Trabalho e exigência
Em São Pedro da Cova, a acção de contactos com os membros do Partido está avançada. Apesar de faltarem poucos contactos para fazer, os comunistas locais estão insatisfeitos. A forte tradição comunista da freguesia aumenta-lhes a exigência. E muito.
«O prazo inicial não era Abril, mas Novembro do ano passado.» É desta maneira que Silva Santos, membro do Executivo da Comissão de Freguesia de São Pedro da Cova, justifica a sua insatisfação face ao andamento da acção nacional de contactos com os membros do Partido na freguesia. Militante de longa data, lembra-se dos tempos quentes da Revolução de Abril e de toda a mobilização dos comunistas de São Pedro da Cova para as muitas e empolgantes tarefas que se iam sucedendo. Hoje é diferente, reconhece. É mais difícil envolver os militantes na vida do Partido.
Paulo Neves, do mesmo organismo, reconhece que talvez se tenha sido demasiado ambicioso nos prazos. «Acho que nunca se pensou que isto fosse tão difícil, que desse tanto trabalho», afirma. «Não é só chegar e fazer. Chegamos a estar uma hora só a falar com uma pessoa. Se calhar não se pensou nisso.»
Rocha Gomes, também do Executivo da Comissão de Freguesia, concorda com tudo o que os seus camaradas referem. Mas tem outra visão sobre as coisas. Na sua opinião, a campanha de contactos está a correr bem em São Pedro da Cova. «Estamos é muito mal habituados», afirma.
Os números falam por si: 215 militantes contactados e com as fichas preenchidas. Em falta, pouco menos de noventa, na sua maioria residentes em três zonas da freguesia, onde é difícil chegar.
Os três comunistas contam como tudo foi organizado. Constituíram-se equipas, delinearam-se prazos, distribuíram-se contactos pelas equipas. Depois, foi só ir para a rua falar com os militantes.
Ainda assim, Silva Santos está insatisfeito e reconhece que, com um maior acompanhamento por parte do Executivo da Comissão de Freguesia ao trabalho das equipas, os contactos estariam já todos feitos. «Há equipas que fizeram ainda muito pouco», lamenta. Mas outras têm quase todos os contactos feitos. «A mim, coube-me contactar quarenta e cinco camaradas e faltam-me cinco», conta Paulo Neves.
Passos firmes
Os resultados práticos da acção de contactos em São Pedro da Cova não são ainda muito visíveis. Mas já está a dar frutos, assegura Rocha Gomes. «A informação do Partido chega hoje a casa dos militantes.» Antes, metade das convocatórias enviadas era devolvida pelos correios. As moradas estavam erradas ou, simplesmente, não existiam. Da última vez, «enviámos mais de duzentas cartas e só quatro voltaram para trás». Todas elas relativas a militantes ainda não contactados.
Paulo Neves concorda, destacando que os comunistas da freguesia estão hoje mais informados da vida e actividade partidárias. No último plenário, realizado em Dezembro, estiveram presentes mais militantes do que na assembleia de organização, realizada em Março de 2002. Muitos dos que apareceram não participavam em nada há anos.
Rocha Gomes encontra ainda outra virtude na campanha de contactos. Dos quinze militantes envolvidos neste trabalho, alguns há que não tinham quaisquer tarefas. Antes de haver qualquer contacto feito, alargava-se já o núcleo activo do Partido.
Silva Santos considera ser o aumento da quotização o grande resultado desta campanha. Numa freguesia muito pobre, com uma elevada percentagem de reformados e com elevado desemprego, muitos foram os militantes que actualizaram o valor da quota e que passaram a pagá-la regularmente.
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Exemplos que fazem pensar
Silva Santos faz parte de uma das dez equipas que ficaram com a responsabilidade de contactar os membros do Partido em São Pedro da Cova. Segundo relata, o apoio ao Partido por parte dos militantes há muito desligados não está em causa. Mesmo os que se consideram indisponíveis para assumir tarefas partidárias manifestam o seu apoio às causas e lutas do PCP.
De todos os contactos que fez, Silva Santos realça alguns, pelo exemplo e estímulo que constituem. Um deles é o de um velho militante, com mais de oitenta anos. Doente e acamado, recebeu os camaradas com lágrimas nos olhos. «O homem chorava de alegria. Era um comunista da velha guarda, que participou nas lutas antes do 25 de Abril», recorda Silva Santos. «Este camarada mora num dos extremos da freguesia, onde nunca se vai. Nós fomos e ele sentiu uma alegria tremenda por ter o Partido em casa dele.»
Diferente, mas que também sensibilizou Silva Santos, é o caso de uma militante que se recusou a pagar um euro de quota por ser muito pouco. «Eu sei que essa mulher tem muitas dificuldades económicas e propus-lhe que pagasse um euro. Mas ela não quis.» De todos os militantes que acompanha, apenas um paga um euro de quota. Todos os outros pagam mais. «E eu recebo de reformados, desempregados e doentes», destacou.
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Terra vermelha
São Pedro da Cova tem fortes tradições de luta. Terra mineira, aí se desenvolveu uma cultura operária muito própria e em tudo diferente da verificada nas terras em seu redor. Da violência do trabalho, da crueza da exploração e das lutas contra ela travadas desenvolveu-se a consciência de classe e a consciência política. Pelas suas gentes embrenhou-se um projecto libertador e o Partido que o corporiza, o PCP.
Mas a influência comunista em São Pedro da Cova não é apenas histórica. Actualmente, a Junta de Freguesia é presidida por um comunista, José Vieira Alves. E não se pense que esta foi uma vitória ocasional. Desde o início dos anos oitenta que os comunistas são eleitos para dirigir os destinos da freguesia. Excepção feita nas eleições de 1997, quando o PSD venceu, para logo perder quatro anos depois.
A acção quotidiana dos comunistas na freguesia também assume um papel decisivo na força e prestígio de que o Partido goza. Com cerca de duas dezenas de militantes a assumir diariamente as tarefas partidárias, o PCP afirma-se na freguesia como a mais forte e activa força política. E a JCP tem um colectivo com cerca de dez militantes com participação regular.
Ponto alto da vida partidária em São Pedro da Cova é a Festa da Unidade, que se realiza anualmente no início de Agosto. No ano passado, passaram por lá duas mil pessoas.
Os três comunistas que falaram para o Avante! estão conscientes da influência do Partido em São Pedro da Cova. Mas consideram que esta poderia ser ainda maior, se todos os militantes assumissem as tarefas necessárias. Rocha Gomes lembra que não há muitos anos, apenas ele e Silva Santos apareciam com regularidade às reuniões. «As coisas estão muito melhor agora.»
Paulo Neves, do mesmo organismo, reconhece que talvez se tenha sido demasiado ambicioso nos prazos. «Acho que nunca se pensou que isto fosse tão difícil, que desse tanto trabalho», afirma. «Não é só chegar e fazer. Chegamos a estar uma hora só a falar com uma pessoa. Se calhar não se pensou nisso.»
Rocha Gomes, também do Executivo da Comissão de Freguesia, concorda com tudo o que os seus camaradas referem. Mas tem outra visão sobre as coisas. Na sua opinião, a campanha de contactos está a correr bem em São Pedro da Cova. «Estamos é muito mal habituados», afirma.
Os números falam por si: 215 militantes contactados e com as fichas preenchidas. Em falta, pouco menos de noventa, na sua maioria residentes em três zonas da freguesia, onde é difícil chegar.
Os três comunistas contam como tudo foi organizado. Constituíram-se equipas, delinearam-se prazos, distribuíram-se contactos pelas equipas. Depois, foi só ir para a rua falar com os militantes.
Ainda assim, Silva Santos está insatisfeito e reconhece que, com um maior acompanhamento por parte do Executivo da Comissão de Freguesia ao trabalho das equipas, os contactos estariam já todos feitos. «Há equipas que fizeram ainda muito pouco», lamenta. Mas outras têm quase todos os contactos feitos. «A mim, coube-me contactar quarenta e cinco camaradas e faltam-me cinco», conta Paulo Neves.
Passos firmes
Os resultados práticos da acção de contactos em São Pedro da Cova não são ainda muito visíveis. Mas já está a dar frutos, assegura Rocha Gomes. «A informação do Partido chega hoje a casa dos militantes.» Antes, metade das convocatórias enviadas era devolvida pelos correios. As moradas estavam erradas ou, simplesmente, não existiam. Da última vez, «enviámos mais de duzentas cartas e só quatro voltaram para trás». Todas elas relativas a militantes ainda não contactados.
Paulo Neves concorda, destacando que os comunistas da freguesia estão hoje mais informados da vida e actividade partidárias. No último plenário, realizado em Dezembro, estiveram presentes mais militantes do que na assembleia de organização, realizada em Março de 2002. Muitos dos que apareceram não participavam em nada há anos.
Rocha Gomes encontra ainda outra virtude na campanha de contactos. Dos quinze militantes envolvidos neste trabalho, alguns há que não tinham quaisquer tarefas. Antes de haver qualquer contacto feito, alargava-se já o núcleo activo do Partido.
Silva Santos considera ser o aumento da quotização o grande resultado desta campanha. Numa freguesia muito pobre, com uma elevada percentagem de reformados e com elevado desemprego, muitos foram os militantes que actualizaram o valor da quota e que passaram a pagá-la regularmente.
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Exemplos que fazem pensar
Silva Santos faz parte de uma das dez equipas que ficaram com a responsabilidade de contactar os membros do Partido em São Pedro da Cova. Segundo relata, o apoio ao Partido por parte dos militantes há muito desligados não está em causa. Mesmo os que se consideram indisponíveis para assumir tarefas partidárias manifestam o seu apoio às causas e lutas do PCP.
De todos os contactos que fez, Silva Santos realça alguns, pelo exemplo e estímulo que constituem. Um deles é o de um velho militante, com mais de oitenta anos. Doente e acamado, recebeu os camaradas com lágrimas nos olhos. «O homem chorava de alegria. Era um comunista da velha guarda, que participou nas lutas antes do 25 de Abril», recorda Silva Santos. «Este camarada mora num dos extremos da freguesia, onde nunca se vai. Nós fomos e ele sentiu uma alegria tremenda por ter o Partido em casa dele.»
Diferente, mas que também sensibilizou Silva Santos, é o caso de uma militante que se recusou a pagar um euro de quota por ser muito pouco. «Eu sei que essa mulher tem muitas dificuldades económicas e propus-lhe que pagasse um euro. Mas ela não quis.» De todos os militantes que acompanha, apenas um paga um euro de quota. Todos os outros pagam mais. «E eu recebo de reformados, desempregados e doentes», destacou.
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Terra vermelha
São Pedro da Cova tem fortes tradições de luta. Terra mineira, aí se desenvolveu uma cultura operária muito própria e em tudo diferente da verificada nas terras em seu redor. Da violência do trabalho, da crueza da exploração e das lutas contra ela travadas desenvolveu-se a consciência de classe e a consciência política. Pelas suas gentes embrenhou-se um projecto libertador e o Partido que o corporiza, o PCP.
Mas a influência comunista em São Pedro da Cova não é apenas histórica. Actualmente, a Junta de Freguesia é presidida por um comunista, José Vieira Alves. E não se pense que esta foi uma vitória ocasional. Desde o início dos anos oitenta que os comunistas são eleitos para dirigir os destinos da freguesia. Excepção feita nas eleições de 1997, quando o PSD venceu, para logo perder quatro anos depois.
A acção quotidiana dos comunistas na freguesia também assume um papel decisivo na força e prestígio de que o Partido goza. Com cerca de duas dezenas de militantes a assumir diariamente as tarefas partidárias, o PCP afirma-se na freguesia como a mais forte e activa força política. E a JCP tem um colectivo com cerca de dez militantes com participação regular.
Ponto alto da vida partidária em São Pedro da Cova é a Festa da Unidade, que se realiza anualmente no início de Agosto. No ano passado, passaram por lá duas mil pessoas.
Os três comunistas que falaram para o Avante! estão conscientes da influência do Partido em São Pedro da Cova. Mas consideram que esta poderia ser ainda maior, se todos os militantes assumissem as tarefas necessárias. Rocha Gomes lembra que não há muitos anos, apenas ele e Silva Santos apareciam com regularidade às reuniões. «As coisas estão muito melhor agora.»