Estar ou não solidário

Correia da Fonseca
A televisão ia dando notícias acerca do rapto de Carlos Raleiras e do ferimento de Maria João Ruela. Ao longo de todo o tempo, pelo menos até que pudemos ver o primeiro são e salvo e a Maria João regressada a Portugal, embora infelizmente ainda longe de recuperada, vivi preocupado por eles, se não angustiado. Senti-me verdadeiramente solidário com os dois jornalistas. E, contudo, ninguém me tinha pedido essa solidariedade que, de resto, não me parece coisa que se peça, muito menos que se exija, como o senhor Primeiro-Ministro disse exigir dos portugueses relativamente aos militares da GNR que decidiu exportar para o Iraque. Senti-me solidário com Raleiras e Maria João porque eles foram tocados pela guerra quando estavam a trabalhar ou para isso se preparavam, e o seu trabalho, consistindo fundamentalmente em ver e contar, é um trabalho de paz. Quanto à exigência de solidariedade com os GNR's enviados para o Iraque de armas na mão, a questão é muito mais complicada, fórmula que uso para evitar outra mais agreste. É claro que aquelas dezenas de homens (e quatro mulheres, creio) são gente do meu País, e desejo naturalmente que todos eles regressem depressa e bem. Até já tenho idade bastante para, a seu respeito parafrasear o que Arthur Miller escreveu acerca dos soldados norte-americanos no Vietnam: todos são meus filhos. Mas estar solidário é uma outra coisa, e suspeito de que o senhor Primeiro-Ministro sabe disso embora finja que não. Estar solidário tem muito a ver com estar de acordo, com uma disponibilidade interior para assumirmos como nossas as acções que outros praticam ou as inconveniências que sobre outros injustamente recaiam. Sendo assim, está-se a ver que não é fácil ser solidário ou ficar solidário só porque um primeiro-ministro qualquer se lembra de no-lo exigir. Estar solidário depende de certas condições que não estão na nossa mão (nem na mão de nenhum senhor primeiro-ministro), e neste caso essas condições estão longe de existir.

Lamento, mas não posso

Fosse a televisão tão interactiva como muitas vezes se sugere que é, e eu diria ao senhor Primeiro-Ministro que tenho muita pena mas não posso aceder à sua exigência, que nem sequer concordo com ela. Talvez seja sina minha, quem sabe?, não concordar com o que o senhor Primeiro-Ministro diz, faz e tenta exigir. Mas acrescentaria que esta minha recusa de solidariedade tem muitos e bons precedentes. Era eu ainda um miúdo de bibe ou pouco mais, e já lá em minha casa ninguém se sentia solidário com os «Viriatos» que voluntariamente tinham atravessado a fronteira para ajudarem Franco a matar «rojos» e a derrubar o governo legítimo da República Espanhola. Poucos anos depois, também não havia lá por casa ninguém que se solidarizasse com os militares portugueses que foram para a «frente russa» do lado das forças nazis (entre eles estava um senhor de apelido Spínola que mais tarde o país conheceu de monóculo). E, já homenzinho com cara onde há muito crescera a barba, nunca me senti globalmente solidário com as forças militares que o fascismo mandava para as colónias para fazerem uma guerra injusta que me desonrava a Pátria, embora soubesse que cada um daqueles militares era, também ele, vítima da ditadura criminosa que o enviava, e nessa condição de vítima, sim, tinha a minha solidariedade. Mas basta de falar de mim, embora apenas como exemplo mais próximo, mais à mão, e alarguemos as exemplificações. É sabido que os mais dignos dos alemães sempre recusaram solidariedade aos soldados que executavam as campanhas militares que Hitler ordenava, embora enquanto pais amassem os filhos mobilizados, enquanto amigos desejassem o melhor aos seus amigos enviados a ocupar a Europa. E que os italianos antifascistas, que eram, milhões, não deram solidariedade aos soldados que o Duce mandou a massacrar os etíopes, a invadir a Grécia, a apunhalar a França já moribunda. E que muitos e bons norte-americanos recusaram a solidariedade aos soldados enviados para o Vietnam, parece que só para ajudar o governo de Saigão a «manter a ordem». Estes exemplos, que serão apenas os mais facilmente evocáveis, devem chegar para me justificar perante a exigência que o senhor Primeiro-Ministro me fez e eu recebi via TV: não, senhor Primeiro-Ministro, por mim não posso. Sou amigo de fazer vontades, mas essa não. E receio que nem sequer possa ficar para a outra vez.

Um lapso na área gráfica amputou a minha crónica anterior da referência a dois dos cinco livros de Rentes de Carvalho editados pela Escritor, os romances «Ernestina» e «A Amante Holandesa», o que pode indiciar uma desatenção da minha parte que de facto não existiu.


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