A Festa terminou...

Francisco Mota
Manuel Pardal
Mogadouro
(à memória)


Pardal amigo:

Escrevo-te na noite de 5 de Setembro. Este ano não posso ir à Festa. Quando isto me acontece fico a pensar nos amigos que nunca poderão ir à Festa, como tu, que nos deixaste, tão tristes, há tantos anos.
Gostava tanto de te levar à Atalaia, chegar àquele alto e ver, ainda de dia, as cores das casinhas, das bandeiras, de relva, das árvores, do rio e, ao fundo, de Lisboa e da margem sul. Sei que ias ficar orgulhoso da beleza de tudo aquilo.
Depois íamos rapidamente para Bragança, não por tu seres de Mogadouro, mas, porque eu e os meus amigos marcamos aí o nosso encontro, por causa dos «canelos», isto é, chispe fumado, demolhado e cozido que se come frio ou quente, com umas fatias de pão de centeio e um copo de tinto de Macedo de Cavaleiros.
Como te conheço, sei que quererias uma cerveja bem fria («Estás com a barriga cada vez maior» diria a Necas, tua mulher). Íamos à procura do Algarve e, entretanto, depois de cuidadas combinações de horas e locais de encontro as tuas filhas ficavam livres para ir à China comer um «lolo de plimavela» e ver tocar o pessoal da pesada, ouvir o que elas gostam e tu não entendes (os comunistas também ficam velhos, amigo).
Antes de chegar ao Algarve, passo por Setúbal para comprar umas quantas sandes de choco frito, maravilha de simplicidade, sabor e texturas, enquanto tu pedes umas conquilhas, lambujinhas, condelipas ou como os algarvios quiserem chamar ao humilde e saboroso marisco da areia da praia.
Para ir assegurando o futuro próximo alguém do nosso grupo vai para a fila de Aveiro («sabes, Manel, já não se diz bicha como há vinte anos, porque parece que agora é uma palavra muito feia. Não percebes? Deixa lá que eu também não. Devem ser questões filológicas idiotas»). Dizia eu que em Aveiro se come um leitão com um espumante e um pão que ficas com uma vontade de abraçar toda a gente que aparece à tua frente.
Começas a estar cheio, Manel? Só mais um esforço: compramos um quarto de queijo da Serra, uma garrafa de tinto do Alentejo ou do Dão e vamos para a Madeira ou os Açores, que costumam estar próximas. Aí, arranjamos uma mesa e umas cadeiras, pedimos ananás, poncha ou bolo de mel e deitamos conta a tudo o que nos falta provar.
Entretanto anoitece e as luzes da Festa, do céu e de Lisboa fazem uma paisagem universal e íntima ao mesmo tempo.
Nesta altura conto-te uma situação que nunca contei a ninguém até hoje: aqui há uns dez anos, no fim da Festa, domingo já tarde na noite, eu dava a última volta sozinho. Muita gente já tinha saído, para voltar às suas terras. O último concerto no palco principal tinha acabado e ouviam-se os aplausos dos que tinham assistido e não queriam que aquilo terminasse. Deambulando encontrei-me em frente da barraquinha de Trás-os-Montes. As prateleiras de artesanato, vinhos, mel, etc, estavam bastante vazias, o que queria dizer que a Festa desse ano tinha sido boa para a vossa organização regional. Junto ao balcão um homem, cara cansada do trabalho e da vida, setenta anos mais ou menos, atendia quem passava. Nesse momento era só eu. «Tens vinho fino do agricultor, amigo?» perguntei (vinho fino é o vinho do Porto, que não foi ao Porto). «Ainda tenho duas garrafas podes ter a certeza de que é legítimo», respondeu. «De donde és?», perguntei. «Do Planalto Mirandês, de Mogadouro», disse-me ele.
Nesse momento contei-lhe que tinha tido um bom amigo em Mogadouro, o veterinário Doutor Pardal que nos tinha deixado há anos. A cara daquele homem ficou parada e, ao mesmo tempo que me dizia, com dificuldade, que não seria fácil voltar a ter de novo um homem humano como tu, vi que umas lágrimas desciam pelas rugas da sua cara.
Eu estendi a minha mão, agarrei o seu braço e ali ficámos os dois a chorar, lentamente, porque éramos teus amigos.
Não sei se fui capaz de dizer «Bom trabalho, amigo», mas suponho que tentei. Naquele momento, começou a ouvir-se o «Amigos, camaradas, a Festa do Avante deste ano terminou» e um arrepio percorreu mais que o meu corpo a minha alma.
A partir desse dia, daquela noite, quando fico na Festa no domingo nunca passo por Bragança no fim da noite e tento sair antes de ouvir os altifalantes informar da triste realidade: «A Festa deste ano terminou.»
Não olho para a barraquinha de Bragança porque tenho medo do que aquele amigo cujo nome nem sei, esteja lá ou, pior ainda, não esteja lá.
Era isto que te queria contar, Pardal, para que estejas onde estiveres, saibas que continua a haver gente capaz de fazer coisas belas, lindas e humanas. Como tu.


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