando tudo fazia esperar o início da explosão de fúria dos esbirros da PIDE sobre o prisioneiro, que teimava em não se identificar e em não prestar quaisquer declarações, José Carlos Almeida é algemado e metido numa carrinha. «Ainda pensei que fosse para o hospital, já que eu tinha passado todo o tempo a protestar sobre o meu estado de saúde», recorda. O destino não era o hospital, mas outro bem diferente, uma cela no reduto norte da prisão.
Na manhã do dia 26, ouvem-se gritos nos corredores, imperceptíveis para José Carlos Almeida. «Pensei que estavam a espancar gente», lembra. De repente, alguém abre a sua cela. Atrás do agente da GNR, surgem militares. Na sala de tortura há quatro dias, não tinha conhecimento de que o governo fascista tinha sido deposto e que a liberdade nascia já em Portugal. Quando o militar lhe pede identificação, recusa-se mais uma vez. Não falaria.
Só momentos mais tarde, com as explicações dos militares e após encontrar velhos conhecidos da resistência antifascista nos corredores da prisão, se apercebe que algo mudara. Definitivamente. Aliando todos os acontecimentos de que era testemunha à recordação de uma informação recebida tempos antes numa reunião do Partido, sobre movimentações militares em curso, se deu conta do golpe vitorioso. Finalmente, identificou-se.
Nas ruas já se cantava a liberdade, mas em Caxias os presos continuavam nas celas. «Nós exigíamos sair, pois era inadmissível ter havido um golpe e nós não podermos ter liberdade», afirma. Mas os mesmos que aproveitariam o poder dado pelos militares do povo para impedir a concretização do sonho tentavam matar a liberdade à nascença. Nem todos os presos seriam libertados, afirmavam. «Eu fazia parte destes», refere o comunista.
José Carlos Almeida recorda perfeitamente os momentos da libertação: «começámos a dizer que sairiam todos ou não sairia nenhum.» Os presos uniram-se e conseguiram vir para o pátio. «A malta agarrava-se e chorava de emoção. Eu pensava que ia passar ali anos», lembra. Antes de abandonarem definitivamente o cárcere, os ex-presos ainda teriam o prazer de ver entrar os agentes da PIDE, que ocupariam as celas onde antes haviam estado os resistentes. Os torcionários, enviados finalmente para o sítio que lhes era devido, não ficariam muito tempo. A liberdade não ajustaria contas com os seus carrascos.
Depois de livre, José Carlos Almeida quis reaver os seus pertences, roubados à entrada para a tortura. Procurava sobretudo um isqueiro, oferecido por camaradas do Porto, de onde se preparava para partir. Não o encontrou. Do que lhe foi subtraído, apenas recuperou os atacadores dos sapatos, dentro de um envelope. Com a inscrição «preso sem nome».
Anos na escuridão
Após 12 anos de dura luta clandestina, José Carlos Almeida recuperou o nome que havia perdido em finais do ano de 1962, quando se tornou funcionário do PCP. Se durante cinco dias foi o «preso sem nome», por mais de uma década somou identidades. A última, à data da sua prisão, era Fernando Duarte Bastos. As filhas conheciam-no apenas por «pai».
Desses tempos já distantes, em que Abril se construía, recorda sobretudo as lutas e a camaradagem. «Vários camaradas deram muito ao Partido e nunca foram conhecidos», destaca. Mas não esquece também os momentos dolorosos, quando a polícia destruía o trabalho de meses ou anos, ou quando algum camarada fraquejava na tortura.
Das suas referências, destaca as tradições familiares, de esquerda do lado paterno. As leituras também jogaram o seu papel. Livros como Os Thibault, de Roger Martin du Gard, Jean Cristophe, de Romain Roland, ou A Mãe, de Máximo Gorki, marcaram indelevelmente o percurso e as opções de José Carlos Almeida, bem como de muitas gerações de resistentes. O trabalho no banco, o estudo nocturno e a presença assídua na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal proporcionam-lhe o contacto com o Partido e o seu órgão central, o Avante!, que passou a receber na escola. A adesão consumou-se anos depois, em 1957. Passados tantos anos de actividade revolucionária, que se confunde com a sua vida, não tem dúvidas: «valeu a pena!»