Por que é que estás com o 25 de Abril?

Os jovens olhos da revolução

Hugo Janeiro
Os 29 anos da Revolução dos cravos comemoram-se amanhã com um desfile de milhares de pessoas que, como acontece todos os anos, descerão a Avenida da Liberdade, dando sentido prático à palavra que lhe empresta o nome. Entre a multidão estarão muitos, ainda jovens, para quem o 25 de Abril continua a ser uma referência. O Avante! deu-lhes a palavra, e procurou perceber as razões pelas quais estão com Abril.
Falámos com três jovens, Joana Marques, 21 anos, trabalhadora da administração local, António Santos, 15 anos, estudante do ensino secundário, e Mafalda Santos, 21 anos, estudante-trabalhadora.
Quando nasceram já a ditadura fascista pertencia ao passado, fruto da heróica luta do povo português, e os sonhos e conquistas revolucionárias abriam os caminhos de uma outra sociedade.
Talvez por isso seja melhor começar pelo imaginário construído, a partir do qual a trajectória de vida de cada um se cruza com a solidificação e a luta pelos valores de Abril.
Quisemos então saber que imagens e ideias guardam dos obscuros tempos da ditadura, dos primeiros dias da revolução, e que música lhes ecoa na alma quando se fala de 25 de Abril de 1974.
Para António vivia-se «numa sociedade intolerante e repressiva» onde o «povo trabalhador vivia na miséria», o que fica expresso na cena que guarda na retina, «a de uma trabalhadora que sai da fábrica e é agredida por um polícia com a coronha da espingarda».
Imagens que para Mafalda «parecem de ficção científica» mas, acrescenta, foi a realidade de «um povo que viveu sem liberdade, sem poder fazer ou dizer o que pensava, e que me foi passada pelo meu pai com muita veemência, por isso sinto que me está próxima.»
De perto também se guarda a censura, que Mafalda, aluna de teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema, lembra «proibia autores, cortava textos e espectáculos, e as companhias e os actores nada podiam fazer».
Visão partilhada por Joana, que da repressão guarda a imagem de «uma mancha de sangue na parede da sede da PIDE», mas acrescenta que o «povo começou a mover-se, a revoltar-se, mesmo na clandestinidade começam a perceber que não estão sozinhos e criam laços de fraternidade», até que durante e depois da revolução, «se vêem milhares de pessoas na rua nas grandes manifestações» em concretização dos sonhos roubados durante tantos anos.
Abril destronou a barbárie, e ao som do «alegre e enérgico Canto Moço», para António e Joana, ou da Pedra Filosofal para Mafalda, o povo saiu à rua «com mensagens que simbolizavam o carácter popular da revolução», disse o primeiro.
E continuou a sair gritando «fascismo nunca mais», como no «primeiro 1.º de Maio», evidenciou Mafalda.

As razões de Abril

Lançámo-nos sobre os valores intrínsecos ao conteúdo da revolução, como quem, depois de acariciar o terreno das memórias, reflecte sobre o que representaram, quais são, e se são as razões pelas quais estes três jovens comunistas estão com Abril?
Mafalda Santos: «Foram a conquista da liberdade, da igualdade de direitos, de forma intensa e efusiva pelos que viveram os primeiros anos da revolução.
São valores que reconheço e que fazem todo o sentido na actualidade, quando as pessoas se tornam mais individualistas, embora as gerações seguintes, que já nasceram e cresceram em liberdade, com todos os direitos que antes não se tinha, não percebam que é preciso trabalhar para os manter, e para os fazer evoluir.»
Joana Marques: «As grandes ideias da revolução, o seu testemunho histórico e político, são fundamentais, e foram-me passadas pelos meus pais, sempre que eu fui questionando a razão de estar nas manifestações. Ainda é necessário lutar por esses valores, e mobilizar as pessoas para que o façam.
A partir do momento em que tomei consciência, senti a necessidade de lutar pelo que o 25 de Abril trouxe. Entrei para a JCP e para o PCP porque sou comunista e este é o partido do povo.»
António Santos: «O 25 de Abril representa a democracia, e é uma grande lição de coragem, de consciência de quem lutou muitos anos contra o fascismo, ainda que muitos jovens pensem que as conquistas são inalienáveis.
Apesar da reacção, e a par da ofensiva imperialista a que assistimos hoje, a mobilização é grande e, mais tarde ou mais cedo, as pessoas acabaram por abrir os olhos, pois à medida que vão crescendo as injustiças crescem os injustiçados.»

Sonhos com futuro

Conhecidos e interiorizados os valores, exteriorizadas as razões e as práticas, dos testemunhos foi brotando a esperança no projecto revolucionário, e cada um à sua maneira, cada qual à medida da sua experiência, foi traçando o presente e o futuro dos sonhos que também esta geração partilha e persegue.
Que direitos defender e reconquistar? Na actual conjuntura política, como continuar Abril?
António Santos: «Da minha experiência militante, na Organização do Ensino Secundário da JCP, muito há a fazer. O peso dos retrocessos faz-se sentir, e chega-se a pensar em fazer cantar o hino nas salas de aula, bem como propor medidas de coacção severas aos alunos.
Quanto à situação mundial, temos o exemplo das recentes posições do Governo, que fez tábua rasa da Constituição de Abril e apoiou o imperialismo. Continua a ser necessário defender a Constituição da República, e as liberdades e direitos que nela estão contidos.
Os valores de Abril são muito importantes na consciencialização das pessoas, para combater o individualismo e o consumismo que esta sociedade projecta. Lutar com o PCP é estar com o único partido que, no passado e no presente resistiu sempre com os trabalhadores.»
Joana Marques: «O reforço dos valores ideológicos do comunismo têm que estar aliados à nossa luta. É preciso mobilizar as pessoas para a defesa de direitos no mundo do trabalho que estão hoje muito ameaçados, antes que seja tarde de mais.
Lutar contra a acomodação das pessoas, como se tudo estivesse normalizado, é urgente e demonstra que Abril é o futuro.»
Mafalda Santos: «A globalização leva a que muitos dos valores de Abril se vão diluindo.
No mundo do trabalho o acesso aos direitos é cada vez menor. Os trabalhadores-estudantes, como eu, trabalham sem condições, a recibos verdes e sem regalias nenhumas, o que conta é o lucro do patrão. Estes não são os direitos conquistados com o 25 de Abril. No teatro o que contam são os lobbies, e quem ganha são as mega-produções comerciais. Não à subsídios para os novos projectos, e os novos actores que precisam de uma oportunidade para criarem, para trabalharem, vão ficando no desemprego.
O teatro pode ajudar a acordar as consciências, talvez por isso, por ser incómodo e crítico sobre o que está mal na sociedade, seja posto de parte. Abril também pode passar por aí.
A situação de pobreza e de guerra generalizada um pouco por todo o mundo, demonstra que sem os valores de Abril, só resta a fé capitalista no dinheiro.»
Estes são os depoimentos de três comunistas que acreditam que outro mundo é possível. Estas são as palavras de quem, continuando os sonhos de Abril, luta com os jovens olhos da revolução.


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