O hífen

Jorge Cordeiro
Após breve interregno no exercício do seu anticomunismo, Prado Coelho regressou ao seu melhor neste domínio. O pretexto, entre outros, foi a Festa que, segundo ele, «tanto podia ser hoje como no final do século XIX», e a repetida polémica que a propósito do hífen pretende separar leninismo e marxismo. A primeira por tão primária, que só uma insuficiência de reprodução das células dedicadas à coordenação do raciocínio podem explicar, não merece sequer o trabalho de conhecer resposta. Fiquemos pois apenas pela segunda, não tanto por atenção a quem a disse mas pelo lastro de falsificações que a acompanha.
Com a desonestidade intelectual que se lhe reconhece, Prado Coelho afirmou: «é a famosa luta pelo hífen: onde há marxismo há leninismo.» Ao fazê-lo pretende, atribuindo a outros o que não afirmam, simplificar para melhor mistificar. Prado Coelho sabe que não é essa a questão, mas sim outra. A de que marxismo e leninismo são, enquanto teoria e síntese de pensamento revolucionário, inseparáveis.
O marxismo ganha vida e sentido prático com Lénine, o leninismo é indissociável da teoria de Marx. A obra e legado de Marx não é uma mera soma de textos académicos. O marxismo constitui um sistema coerente e indissolúvel de teorias filosóficas, económicas e políticas que é em si mesmo uma revolução cientifica, um instrumento de análise e de aplicação ao processo social e histórico. Mas Marx não se limitou, o que em si mesmo seria já algo de alcance ímpar e irrecusável, a evidenciar os mecanismos de exploração e a identificar a luta de classes como factor de desenvolvimento da sociedade. Enunciou de forma clara a necessidade de a transformar e o papel histórico que em capitalismo a classe operária é chamada a desempenhar. Em Lénine e na Revolução de Outubro a teoria de Marx, enquanto doutrina revolucionária, não só se desenvolve como ganha força material. É na teoria sobre o Partido, a sua natureza, características e organização que se funda o meio de que os explorados dispõem para concretizar o objectivo que Marx prosseguia de transformar o mundo e de vencer a falta de unidade organizativa e de orientação que identificara na derrota da Comuna.
Percebe-se o horror ao hífen dos acomodados deste mundo que com dó contemplam, entre dois dedais de uisque tomados na fundura do seu sofá, as desigualdades e a miséria humana que o sistema, à conta do qual vivem, dia a dia cria e amplia. Não por uma questão de fonética. Mas porque é no marxismo-leninismo que a teoria de Marx e Lénine sai das estantes para a rua, se liga á vida e à luta pela transformação social, ganha a força nas massas que há-de pôr fim à exploração e ao capitalismo.


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