A imprensa do Partido

Compor, rever e imprimir em nome da liberdade

Isabel Araújo Branco
Quase 30 anos passados, é ainda com algum nervosismo que Carlos Pires recorda o tempo passado na clandestinidade, a maioria em tipografias do Partido a compor, a rever e a imprimir o Avante! e O Militante.
Fundado em 1931, o nosso jornal viu a sua publicação ser estabilizada com a reorganização de 1940/1941, sendo reconhecido como a publicação que se manteve mais tempo na clandestinidade a nível mundial. O seu papel era esclarecer, consciencializar e mobilizar os trabalhadores, combatendo a ditadura, fugindo à censura, denunciando prisões, torturas e repressões contra lutas operárias e camponesas. E dando notícias sobre a Europa e o mundo, sobre literatura, sobre a vida interna do Partido.
Publicado em finíssimas folhas de papel bíblia e apresentando pequenos caracteres, o Avante! era vendido aos camaradas e amigos e também deixado debaixo de árvores, junto a portas, passado de mão em mão, lido em locais discretos, muitas vezes para grupos de pessoas. E, se era um grande risco tê-lo nas mãos, maior risco seria imprimi-lo. Assaltar as tipografias clandestinas era um dos grandes objectivos da Pide.
Carlos Pires nunca foi apanhado, mas teve de mudar de casa várias vezes para o evitar. Natural de Ílhavo, aos 15 anos foi para a clandestinidade com a mãe. O pai já lá andava há um ano, como funcionário do Partido. Estávamos em 1956, data marcante na vida de um adolescente que só voltaria à vida legal em adulto, aos 35 anos, quando a Revolução dos Cravos libertou Portugal.
«Naquela altura, a vontade de ir para a clandestinidade não era muita. Mas, como estava com os pais, não havia grande alternativa. Fui com a minha mãe direito ao Porto e atravessei o rio de barco. O meu primeiro contacto foi a Sofia Ferreira», explica, recordando a primeira casa na Senhora da Hora, em Matosinhos. Carlos sabia o que o aguardava e rapidamente assumiu responsabilidades. Aos 17 anos começou a imprimir o Avante!. Para trás ficou a vida comum dos jovens da sua idade: «Andar com os outros rapazes, passear, ir aos bailaricos. Mas a gente vai-se habituando. Naquela altura, tínhamos poucas perspectivas. Os meus pais trabalhavam numa fábrica, eu trabalhava na terra…»


Trabalho discreto

Como diz Carlos Pires, «18 anos é uma vida». Durante esse tempo, o tipógrafo Carlos dividiu a sua vida entre Lisboa e o Porto, não se habituando demasiado a cada lugar, sempre pronto a fugir se sentisse alguma ameaça. As casas eram o mais normais possível, desde que houvesse uma pequena divisão onde se guardasse o material de impressão, longe dos olhares dos vizinhos.
Nada podia chamar a atenção, por isso Carlos tinha o cuidado de se apresentar como desenhador ou tendo outra profissão em que fosse comum passar muito tempo em casa. Durante anos, foi obrigado a fingir ser casado para manter as aparências de perfeita normalidade sobre as suas verdadeiras actividades.
«Compúnhamos o texto com os tipos e dávamos uma revisão para ver se tinha gralhas. O mais complicado era a tiragem», afirma. Em 1974, chegaram a ser feitos nas tipografias onde trabalhou três mil exemplares de jornais clandestinos por quinzena ou por mês. Um número de quatro páginas demorava dois dias a fazer, num trabalho partilhado por duas pessoas: «Um punha o papel e puxava o rolo, o outro tirava o papel e prensava. Era sempre esse o movimento.»
Fundamental era o cuidado com o barulho, trabalhando de dia e sempre com a telefonia ligada para passar o mais despercebido possível. «O som também não podia estar muito alto para não chamar a atenção. Numa altura havia o “folhetim da coxinha”. Durou dois anos e ninguém ligava a mais nada.» Nos pés da mesa onde eram impressos os jornais eram colocados calços de borracha. Por baixo ainda era posta uma carpete, tudo para abafar o som.
O prelo era composto por várias peças, todas elas importantes: um rolo de borracha para a aplicação da tinta sobre os tipos, uma espátula, um rolo impressor, barras, guias, batentes, diversas chaves… No total eram dezenas de quilos. Por vezes, quando as mudanças entre casas eram feitas nos transportes públicos, o peso não podia denunciar o transportador. «Uma ocasião, devia estar com uma cara estranha e o revisor do eléctrico perguntou se não precisava de ajuda: “Isso é pesado, parece chumbo.”. E era chumbo! Normalmente, as mudanças eram feitas pelo Manuel da Silva, porque tinha carro. Disfarçávamos as coisas em cabazes, com couves e nabos por cima.»


«O Avante!? Não quero!»


Em geral, Carlos Pires entregava os jornais e nunca mais os via. Uma ocasião, um exemplar do Avante! voltou às suas mãos. «Não é que ao fim de dois dias me apareceu um vizinho a dar-me o Avante! para eu ler? “Não quero, não me meto nessas coisas”, respondi-lhe eu.»
No Porto, Carlos viveu uma das experiências mais marcantes da sua vida. «Foram contar a luz, mas afinal eram os fiscais da Câmara para vistoriar a casa. Eu tinha feito uma edição do Militante que estava espalhada na casa de jantar, em cima da mesa, para secar. Claro que três homens – seis olhos – viram de certeza. Pegámos nas malas e fomos para Viana do Castelo. Alugámos um quartito numa pensão e oito dias depois tive um encontro com o Jaime Serra. Pu-lo a par da situação e fui para a União Soviética durante um mês. O Américo Leal foi desmontar a casa e não havia indícios de qualquer denúncia. Os fiscais ou tinham mais ou menos a consciência do que estava ali ou tinham medo de informar a Pide e de os outros depois descobrirem.»
Noutra altura, também no Porto, foi confundido com um polícia. «Foi na última casa onde estive, na Rua João de Deus. Uma vizinha recebeu uma convocatória para se apresentar na judiciária e veio-me perguntar o que era: “Eu não sei, tem de lá ir e fica a saber o que é.” Ela insistiu: “Mas o senhor não é da polícia?”». Depois do 25 de Abril, o Copcom assaltou a casa, confirmando que havia a ideia de que Carlos Pires trabalhava para as forças policiais. «Se o 25 de Abril demorasse mais, ia para a choça. Com a fama que tinha, iam lá ver o que se passava.»
A revolução «foi uma alegria, é impossível descrever». Foi a altura de reencontrar o filho mais velho que não via há quatro anos. Durante a separação, trocavam cassetes áudio com as vozes uns dos outros. Mas não chegava para matar as saudades. Só o 25 de Abril o conseguiu.



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