A gazua de vidro
Feneciam os oito meses prometidos por Santana Lopes para recuperar o Parque Mayer, uma das suas maiores promessas eleitorais, e nada acontecia até que, com grande algazarra, o edil põe o Ovo de Colombo: o casino no Parque Mayer.
A confusão acampou na urbe. Prós e contras trocam argumentos. Fazem-se inquéritos nos jornais, debate na televisão (*) um espectáculo fatela de apoio dos artistas ao Santana que faz anúncios mirabolantes, a câmara esperava que «se tudo correr bem, e o projecto merecer aprovação, as obras estarão em condições de arrancar em Dezembro ou Janeiro de 2003» que só aceitava «um referendo sobre o Casino de Lisboa se fizerem sobre os outros todos» que o «Parque Mayer renovado vai ser um templo da cultura e das artes» etecetera e tal - será de recordar que um dos equipamentos previstos era o de um museu da moda que, em Lisboa, negaria a sua vocação cristalizando-se - e sai um decreto viabilizando o casino na capital e os dinheiros estão todos garantidos pelos concessionários e quase tudo corre às mil maravilhas se não fosse um continuado questionar das soluções para o Parque Mayer por cima da barulheira populista, até que...o Senhor Presidente, decerto incomodado pelos que insistiam num prometido debate sobre as soluções para aquela zona da cidade e enfrentando a realidade de se estar em meados de Dezembro e nada de obras, puxa da gazua de vidro para abrir as portas do paraíso onde, pensa ele, se apagam todas as controvérsias, e anuncia solenemente que tinha escolhido o arquitecto Frank Gehry para elaborar o projecto de recuperação do Parque Mayer.
Iniciam-se outras «barafundas», adjectivo simpático reconheça-se, o casino a sobrevoar Lisboa, terrenos a serem trocados e por fim não haver dinheiro para pagar integralmente o projecto (**). Para memória próxima e futura dever-se-á fazer uma cronologia detalhada deste processo, certamente muito instrutiva.
Mas o que mais nos interessa é o processo de escolha do arquitecto. É claro que Santana Lopes quando puxa essa cartada tem o objectivo óbvio de abafar toda e qualquer discussão pública sobre o futuro dessa zona da cidade que tem um impacto directo e imediato na Avenida da Liberdade e no Jardim Botânico, áreas que lhe são contíguas, discussão que não se reduz à arquitectura e à qualidade da arquitectura.
Cortina de fumo
A escolha de Gehry, independentemente da apreciação que se faça da sua obra, é inaceitável, como é inaceitável a escolha de qualquer outro Gehry.
Entidades públicas têm particulares responsabilidades e não se deviam permitir ao luxo de escolherem a seu bel-prazer arquitectos, por melhores credenciais que apresentem. Deviam sentir-se obrigadas a organizar concursos onde se confrontem ideias inovadoras, questionando o lugar e a sua envolvente, cumprindo o que está estipulado nos planos urbanísticos. Em Bilbau, o Museu Guggenheim foi objecto de um concurso porque é norma estabelecida em Espanha que edifícios construídos com dinheiros públicos devem ser sempre objecto de concurso. Concurso que foi feito por convite a três arquitectos e que poderia ter sido aberto a todos porque, como não há muito tempo Dominique Perrault defendeu publicamente em Portugal, os concursos são um óptimo meio de se revelarem outros e sobretudo jovens arquitectos e disse-o referindo-se ao seu próprio percurso profissional. Concursos públicos que a bastonária da Ordem dos Arquitectos, e com toda a razão, quer reformular para os valorizar e dignificar.
É claro que a selecção de Santana Lopes é feita em função do nome, da fama, justa ou excessiva, do Guggenheim de Bilbau com os objectivos já enunciados e com algumas convicções tontas que a actualidade mostra estarem em falência(***). Escolheu como escolhe os fatos, os perfumes ou os sapatos porque se escolhe pela marca, pela assinatura, e isso está de acordo com a mistificação que se vive no nosso quotidiano norte-atlanticentrico, de conhecimento e gostos fragmentários, onde a banalidade desde que legitimada por uma assinatura adquire um estatuto de coisa desejável e quase impar. Onde entre dois objectos rigorosamente iguais a diferença se faz pela assinatura com consequente reflexo no preço. Lá em casa pode ser assim mas com dinheiros públicos há regras que, mesmo que não sejam estritamente obrigatórias, devem ser respeitadas. Mesmo quando não são legalmente exigíveis devem ser postas exemplarmente em prática por quem exerce cargos públicos.
No caso do Parque Mayer um concurso público alicerçado num programa bem definido, o programa entregue a Gehry anda em bolandas, o que só demonstra a desorientação, a falta de estudo e de debate sobre essa sensível zona da cidade causando mesmo a impressão que o Parque Mayer só serviu de cortina de fumo por onde se evaporou, entre outras coisas, o imprescindível casino, tinha sido uma mais valia para a cidade de Lisboa.
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(*) Debate (?) com alguns pormenores fantásticos como o de todos, mesmo os supostamente adversários do projecto, Portas o não ministro, Coelho e Dias, reconhecerem a grande qualidade dos espectáculos do Casino Estoril.
(**) Santana Lopes logo no início da gehrização anunciou que os honorários do arquitecto canadiano eram comparáveis aos de Norman Foster, arquitecto que tinha sido recomendado por João Soares aos proprietários do Parque Mayer, com certezas tão antigas não se entendem os actuais problemas de pagamento.
(***) Santana Lopes decretava que um projecto Frank Gehry atrairia milhares de visitantes a Lisboa. Decreto que já faliu ao saber-se que o Walt Disney Concert Hall enquanto projecto não tem grande poder de atracção por não ser formalmente muito distinto do Guggenheim de Bilbau. É que esta coisa de explorar os planos curvílineos que um determinado software proporciona, associando-os aleatoriamente pelo que parece ser mais espectacular, acaba por ter os seus limites.
A confusão acampou na urbe. Prós e contras trocam argumentos. Fazem-se inquéritos nos jornais, debate na televisão (*) um espectáculo fatela de apoio dos artistas ao Santana que faz anúncios mirabolantes, a câmara esperava que «se tudo correr bem, e o projecto merecer aprovação, as obras estarão em condições de arrancar em Dezembro ou Janeiro de 2003» que só aceitava «um referendo sobre o Casino de Lisboa se fizerem sobre os outros todos» que o «Parque Mayer renovado vai ser um templo da cultura e das artes» etecetera e tal - será de recordar que um dos equipamentos previstos era o de um museu da moda que, em Lisboa, negaria a sua vocação cristalizando-se - e sai um decreto viabilizando o casino na capital e os dinheiros estão todos garantidos pelos concessionários e quase tudo corre às mil maravilhas se não fosse um continuado questionar das soluções para o Parque Mayer por cima da barulheira populista, até que...o Senhor Presidente, decerto incomodado pelos que insistiam num prometido debate sobre as soluções para aquela zona da cidade e enfrentando a realidade de se estar em meados de Dezembro e nada de obras, puxa da gazua de vidro para abrir as portas do paraíso onde, pensa ele, se apagam todas as controvérsias, e anuncia solenemente que tinha escolhido o arquitecto Frank Gehry para elaborar o projecto de recuperação do Parque Mayer.
Iniciam-se outras «barafundas», adjectivo simpático reconheça-se, o casino a sobrevoar Lisboa, terrenos a serem trocados e por fim não haver dinheiro para pagar integralmente o projecto (**). Para memória próxima e futura dever-se-á fazer uma cronologia detalhada deste processo, certamente muito instrutiva.
Mas o que mais nos interessa é o processo de escolha do arquitecto. É claro que Santana Lopes quando puxa essa cartada tem o objectivo óbvio de abafar toda e qualquer discussão pública sobre o futuro dessa zona da cidade que tem um impacto directo e imediato na Avenida da Liberdade e no Jardim Botânico, áreas que lhe são contíguas, discussão que não se reduz à arquitectura e à qualidade da arquitectura.
Cortina de fumo
A escolha de Gehry, independentemente da apreciação que se faça da sua obra, é inaceitável, como é inaceitável a escolha de qualquer outro Gehry.
Entidades públicas têm particulares responsabilidades e não se deviam permitir ao luxo de escolherem a seu bel-prazer arquitectos, por melhores credenciais que apresentem. Deviam sentir-se obrigadas a organizar concursos onde se confrontem ideias inovadoras, questionando o lugar e a sua envolvente, cumprindo o que está estipulado nos planos urbanísticos. Em Bilbau, o Museu Guggenheim foi objecto de um concurso porque é norma estabelecida em Espanha que edifícios construídos com dinheiros públicos devem ser sempre objecto de concurso. Concurso que foi feito por convite a três arquitectos e que poderia ter sido aberto a todos porque, como não há muito tempo Dominique Perrault defendeu publicamente em Portugal, os concursos são um óptimo meio de se revelarem outros e sobretudo jovens arquitectos e disse-o referindo-se ao seu próprio percurso profissional. Concursos públicos que a bastonária da Ordem dos Arquitectos, e com toda a razão, quer reformular para os valorizar e dignificar.
É claro que a selecção de Santana Lopes é feita em função do nome, da fama, justa ou excessiva, do Guggenheim de Bilbau com os objectivos já enunciados e com algumas convicções tontas que a actualidade mostra estarem em falência(***). Escolheu como escolhe os fatos, os perfumes ou os sapatos porque se escolhe pela marca, pela assinatura, e isso está de acordo com a mistificação que se vive no nosso quotidiano norte-atlanticentrico, de conhecimento e gostos fragmentários, onde a banalidade desde que legitimada por uma assinatura adquire um estatuto de coisa desejável e quase impar. Onde entre dois objectos rigorosamente iguais a diferença se faz pela assinatura com consequente reflexo no preço. Lá em casa pode ser assim mas com dinheiros públicos há regras que, mesmo que não sejam estritamente obrigatórias, devem ser respeitadas. Mesmo quando não são legalmente exigíveis devem ser postas exemplarmente em prática por quem exerce cargos públicos.
No caso do Parque Mayer um concurso público alicerçado num programa bem definido, o programa entregue a Gehry anda em bolandas, o que só demonstra a desorientação, a falta de estudo e de debate sobre essa sensível zona da cidade causando mesmo a impressão que o Parque Mayer só serviu de cortina de fumo por onde se evaporou, entre outras coisas, o imprescindível casino, tinha sido uma mais valia para a cidade de Lisboa.
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(*) Debate (?) com alguns pormenores fantásticos como o de todos, mesmo os supostamente adversários do projecto, Portas o não ministro, Coelho e Dias, reconhecerem a grande qualidade dos espectáculos do Casino Estoril.
(**) Santana Lopes logo no início da gehrização anunciou que os honorários do arquitecto canadiano eram comparáveis aos de Norman Foster, arquitecto que tinha sido recomendado por João Soares aos proprietários do Parque Mayer, com certezas tão antigas não se entendem os actuais problemas de pagamento.
(***) Santana Lopes decretava que um projecto Frank Gehry atrairia milhares de visitantes a Lisboa. Decreto que já faliu ao saber-se que o Walt Disney Concert Hall enquanto projecto não tem grande poder de atracção por não ser formalmente muito distinto do Guggenheim de Bilbau. É que esta coisa de explorar os planos curvílineos que um determinado software proporciona, associando-os aleatoriamente pelo que parece ser mais espectacular, acaba por ter os seus limites.