Uma grande greve da Administração Pública

Luta para continuar

Perante intimidações como já não havia memória, os trabalhadores da Administração Pública responderam ao Governo com uma grande adesão à greve de dia 21. A Frente Comum de Sindicatos considera inevitável prosseguir a luta.

Os efeitos da greve foram sen­tidos em pra­ti­ca­mente todos os sec­tores

A coordenadora da Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública decidiu anteontem realizar um plenário de todas as suas estruturas, no dia 10 de Dezembro. Falando ao Avante! pouco antes de ser feita a entrega de muitos milhares de assinaturas, na Assembleia da República, em defesa do direito à aposentação – um dos ataques do Governo que está a suscitar forte descontentamento entre os trabalhadores –, Paulo Trindade adiantou que o plenário terminará com um «cortejo de oferendas» para o primeiro-ministro.
«É inevitável prosseguir a luta em Janeiro, com formas de acção superiores, que poderão ir até à greve» novamente, disse o dirigente sindical, dando nota das principais conclusões da reunião. As cerca de três dezenas de organizações sindicais que constituem a Frente Comum, acrescentou, estão a concentrar os seus esforços na mobilização dos trabalhadores para «uma grande participação» nas manifestações que a CGTP convocou para este sábado, em Lisboa e no Porto.
Na reunião da coordenadora foi reafirmada a apreciação da greve nacional, divulgada logo na sexta-feira por vários dirigentes sindicais. «Esta foi uma grande greve, e foi tanto maior, quanto ocorreu numa altura em que os casos de intimidação e pressão atingiram proporções inéditas», chegando mesmo aos registos nominais de quem aderia à paralisação. A resposta firme dos trabalhadores, salientou Paulo Trindade, foi «uniforme em todo o País».

Das mai­ores

A Frente Comum, em conferência de imprensa que deu a meio da tarde de 21 de Novembro, estimou em 70 por cento a média nacional de adesão à greve, apontando como sectores mais afectados a saúde, a educação e as autarquias locais. «Está a ser uma grande jornada de luta dos trabalhadores da Administração Pública, das maiores dos últimos anos, porque os motivos de descontentamento são muitos», disse Paulo Trindade aos jornalistas. Entre outros exemplos, foram referidos os impactos da forte adesão à greve em hospitais, escolas, serviços da Segurança Social e do Ministério da Educação, tribunais, arquivo de identificação de Lisboa, repartições de Finanças, museus – que encerraram ou sofreram forte redução de actividade.
«O Governo ficou hoje mais fragilizado e devia responder às reivindicações dos trabalhadores e respeitar o direito à negociação», reclamou o dirigente da Frente Comum, salientando que «nós defendemos uma melhor Administração Pública, mas não é privatizando os hospitais que se acaba com as listas de espera, nem é atacando os trabalhadores que se faz uma reforma».
A recolha de lixo deu o primeiro sinal da revolta dos trabalhadores, uma vez que a greve de 24 horas abrangeu os trabalhadores que iniciavam o turno ao fim da noite de dia 20. Nos Olivais, primeiro posto onde Carvalho da Silva e dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa se encontraram com os jornalistas, foi dada a indicação que depois resultou num nível de adesão de cerca de 75 por cento. O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local referiu paralisações a cem por cento ou muito próximas deste valor em concelhos como Amadora, Funchal, Setúbal, Évora, Almada, Seixal, Braga ou Barreiro. A forte adesão repetiu-se às primeiras horas do dia, alargando-se a outros serviços operários e aos transportes municipais, de Viana do Castelo a Angra do Heroísmo. A Federação Nacional dos Professores afirmou, em comunicado, que «foram de facto milhares» as escolas do ensino básico e do secundário, e os jardins de infância que encerraram ou não tiveram aulas e «mesmo nas que funcionaram, foi evidente o elevado número de docentes e não docentes que cumpriram o seu dever, aderindo à greve».

Justos mo­tivos

Realizada no dia em que, na AR, era feita a discussão final e votação do Orçamento de Estado para o próximo ano, a greve nacional da Administração Pública representou um protesto dos trabalhadores contra novas perdas salariais. Foram contestados os traços mais graves da política do Governo para o sector: a desvalorização dos serviços públicos, cortando nos investimentos, penalizando os utentes com menor qualidade e com maiores custos; a privatização, com vem sucedendo na Saúde; as novas medidas incluídas na «reforma», procurando impor contratos individuais de trabalho, admitindo despedimentos colectivos, restringindo administrativamente a avaliação de desempenho; e uma nova tentativa de limitar o direito à aposentação, retomando as opções políticas que constavam do OE do ano passado e foram reprovadas pelo Tribunal Constitucional.

Má ex­pe­ri­ência

«Entregar a gestão dos serviços públicos a entidades privadas ou alterar os modelos de gestão apenas tem servido para a “engenharia financeira” de esconder o défice público e para a diminuição da qualidade dos serviços», afirma o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. No comunicado em que anunciou uma forte adesão à greve dos profissionais de enfermagem, estimada em 70 por cento, o SEP salienta que «ao fim de onze meses a sentirem que os serviços de saúde foram o “balão de ensaio”, estão conscientes de que as promessas que o Governo fez não passam disso mesmo». Apesar do resultado da experiência, «o Governo quer generalizar o mal por todos os sectores da Administração Pública», acusou o sindicato.


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