O 11 de Setembro e as religiões
Faz dois anos que um acto terrorista destruiu as torres de Nova Iorque. São dois anos em que o poderoso aparelho de investigação criminal americano não avançou sequer um passo no esclarecimento da teia do crime. Tempo suficiente para que muitos de nós considerem estar confirmado aquilo em que instintivamente pensaram desde o choque das primeiras notícias: «o incêndio do Reichstag fez escola...». Como justificar este paralelo? Quando os nazis se apoderaram do poder alemão, em 1933/34, eram portadores de um projecto de domínio da Europa e do mundo. Não tinham, porém, capacidade para, fulminantemente, atingirem os seus objectivos. Representavam uma minoria do povo alemão e o seu atraso tecnológico era notório. Impunha-se andar depressa. Então, os propagandistas nazis lançaram mão do mito do «eixo do mal»: eram os judeus e os comunistas os grandes culpados pela desgraça em que a nação alemã se via mergulhada. Sabiam, porém, que a história que contavam, embora fosse ao encontro de aspectos centrais da tradição germânica, não chegaria por si só para galvanizar a população. Era preciso fundamentar a tese num facto evidente. E foi por isso que o Reichstag - a Chancelaria - veio a arder completamente. O causador do incêndio foi logo preso, a Constituição suspensa e publicou-se um pacote de leis terroristas. Como convinha, o incendiário era judeu e vagamente comunista. O Partido Nazi, sustentado pelas suas milícias criminosas e pelos generais, instalou-se solidamente no poder. Iniciara-se a era do terror. O incêndio do Reichstag passou a constituir segredo de Estado. Os propagandistas tinham afinal, jogado com bem pouco. Porém, a partir desse quase nada, a propaganda nazi realizara uma vasta colheita política. Este tipo de intriga (desde então cultivada sem quaisquer escrúpulos por responsáveis nazis ou mais ou menos nazis) prevalece na sociedade actual. As guerras capitalistas de agressão (Canal do Suez, Vietnam, guerras do Golfo, etc., etc.) invocaram invariavelmente, como justificação ética, um «incidente» fictício qualquer, cuidadosamente trabalhado pelos serviços secretos e pela propaganda. Por exemplo, no caso do Iraque, justificaram-se os primeiros bombardeamentos a partir da suposição de que «os radares iraquianos estavam a seguir os bombardeiros anglo-americanos». Tanto bastou para correr tudo à bomba... Veio, em seguida, a fantasia da ameaça iraquiana a Israel. A ONU, «para evitar o pior», decretou o embargo económico ao Iraque. Nos oito meses seguintes, o bloqueio matou 47 000 crianças menores de cinco anos. Mas nada disto chegava. Com Sadam ou sem Sadam, o povo iraquiano teimava em resistir. Surgiu então a tese das «armas de destruição maciça» e a agressão brutal. O Iraque foi ocupado. A história das tais armas jamais encontradas, transformou-se em «segredo do Estado». Mas as coisas não têm corrido bem para o ocupante. Torna-se, pois, necessário continuar a alimentar a intriga. Inventar novas motivações para a guerra do petróleo. Convencer por exemplo as massas de que são as religiões que se confrontam e não os lobbies, a concorrência e a acumulação dos lucros. A destruição da sede da ONU em Bagdad e a explosão da mesquita xiita podem vir a apontar neste sentido. Muitos problemas do ocupante norte-americano viriam a ser resolvidos caso a situação virasse para uma guerra civil entre xiitas e sunitas e convencesse a Europa de que é a defesa dos valores religiosos aquilo que está em jogo. De momento, só é possível arriscarem-se opiniões pessoais. E se a verdade acabar por ser conhecida é provável que tudo aconteça tarde de mais. O Iraque representará então uma migalha da História e o seu povo por pouca coisa será recordado. Nem por isso devemos parar. Temos a memória do que aconteceu. Compreendemos, em termos gerais, o que se está a passar. Se o povo iraquiano for derrotado e esquecido, outras nações e outros povos serão esmagados. A verdade, nua e crua, é que os iraquianos têm tantas razões para não quererem na sua pátria os americanos e os ingleses, quantas lhes sobram para odiarem a ONU. Nesta guerra, não há religiões. Há o opressor e há o oprimido. Dizia um tecnocrata USA: «Temos 50% da riqueza mundial e 6,3% da sua população. O nosso verdadeiro trabalho é manter essa situação.»