Noite e nevoeiro
No princípio foi, desta vez, uma reportagem integrada no telenoticiário comum. Depois o assunto alastrou para outros lugares da comunicação social, quer da televisão quer da imprensa, talvez da rádio. Desta vez, a semente da abordagem residiu num estudo que o governo terá encomendado para com ele, ao que se ouviu na TV, substituir os resultados de um outro estudo que, por ter sido encomendado pelo governo anterior, pareceu adequado deitar fora. Infelizmente para o governo (mas não para quem fez o segundo e pelos vistos inútil estudo, e por ele foi remunerado), o que o segundo estudo apurou não diferiu em nada de substancial do que o primeiro tinha revelado. E que, de um modo decerto excessivamente sumário, poderá resumir-se numa frase breve e terrível: milhares de velhos estão, em Portugal, condenados a arrastarem-se em infernais condições de sobrevivência até que a morte venha, enfim, libertá-los.
Falei em Portugal, mas receio que noutros lugares do mundo, até da Europa, a situação não seja muito diferente e melhor. Referi milhares de velhos, mas convirá dizer que todos esses milhares podem perfazer, entre nós, mais de um milhão, e isto sem nenhum pessimismo gerador de exagero. A questão é que, como se sabe, ao longo dos tempos sempre a velhice foi um problema social para o qual as sociedades não encontraram resposta. Porém, durante séculos foi mais ou menos consensual que os velhos, fragilizados pelo desgaste que o tempo impõe e com a angústia do fim mais perto dos olhos cansados, eram credores de alguma coisa: de solidariedade perante a proximidade da morte, de apoio social retributivo do esforço representado por décadas de trabalho, de respeito pelas sabedorias que as experiências armazenadas ao longo de décadas permitiram colher. Agora, porém, não é tanto assim: as sabedorias dos velhos não interessam nem ao menino Jesus porque nem sequer estarão na NET; o mundo muda todos os dias e o passado é uma perda de tempo mesmo que seja recente; o contingente dos velhos são um peso insustentável para o orçamento da segurança social que eles, os velhos, vão conduzir à ruptura sob o pretexto de que descontaram durante uma inteira vida de trabalho sem que se saiba muito bem o que foi feito desse dinheiro, isto é, desse suor.
Uma peculiar urgência
Foi o resultado deste enquadramento que a TV nos mostrou; foi disso que nos falou. Designadamente dessa espécie de universo paraconcentracionário repartido em pedacinhos que são os chamados lares para a terceira idade, eufemismo insuportável que resultou da crisma dos antigos asilos para velhos. Muita coisa nos contou a reportagem, muita coisa nos mostrou, e tudo quase tudo tão atroz ou tão perto de o ser que, olhando e ouvindo, se chega a ter vergonha de fazer parte de uma sociedade que tranquilamente pratica, ou deixa que alguns pratiquem por ela, aquele silencioso extermínio colectivo de milhares de vítimas atiradas em vida, ainda que degradada vida, para a vala comum do esquecimento, do desprezo social, da cada vez mais penosa sobrevivência com prazo breve, da dolorida saudade do tempo em que se era gente reconhecida como tal ou em que se julgava sê-lo. Da reportagem emergiu com suficiente clareza a informação de que, hoje, para muitos e sobretudo para os que na sociedade põem e dispõem, a velhice é uma condição intermédia entre a sub-humanidade e o lixo. Com a diferença, relevante para alguns, de ainda poder servir como artigo de comércio rentável.
Em tudo isto há um aspecto que surpreende: é que, sendo este um país de velhos, perto de dois milhões, e tendo eles ainda o poder pelo menos legal de exercerem o direito de voto, o eleitoralismo dos sucessivos governos não cuidou de tratá-los melhor ou, sequer, de fingir que o faz. Disse-se na TV que o senhor ministro Bagão ficou pouco agradado pelo resultado do inquérito que ele próprio mandou fazer e que logo desvalorizou. Talvez, quem sabe ?, se tenha então lembrado de que os velhos votam se, porventura, puderem fisicamente fazê-lo, pelo que pode ser imprudente que por via quase oficiosa se saiba que continuam a ser condenados a um crepúsculo que de algum modo lembra o título de Resnais, «noite e nevoeiro», que o cineasta escolheu para o universo concentracionário. Entretanto, porém, não surge sequer a vaga promessa de que as coisas vão deixar de ser tão más a prazo mais ou menos breve. Pois os velhos, bem se sabe, não têm tempo para esperar. Embora nunca os sucessivos e diversos poderes se tenham importado com essa peculiar e inevitável urgência.
Falei em Portugal, mas receio que noutros lugares do mundo, até da Europa, a situação não seja muito diferente e melhor. Referi milhares de velhos, mas convirá dizer que todos esses milhares podem perfazer, entre nós, mais de um milhão, e isto sem nenhum pessimismo gerador de exagero. A questão é que, como se sabe, ao longo dos tempos sempre a velhice foi um problema social para o qual as sociedades não encontraram resposta. Porém, durante séculos foi mais ou menos consensual que os velhos, fragilizados pelo desgaste que o tempo impõe e com a angústia do fim mais perto dos olhos cansados, eram credores de alguma coisa: de solidariedade perante a proximidade da morte, de apoio social retributivo do esforço representado por décadas de trabalho, de respeito pelas sabedorias que as experiências armazenadas ao longo de décadas permitiram colher. Agora, porém, não é tanto assim: as sabedorias dos velhos não interessam nem ao menino Jesus porque nem sequer estarão na NET; o mundo muda todos os dias e o passado é uma perda de tempo mesmo que seja recente; o contingente dos velhos são um peso insustentável para o orçamento da segurança social que eles, os velhos, vão conduzir à ruptura sob o pretexto de que descontaram durante uma inteira vida de trabalho sem que se saiba muito bem o que foi feito desse dinheiro, isto é, desse suor.
Uma peculiar urgência
Foi o resultado deste enquadramento que a TV nos mostrou; foi disso que nos falou. Designadamente dessa espécie de universo paraconcentracionário repartido em pedacinhos que são os chamados lares para a terceira idade, eufemismo insuportável que resultou da crisma dos antigos asilos para velhos. Muita coisa nos contou a reportagem, muita coisa nos mostrou, e tudo quase tudo tão atroz ou tão perto de o ser que, olhando e ouvindo, se chega a ter vergonha de fazer parte de uma sociedade que tranquilamente pratica, ou deixa que alguns pratiquem por ela, aquele silencioso extermínio colectivo de milhares de vítimas atiradas em vida, ainda que degradada vida, para a vala comum do esquecimento, do desprezo social, da cada vez mais penosa sobrevivência com prazo breve, da dolorida saudade do tempo em que se era gente reconhecida como tal ou em que se julgava sê-lo. Da reportagem emergiu com suficiente clareza a informação de que, hoje, para muitos e sobretudo para os que na sociedade põem e dispõem, a velhice é uma condição intermédia entre a sub-humanidade e o lixo. Com a diferença, relevante para alguns, de ainda poder servir como artigo de comércio rentável.
Em tudo isto há um aspecto que surpreende: é que, sendo este um país de velhos, perto de dois milhões, e tendo eles ainda o poder pelo menos legal de exercerem o direito de voto, o eleitoralismo dos sucessivos governos não cuidou de tratá-los melhor ou, sequer, de fingir que o faz. Disse-se na TV que o senhor ministro Bagão ficou pouco agradado pelo resultado do inquérito que ele próprio mandou fazer e que logo desvalorizou. Talvez, quem sabe ?, se tenha então lembrado de que os velhos votam se, porventura, puderem fisicamente fazê-lo, pelo que pode ser imprudente que por via quase oficiosa se saiba que continuam a ser condenados a um crepúsculo que de algum modo lembra o título de Resnais, «noite e nevoeiro», que o cineasta escolheu para o universo concentracionário. Entretanto, porém, não surge sequer a vaga promessa de que as coisas vão deixar de ser tão más a prazo mais ou menos breve. Pois os velhos, bem se sabe, não têm tempo para esperar. Embora nunca os sucessivos e diversos poderes se tenham importado com essa peculiar e inevitável urgência.