Pedofilias 2

Jorge Messias
Fundada em 1781, a Real Casa Pia de então não correspondia à instituição em que depois se tornou. Foi instalada no Castelo de S. Jorge e tinha como finalidade a recolha dos mendigos e órfãos que enchiam as ruas de Lisboa. Deveu-se a sua fundação a Pina Manique, poderoso Intendente das Polícias de D. Maria I. Caracterizava o delegado régio uma rigorosa disciplina, a capacidade de trabalho, a fidelidade à Coroa e um catolicismo sectário. Escolhera como sua divisa «Sacerdócio e Império». Esta breve apresentação nada tem de negativo para a Casa Pia de Lisboa e para as mudanças que nela se viriam a registar. Pina Manique viveu numa época rica em transformações sociais (revolução francesa, primeira revolução industrial, período ideológico do liberalismo revolucionário, acumulação de novas ideias acerca da sociologia dos sexos, dos direitos humanos e da criança, da liberdade religiosa, dos conceitos de separação dos poderes, etc.). Pina Manique combateu cegamente todas estas bases da revolução cultural cuja afirmação, evidentemente, era já inevitável. Mais tarde, a Casa Pia, sua criação pessoal, sobreviveu ao criador e foi-se adaptando gradualmente às novas exigências da pessoa, do cidadão e da sociedade. Embora conservando, como seria de esperar, muitas das marcas da sua matriz, nomeadamente a sua orientação global para os valores afirmados na divisa «Sacerdócio» (Igreja) e «Império» (Estado). Presentemente, no degradante episódio que atinge a instituição, as marcas da antiga promiscuidade entre a Religião e o Estado continuam a revelar-se. Não é apenas a Casa Pia que está em causa mas todo o processo que a Igreja adoptou para basear e desenvolver a sua acção social. Eis-nos, pois, perante uma outra eventual explicação para a mudez dos bispos portugueses. Agora que os acontecimentos vão sendo divulgados, é mais fácil compreendermos melhor a arrumação das forças que se movimentam no vasto campo vazio da ética católica. É nele que se encontra alguma motivação para os silêncios eclesiásticos e para os lapsos de memória dos homens e das mulheres responsáveis, que sabiam e nada disseram ou nem sequer responderam aos apelos das crianças violadas pelos vilões. Assim, a proposta que pode e deve ser feita é a de valorizarmos a função crítica e deixarmos à Justiça o encargo de graduar as responsabilidades individuais dos actos cometidos. Ou seja, de considerarmos apenas nos seus conteúdos políticos e pedagógicos, nos seus conceitos e valores dominantes, o processo Casa Pia. Poderemos, deste modo, combater os engodos que a gigantesca campanha de contra-informação nos lança e nos pode conduzir, caso a aceitemos como boa, à transformação em simples espectáculo do que é um sério ataque aos fundamentos da democracia portuguesa. Em 1881, mais de cem anos depois de Pina Manique ter fundado a Casa Pia e lhe ter transmitido a sua perspectiva de Estado e de Caridade, o Papa Leão XIII - pai da doutrina social da igreja - publicava a sua famosa encíclica Rerum Novarum («Das Coisas Novas»). Essa carta apostólica, celebrada pelos católicos fundamentalistas como «revolucionária», construía-se a partir de três eixos principais: reconhecimento da existência da luta de classes e de uma nova classe trabalhadora, operária e urbana; definição da «questão social», na óptica do Vaticano; e declaração dos princípios a adoptar nesta área, pelos Estados de obediência cristã. «O problema não é fácil de resolver nem isento de perigos (...) a questão não é sem perigo (...) porque não poucas vezes homens turbulentos e astuciosos procuram desvirtuar-lhe o sentido e aproveitam-na para excitar as multidões e fomentar desordens. (...) O que se pede aos governantes é um contributo de ordem geral, que consiste na orientação das leis e das instituições (...) o que torna uma nação próspera são os costumes dignos, as famílias fundadas sobre uma ordem recta, o respeito da religião e da justiça, uma imposição moderada e uma repartição equitativa dos encargos públicos (...) é dever principalíssimo dos governos assegurar a propriedade privada, por meio de leis sábias (...) intervenha, portanto a autoridade do Estado e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da sedução, e os patrões de serem despojados do que é seu.» (RN , pontos 1, 23 e 28).


Mais artigos de: Argumentos

Marianismos salazarentos

O dia 28 de Junho de 1947 é uma data que pouco ou nada diz ao cidadão comum e que milhares de mulheres ignoram, apesar de assinalar um evento marcante, pela negativa, na história do movimento de emancipação feminina em Portugal. Nesse dia, o coercivo encerramento da sede do CNMP - Conselho Nacional das Mulheres...

O mistério da meia desaparecida

Se eu fosse economista… Mas não sou. O que fazias? É que estava a apetecer-me falar de temas como o fundamentalismo - para mim enquanto cidadão - anti-inflacionista. Às vezes parece-me que o reformar-se antes de tempo já é [, pelo menos objectivamente,] uma medida conducente à solução do «problema» das pensões:...

No regresso de Harry Potter

Não direi que foi a grande notícia do fim-de-semana, a que os telenoticiários divulgaram com maior destaque: há-de ter havido por esse País fora algum crime, alguma desgraça, que terá recebido tratamento de grande manchete audiovisual e reportagem no local com parentes e vizinhos das vítimas. A questão é que já não...