Identidade essencial

Zillah Branco
As linguagens são variadas - umas dando maior peso à racionalidade e outras às emoções que abrem caminho para a espiritualidade - em busca da identidade da pessoa, do grupo social, do povo, da cultura. A literatura actual reflecte esta ansiosa busca que também existe nas manifestações intelectuais artísticas e científicas.
Os caminhos propostos muitas vezes conduzem a um encontro isolado, com o «eu» interior, com preocupação metafísica, mas o conhecimento científico aplicado visa o colectivo, a sociedade, a humanidade, mesmo tomando o caso individual. Os campos da sociologia, da economia e da política cruzam-se com os da psicologia, da antropologia, da ecologia, da geografia humana. Expandem-se conceitos de engenharia social, assim como os de arquitectura urbanística, de neurobiologia da consciência, que, como tantos outros entrelaçamentos de áreas científicas diferentes, amarram as ciências exactas e as técnicas ao compromisso com o bem estar das populações, com o ambiente que deverá ser saudável e belo, com o relacionamento harmonioso entre indivíduos.
A filosofia deixa a torre de marfim em que se fechava para servir à criatividade que está em ebulição, sobretudo nas sociedades mais carentes, a improvisar soluções para os graves problemas de sobrevivência. A ética ressurge através dos que revolucionam velhas e falidas estruturas sociais e se defronta com a decadência dos costumes resultante do poder desenfreado e insaciável que levou as elites à insanidade celebrada em orgias degradantes e na corrupção impune.
Esse quadro putrefacto soma-se à destruição crescente da natureza e desperta a consciência do ser humano que tem o instinto da sobrevivência e aprendeu com a História que além de indivíduo é cidadão de um mundo necessariamente organizado.
O economista francês Pierre Salama, conhecedor da situação latino-americana, recomenda o recurso da utopia contra o fatalismo para que os países encontrem o próprio caminho do desenvolvimento independente livre dos maus conselhos transmitidos pelos porta-vozes do FMI. Leonardo Boff, militante da Teologia da Libertação, refere a opinião de Fidel Castro (que procurou como amigo antes de tomar a difícil decisão de renunciar aos votos franciscanos) que disse: «mas você continuará o mesmo com a opção pelos pobres e pela sua libertação? Respondi-lhe: sim, porque essa é uma opção de vida. Então, respondeu: tudo bem, o melhor do cristianismo está salvo. E fez-me a seguinte observação: há momentos na vida em que para continuarmos os mesmos temos que mudar. Você teve a coragem de mudar, para continuar o mesmo de sempre.»
Apesar da galopante concentração de renda e de poder, o sistema capitalista mundial está em declínio e recorre às fanfarronices de Bush com os seus «falcões» numa exibição machista, como explica o sociólogo norte-americano Imanuel Wallerstein. A guerra contra o Iraque com falsos pretextos esclareceu a opinião pública nos países invasores.
As acções terroristas com que grupos desesperados se defendem deixa a nu a fábrica do terror manipulada pelos governos expansionistas que usam criminosamente a bandeira dos Direitos Humanos para abrir caminho às suas ambições mesquinhas. A ONU, ao tentar assumir uma posição de neutralidade política pagou com a vida dos seus representantes o grave erro de acreditar na hipótese de neutralidade moral numa invasão criminosa.

Identidade profunda

São tantos os desmandos, as falsidades, a decadência moral, dos líderes do sistema capitalista imperante no planeta, que a consciência da necessidade de por cobro à destruição mundial emerge entre todos os povos. Já se compreende a função ilusionista e perversa do «mercado livre» que impõe o consumismo como uma cultura moderna. Já se percebe a função mistificadora de um modelo de comportamento transmitido pelos órgãos de comunicação social que embrutece e aliena as jovens gerações indefesas. Já se comprova nos países mais desenvolvidos, onde o cálculo financeiro professado pela senhora Thatcher levou ao desmantelamento dos recursos de segurança social, que o fortalecimento dos bancos e empresas multinacionais condenou à morte milhares de idosos no verão quente de 2003 – mais de 10 000 na desenvolvida França e não se sabe quantos nos demais países onde os registros estatísticos não revelaram a extensão da tragédia em vidas humanas.
O Brasil respira sob o governo de um ex-operário que conquistou a admiração mundial pela serenidade com que executa as funções de presidente e autoriza alianças com antigos adversários sem perder a firmeza de quem assegura a coerência. Lula tem carisma não só dentro do seu país mas junto aos povos que o conhecem porque reflecte a simplicidade de quem caminha no sentido da verdade. Com ele se identificam todos os que sabem não existirem donos da verdade, apenas militantes filiados a este ideal que não transigem no que é essencial.
Duas grandes batalhas políticas foram travadas pelo Governo de Lula: pela aprovação de reformas da Previdência e Tributária que abrissem caminho ao combate à concentração e má distribuição da renda que condenam 20 milhões de brasileiros à fome e à maioria da população à miséria. Os governos anteriores, de Fernando Henrique Cardoso, não conseguiram em 8 anos o que agora foi possível em 9 meses. Explica-se pela capacidade de diálogo verdadeiro com as várias tendências políticas, com os mais diversos pontos de vista dos 27 governadores de Estado que enfrentam níveis de desenvolvimento absurdamente díspares dentro de um mesmo país.
Os textos aprovados pelo Congresso Nacional não são perfeitos, são possíveis, mas carregam os compromissos dos que participaram na sua elaboração – sindicatos operários, movimentos sociais, 27 Estados da Federação, entidades empresariais. O possível é, no momento presente, a verdade com que contamos. Os descontentes manifestaram o seu protesto que corresponde a anseios de grupos sociais, de corporações profissionais. Os partidos de esquerda utilizaram a experiência para formar a consciência militante que deve representar o interesse colectivo da sua organização. É uma aprendizagem difícil, dolorosa, mas necessária para os que pretendem fazer girar a roda da história brasileira ladeira acima. Mesmo sentindo-se como «voto vencido» o cidadão não se sente derrotado, porque se identifica com o caminho aberto que é possível e coerente com a dignificação do povo.

Adversários e inimigos

Pela primeira vez na história do Brasil tornou-se possível distinguir adversários políticos de inimigos. Os adversários exprimem as suas discordâncias e defendem os seus interesses enquanto não se está diante de uma necessidade nacional de união. Os inimigos prosseguem uma luta perversa, destruidora do equilíbrio da sociedade pondo em risco de vida a população: são os que controlam redes criminosas que aliciam jovens e mesmo crianças para o tráfico de drogas, de armas e prostituição, são os que desviam os recursos públicos para o fomento da corrupção em todos os níveis, corroendo sectores policiais, judiciários, bancários, políticos.
O grande mérito dessa localização objectiva dos inimigos está na capacidade de diálogo político em torno das grandes questões que encaminham uma estratégia de desenvolvimento do país: a fome, a saúde, a habitação, o analfabetismo, a construção de infra-estruturas, a conservação das vias de transporte, o desemprego, a produção, a exportação de produtos agrícolas e industriais, a segurança pública. Tais questões unem até mesmo os adversários. Para responder aos que esperam uma urgente revolução que transforme o Brasil num paraíso, Lula recomenda como primeiro passo que «cada um faça intimamente a sua revolução» para que depois seja possível avançar com um programa colectivo nacional.
Põe-se a questão da identidade de princípios e de objectivos indissociável da capacidade de assumir a responsabilidade pelo que se diz. As basófias são tão nocivas como as falsas informações, iludem os incautos e manipulam as consciências ainda não desenvolvidas. As actividades políticas implicam na sequência de fases de planeamento, programação, controle das acções com previsão das suas consequências. Obriga a muito estudo, a muitos debates, a muita humildade para ouvir a voz colectiva.
O deputado federal Aldo Rebelo do Pc do B, que é o líder do Governo no Parlamento, ao ser interpelado sobre a mudança de linguagem da esquerda que, quando oposição condenava veementemente algumas das medidas que hoje se vê obrigada a cumprir, explicou: «Nos governos anteriores os partidos de esquerda não podiam participar do diálogo promovido apenas com as forças políticas de direita. Só nos restava denunciar os problemas mais graves.»
E hoje, diante das pressões dos Estados Unidos na OMC, o Brasil aparece como líder dos países em desenvolvimento que sofrem as discriminações das economias mais fortes que protegem os seus produtos e taxam fortemente os que importam dos países pobres. Este condicionalismo da pobreza, imposto pelos países mais ricos aos mais pobres, impossibilitam eternamente que haja desenvolvimento. Não há como sair da exportação de produtos primários altamente taxados e importar os transformados (muitas vezes feitos a partir da matéria prima dos países pobres) a preços exorbitantes. Esta condenação à pobreza e a dependência, que sempre foi denunciada pela esquerda, hoje é percebida no Brasil também pelos antigos adversários que passaram a somar no confronto com a pressão imperialista. Não há como negar o processo de consciencialização nacionalista em torno de um conceito de dignidade que unifica as forças políticas.


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