Crónica de uma demissão anunciada

Carlos Gonçalves
Creio que o escritor e «Nobel» colombiano Gabriel Garcia Márquez perdoará este plágio da novela da morte iminente de Santiago Nasar, sabida de quase todos e desejada por muitos.
Estamos, é claro, a falar da demissão ainda adiada do ministro PPortas, mas cuja iminência e consequências enchem páginas de especulação e «sondagens» nos media.
Desde logo, vale recordar que, do nosso ponto de vista, face ao que se sabe do «caso Moderna», sem que estejam esclarecidas na Justiça nem no plano político as suas responsabilidades, PPortas devia desde há muito estar demitido, por elementar imperativo de ética democrática.
A questão da demissão ganhou agora mais visibilidade porque implodiu o «pacto de silêncio» dos protagonistas da associacão criminosa e a defesa de JBGonçalves deixou de visar a inocentação de PPortas.
Tal qual estão as coisas, não parece possível que PPortas impeça o Tribunal, um destes dias, de o convocar para esclarecer os depoímentos anteriores, contraditados pela investigação da PJ e pelas declarações de JBGonçalves, sendo os passos seguintes a acareação e a acusação de perjúrio.
Pelo que está dito, não é sustentável para o Governo manter PPortas como ministro nessa situação. Já para não falar da hipótese, que já pareceu mais remota, de acusação por partcipação criminosa em negócio, ou associação criminosa.
Por isso, são evidentes as movimentações dos barões do PSD, forjando cenários para a saída de PPortas e a «continuidade da coligação», e é inevitável que DBarroso prepare a remodelação do seu ministro, para a consumar ao menos um dia antes de a isso ser obrigado pela Justiça.
Também por isso o PS dramatiza mais o logro do «dote» no casamento com o PSD na «reforma do sistema político», para não ser apanhado «in love» na eventual crise da remodelação.
E até no PP os candidatos à sucessão se vão perfilando.
Só PPortas e os mais chegados dão tudo na fuga para a frente. Nem hesitam na chantagem ao PS, nos negócios militares, e às «isaltinações» do PSD, via «Independente». Carreiam lucros e apoios para os interesses dos USA e abocanham postos chave no aparelho de Estado para a extrema direita, tudo à mistura com o bodo das condecorações.
Fica apenas por perceber se, tal como na novela de Garcia Márquez, PPortas não vê os presságios da sua demissão anunciada, ou se já concluíu da sua iminência e procura apenas «saír por cima».
Se funcionar a Justiça e a demissão fôr hoje, será a altura certa.


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