O mistério da meia desaparecida

Francisco Silva
Se eu fosse economista… Mas não sou. O que fazias? É que estava a apetecer-me falar de temas como o fundamentalismo - para mim enquanto cidadão - anti-inflacionista. Às vezes parece-me que o reformar-se antes de tempo já é [, pelo menos objectivamente,] uma medida conducente à solução do «problema» das pensões: pensionando-nos mais cedo pode-se, com enorme facilidade, resolver tais «problemas». A inflação virá a seguir - já ela começa a ser augurada, quase em segredo (?) por «especialistas» -, a massa salarial, então mais contida, é aumentada de acordo com a inflação, mas as pensões de reforma, coitadas delas… dos velhos!
Mas, como não sou economista, Juizinho, só podes falar dos sapatos que vais reparando! E por exemplo?... A meia que desapareceu de cima da secretária onde estuda a minha filha! Sim, na sua ausência, fechara eu a porta do seu quarto, já depois de ter colocado em cima da dita secretária a tal meia que tinha andado nos dentes que ocupam o focinho do cão lá de casa. Não queria que se repetisse a cena: meia nos dentes do cão, o jogo de lhe dar o biscoito para ele a largar. Evitar que a rompesse mais, era isso. E eu cheio de pressa para me equipar e, para variar, não chegar atrasado à aula de ginástica. Para não ouvir o professor, claro.
Mas a verdade era a meia não estar lá, ter desaparecido do sítio onde eu a colocara pouco antes! Pura magia, mistério, a minha «fortíssima» Razão parecia incapaz de deslindar o mistério. Inseguro, comecei eu a ficar. E mais ainda que com os truques dos prestidigitadores. Relativamente a estes, sempre estive seguro de existir uma explicação racional para, por exemplo, todas aquelas espadas não fazerem mal nenhum à assistente (sim, na pratica sempre uma representante do sexo feminino dos Homens) que, com toda a calma, se mete dentro da urna colocada ali no palco. Mas, no caso do mistério da meia, eu, quase à rasquinha…
Céus, a intuição salvadora, a Luz a fazer-se. O cão teria entrado pela janela-porta da varanda. Isto, vindo da varanda a que acedera através da janela-porta (não sei como designá-la, está visto) do quarto do meu filho, contíguo ao quarto da minha filha. Pois ele, o dono do cão, deixa com afoiteza, e com a segurança do domador, sempre aberta a porta do seu quarto. E como, agora que o tempo vai ficando quente, as janelas-portas dos quartos vão sendo deixadas abertas, o cão seguiu essa via para alcançar outra vez o seu troféu. Fê-lo quase de certeza (e dito assim, deixo porta aberta para qualquer outra possibilidade, que não vislumbro de momento).
Então, o cão, sem dúvidas quanto à forma de chegar à meia no quarto da minha filha, passando de quarto para quarto através da varanda comum. Nem precisou de ter presente a visão da meia - tê-la-á sentido pelo cheiro, dirão; o seu faro guiou-o, mais já sabia qual era o caminho, dirão ainda. Só eu é que não o sabia. Foi necessário ter tido aquela intuição, senão, provavelmente, ainda hoje estaria angustiado por ter deixado a segurança do Mundo que até então conhecia. Mas a intuição, que é como que uma outra face da razão, conduziu-me à descoberta. De seguida, lá construí o mecanismo de explicação, o seu conhecimento tendo-se, assim, «cientificado».
E mais. A situação é também reprodutível experimentalmente, estou disso seguro. Outra característica reconhecida como importante para o estabelecimento do facto científico. Só não consegui ainda foi ainda chegar a uma falsificação da explicação encontrada. Mas ensaiei-a. Poderia o cão ter aberto a porta, entrado e fechado a porta em seguida? Talvez, se a porta tivesse ficado apenas encostada - na minha confusão inicial (antes da intuição da descoberta do trajecto pela varanda), cheguei fugazmente a admiti-lo! Mas para entrar e ver que a meia já lá não estava, tinha tido que abrir o trinco da porta, o que, naquele caso, requer algum esforço.
Pois é. O caso é simples, mas parece estar alinhado com as regras da C&T: encontrei o mecanismo e a sua explicação, reproduzi-o mentalmente, esbocei uma lei (sem ter de entrar no domínio dos números e das fórmulas - também não é obrigatório), bem como desenhei soluções (fechar a porta do outro quarto, o do meu filho; colocar a meia num sítio mais alto, inacessível ao cão) e as implementei. Atrevida, toda esta procura de dessacralização? Talvez. Plena de erros a avaliação feita acerca da cientificidade da situação descrita? Um caso a ver. Interessante o enovelamento da intuição da situação com o raciocínio «cartesiano»? Por que não?
A realidade foi a de sair ainda a tempo de casa, tendo, ao mesmo tempo, resolvido a questão da «defesa» da meia relativamente aos dentes do cão lá de casa. E despedi-me com uma bem recebida festa na sua cabeça!


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