Cadê os outros?

Anabela Fino
Os lamentáveis acontecimentos do passado fim-de-semana, em Felgueiras, mostram até que ponto se pode degradar a concepção da actividade partidária e do próprio exercício do Poder Local.
Se já se tinha tornado evidente, nas últimas semanas, que os eleitos do PS no concelho não pretendiam abandonar os cargos - ou os «tachos» segundo algumas perspectivas -, verificou-se agora que não estamos «apenas» perante um caso de insólito apego ao poder mas, o que é muito mais grave, face a uma situação de vale tudo para manter o status quo.
Mas a agressão ao dirigente socialista Francisco Assis, além do mais, é reveladora de uma certa forma de «fazer política» que se está a instalar no país e cuja responsabilidade, importa dizê-lo, tem também de ser atribuída a quem se tem empenhado em transformar a política numa coutada de interesses e conivências espúrias.
Normalmente as coisas não chegam a vias de facto, mas a salutar troca de ideias e o debate sério, acalorados apenas pelo entusiasmo da argumentação e o empenho no convencimento dos outros da razão que cada um pensa ter, há muito que cederam o lugar, em diversos cenários, aos jogos de bastidores e ao poder dos mais fortes.
Escudados num populismo capaz de arregimentar uns quantos exaltados, os caceteiros de Felgueiras, à falta de argumentos, recorreram à «linguagem» das cavernas para tentar impor os seus pontos de vista.
Foi o que se viu. Perante o descalabro, a que nem sequer faltou o estranho atraso na intervenção das forças da ordem, ninguém se lembrou de questionar por que motivo quase três décadas depois do 25 de Abril ainda há quem acredite na existência de cidadãos acima de toda a suspeita, ou seja, acima da lei.
Não é preciso recuar muito no tempo para nos lembrarmos de algumas figuras públicas, como Mário Soares, por exemplo, entre outros, que a propósito do escândalo do sangue contaminado, questionaram a legitimidade da então ministra da Saúde, Leonor Beleza, estar sob suspeita. O caso prescreveu, como se sabe, e a culpa morreu solteira.
Em Felgueiras também há, ao que parece, quem dispense a intervenção da justiça nos problemas caseiros.
Os eleitos do PS não são obrigados a demitir-se, embora o devessem fazer em nome da transparência e da moralização da política autárquica. Não estão para isso, como de resto sucede com muita gente que agora se mostra indignada com a questão de Felgueiras. Como costuma dizer-se, cadê os outros?


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