Israel persiste no terrorismo de Estado

Assassinato de Ahmed Yassin «abre as portas do inferno»

Israel assassinou Ahmed Yassin, líder do Hamas. Um helicóptero pulverizou-o com um míssil, na segunda-feira, quando saía de uma mesquita, em Gaza.

«A his­tória não vos per­doará e Deus julgar-nos-á a todos»

Este acto de terrorismo de Estado, em que outros dois mísseis mataram mais sete pessoas e feriram 17, tornam particularmente actuais as palavras proferidas por Yassin em 1989, quando um tribunal israelita o condenou a uma pena de prisão perpétua que não chegou a cumprir:
«O povo judeu bebeu do cá­lice do so­fri­mento e viveu dis­perso pelo mundo. Agora este mesmo povo quer forçar o povo pa­les­ti­niano a beber do mesmo cá­lice. A his­tória não vos per­doará e Deus julgar-nos-á a todos».
Para o vice-ministro da Defesa israelita, Zeev Boim, o dirigente espiritual do Hamas «merecia morrer». Para os seguidores de Yassin, o que o governo de Sharon acaba de fazer foi abrir «as portas do inferno».
Segundo líder do grupo, Abd Al-Aziz al-Rantissi, «não haverá uma vingança», mas sim «uma guerra aberta».
Apesar de aprovado e pelo governo de Ariel Sharon, o assassinato de Yassin divide o executivo. De acordo com o ministro do Interior de Israel, Avraham Poraz, o preço a pagar por este crime pode vir a ser muito elevado. «Temo que estejamos a abrir um ciclo aqui, e que muitos pagarão por isto com suas vidas», disse.
Também o primeiro-ministro palestino, Ahmed Korei, que condenou o que classifica de «acto cobarde», considera que «a morte do líder do Hamas abriu o caminho para o caos».
De preocupação são igualmente as palavras do teólogo islâmico Iussif al-Qaradawi, que em entrevista à televisão Al Jazira qualificou a última vítima do terror israelita como sendo «não só um dirigente do movimento Hamas», mas também «um filho da Palestina, um defensor da causa palestiniana e um proeminente dirigente islâmico».
Considerando que «os muçulmanos de todo o mundo deveriam protestar contra um crime destes», o teólogo afirmou ainda que «este crime é uma importante lição a respeito das chamadas conversações de paz. A porta da paz está fechada. Aqueles que visam retomar as negociações estão a enganar-se».

Re­ac­ções no mundo

A União Europeia condenou o assassínio do xeque Yassin, manifestando a sua preocupação com o previsível aumento da tensão mo Médio Oriente. O responsável pela política externa da UE, Javier Solana, lembrando que «a política da União Europeia tem sido, consistentemente, a condenação dos assassínios extrajudiciais», considera que, «neste caso em particular, a condenação tem de ser mais forte».
Também o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Jack Straw, se pronunciou contra a acção de Israel, afirmando que Telavive «não tem o direito de levar a cabo este tipo de assassínio ilegal», que classificou de «inaceitável» e «injustificável», e que «muito dificilmente cumprirá o seu objectivo».
Para Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe, o crime israelita constitui sem qualquer dúvida «terrorismo de Estado na sua forma mais odiosa».
Quanto aos EUA, segundo a agência AFP que cita um funcionário do Departamento de Estado cujo nome não foi divulgado, limitaram-se numa primeira reacção a apelar às partes para que permaneçam «calmas», aconselhando-as a «exercitarem o seu controlo». Posteriormente, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Sean McCormack, veio a público dizer que «Israel tem o direito de se defender», enquanto a conselheira Condoleezza Rice tentava minorar o impacto do hediondo crime afirmando que «o Hamas é uma organização terrorista e que o xeque Yassin esteve pessoalmente envolvido em actos terroristas».
A generalidade dos observadores internacionais reconhece, no entanto, que Yassin era um «moderado» e servia, como afirma o diário britânico »The Times», de «travão» aos sectores mais radicais do Hamas.

O líder da ca­deira de rodas

Ahmed Yassin nasceu em 1938, em Majdal, na Palestina, sob mandato britânico. Contava 12 anos quando a família foi expulsa, com milhares de outras, pelas forças israelitas. Viveu desde então como refugiado na Faixa de Gaza. Foi justamente no campo de refugiados de Shati, em Gaza, que perdeu o uso das pernas, durante um jogo de futebol.
A paralisia que o amarrou desde a infância a uma cadeira de rodas não o impediu de estudar, até a universidade, que cursou em Ain Shams, no Cairo. Não pôde no entanto concluir os estudos por falta de recursos.
Fundador do Hamas, em Dezembro de 1987, no início da primeira Intifada, Ahmed Yassin liderou anteriormente da Irmandade Muçulmana, organização fundada no Egipto na década de 20 e que Israel chegou a considerar uma possível alternativa à Al Fatah, de Yasser Arafat.
Preso por Israel em 1989, foi condenado a prisão perpétua, mas acabou por ser libertado em 1997 em troca de dois agentes israelitas e deportado para a Jordânia. Em 2003 sobreviveu a uma tentativa de assassinato levada a cabo por Israel.
Casado e pai de onze filhos, Yassin vivia na maior pobreza, venerado pela população a quem distribuía os donativos internacionais recebidos pela sua organização.
O Hamas, responsável pela maior parte dos ataques contra alvos israelitas, é apontado como a segunda organização de maior prestígio entre os palestinianos, depois da Al Fatah. A organização não reconhece o Estado de Israel e exige o reconhecimento da Palestina com as anteriores a 1948. No imediato, apresenta como objectivo a completa retirada israelita da Cisjordânia e Faixa de Gaza, territórios ocupados na guerra de 1967.

PCP res­pon­sa­bi­liza Is­rael
por es­piral de terror


«O PCP condena firmemente o acto criminoso que constitui o assassinato do líder do Hamas, independentemente do juízo que se faça sobre esta organização, e responsabiliza o governo fascizante de Ariel Sharon pela espiral de violência e terror que se anuncia», afirma uma nota do secretariado do CC do PCP distribuída a 22 de Março.
Considerando que a «operação terrorista em que perderam a vida outros palestinianos» é «um crime e uma provocação premeditada» de incalculáveis consequências, o PCP «reclama do governo português uma posição de clara e inequívoca condenação da política terrorista do governo de Israel», bem como iniciativas políticas e diplomáticas para «o seu isolamento e condenação internacional». Para o PCP, num quadro de «tão frontal e ostensiva violação do Direito Internacional e dos mais elementares direitos humanos», é inadmissível que a União Europeia não suspensa o Acordo de Associação com Israel.
Reafirmando a sua solidariedade para com a luta de libertação do povo palestiniano, o PCP «apela aos trabalhadores, ao povo português, à juventude, para que pelas mais diversas formas exprimam o seu repúdio pela criminosa política de Ariel Sharon e à construção do muro sionista, e afirmem a sua solidariedade para com o povo palestiniano e a sua luta pelo seu próprio Estado independente e soberano em território da Palestina».

CPPC con­dena aten­tado

Também o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) condenou o assassinato de Ahmed Yassin, considerando-o mais um acto de «terrorismo de Estado» do governo de Ariel Sharon.
Para o CPPC, «este assassinato, tal petróleo no fogo, só exacerbará a escalada de violência, afastando a possibilidade de uma paz que tão necessária é para ambos os povos».
Na sua tomada de posição, o CPPC reitera «a profunda certeza de que não é com violência que se combate a violência, que não é com terrorismo que se combate o terrorismo, e que a Paz só é alcançável através do diálogo, respeitando o direito dos povos e o Direito Internacional.»


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