Bola, claques e mundo
Aquela emissão de «Hora Extra», na SIC e na SIC-Notícias, foi consagrada às claques. Às claques dos clubes desportivos, sobretudo dos maiores, embora também já as haja dos que não são assim tão grandes. E bem se sabe que são de clubes desportivos mas que só existem pelo futebol, ainda que com eventual escala por outra modalidade. Aliás, se não fosse o futebol não teria havido aquela emissão de «Hora Extra», pois a notoriedade das tais claques decorre do que fazem por causa do futebol, durante os jogos de futebol, em torno do futebol, acontecendo que fazem pouco que seja bonito e fazem muito que é feio.
A emissão foi feita a partir do estúdio da SIC com entrevistas conduzidas por Conceição Lopes complementadas pelo visionamento de excertos de algumas reportagens que, entre muitas outras possíveis, documentavam o primarismo dos comportamentos das claques. Note-se, porém, que a culpa não é dos rapazes que as integram: é dos «outros», nestes se incluindo até com certo destaque as forças policiais encarregadas da segurança nos estádios e seus arredores. Infelizmente, porém, elementos de algumas claques, suspeito de que praticamente todas elas, portam-se como bichos enraivecidos, com perdão para os bichos, mesmo quando a polícia não está por perto. Dir-se-á que isso só acontece com grupos minoritários, e acredito que seja verdade pelo menos às vezes. Por exemplo: quando um foguete disparado mata um adepto adversário, só por loucura se pode sustentar que se trata de um crime colectivo. Mas dificilmente se pode sonhar que qualquer claque seja uma organização votada à prática do bem e à erradicação da violência dos estádios. O que as claques parecem ter, pelo menos a julgar pelo que se lhes ouve quando falam na televisão, é um irresistível pendor artístico: no «Hora Extra», por diversas vezes se referiram as «coreografias» que ensaiam aturadamente. Contudo, nenhum dos responsáveis entrevistados disse que o encanto visual gerado pelas coreografias estimula mais os jogadores em campo que uns valentes palavrões cantados em coro e dedicados às famílias dos adversários ou do árbitro. As coisas são como são, e em matéria de futebol, a alta competição parece obrigar ao insulto, à obscenidade, ao incitamente explícito ou tácito
ao ódio.
Coerência interna
Entenda-se: o que está escrito até aqui não implica a menor rejeição do futebol, jogo/espectáculo de que gosto muito, mas apenas das claques de rosto péssimo e comportamentos feios, não das claques tal como deviam ser e não são. Porém, convém dizer o que parece o mais importante: que isto das claques, dos distúrbios, das agressões, verdadeira cultura de duplo fio fanatismo/ódio, não é fenómeno que se esgote no minimundo dos futebóis, que nele tenha nascido como erva que ninguém regou ou como subproduto inevitável. Não serei o primeiro, muito longe disso, a vir lembrar que esta tristíssima coisa das claques que surgem como expressão supostamente simpática, pelo menos aceite como tolerável, de uma sociedade toda voltada para a agressividade como seu primeiro mandamento, tem raízes, significados, efeitos e riscos. Talvez já tenha passado o tempo em que a assumida presença de grupos neonazis ou similares entre as claques, quando não liderando-as, era fenómeno corrente, mas só por ingenuidade exagerada podemos acreditar que apenas por coincidência é que eles, os neonazis, estavam lá, e que as práticas das claques deixaram de ser em larga medida coincidentes com os clássicos métodos das mais características extremas-direitas.
O que as faz agitar-se, berrar, escavacar, não tem nada a ver com desporto em geral e com futebol em particular, mas tem tudo a ver com a violência e o seu quase ritual culto. Quem supor que isto acontece por acaso merece ir direitinho para o céu, não o dos santos mas o dos parvalhões.
E, uma vez aqui chegados, talvez valha a pena perguntarmo-nos se será por mera coincidência que o «boom» da violência nos futebóis e a multiplicação de claques que de facto nela se especializam, quer em versão «soft» quer em versão «hard», ocorre no tempo em que a hegemonia do hipercapitalismo se afirma nos quatro cantos do mundo e o neoliberalismo sem limites para a agressividade se pavoneia como verdade definitiva e absoluta. Talvez entre a brutalidade nas bancadas, a brutalidade nos relvados, a brutalidade nos mercados (incluindo o laboral) e a brutalidade das bombas de fragmentação haja um vínculo íntimo e uma grande coerência interna. Enquanto, naturalmente, continuamos a gostar de futebol, como é nosso direito.
A emissão foi feita a partir do estúdio da SIC com entrevistas conduzidas por Conceição Lopes complementadas pelo visionamento de excertos de algumas reportagens que, entre muitas outras possíveis, documentavam o primarismo dos comportamentos das claques. Note-se, porém, que a culpa não é dos rapazes que as integram: é dos «outros», nestes se incluindo até com certo destaque as forças policiais encarregadas da segurança nos estádios e seus arredores. Infelizmente, porém, elementos de algumas claques, suspeito de que praticamente todas elas, portam-se como bichos enraivecidos, com perdão para os bichos, mesmo quando a polícia não está por perto. Dir-se-á que isso só acontece com grupos minoritários, e acredito que seja verdade pelo menos às vezes. Por exemplo: quando um foguete disparado mata um adepto adversário, só por loucura se pode sustentar que se trata de um crime colectivo. Mas dificilmente se pode sonhar que qualquer claque seja uma organização votada à prática do bem e à erradicação da violência dos estádios. O que as claques parecem ter, pelo menos a julgar pelo que se lhes ouve quando falam na televisão, é um irresistível pendor artístico: no «Hora Extra», por diversas vezes se referiram as «coreografias» que ensaiam aturadamente. Contudo, nenhum dos responsáveis entrevistados disse que o encanto visual gerado pelas coreografias estimula mais os jogadores em campo que uns valentes palavrões cantados em coro e dedicados às famílias dos adversários ou do árbitro. As coisas são como são, e em matéria de futebol, a alta competição parece obrigar ao insulto, à obscenidade, ao incitamente explícito ou tácito
ao ódio.
Coerência interna
Entenda-se: o que está escrito até aqui não implica a menor rejeição do futebol, jogo/espectáculo de que gosto muito, mas apenas das claques de rosto péssimo e comportamentos feios, não das claques tal como deviam ser e não são. Porém, convém dizer o que parece o mais importante: que isto das claques, dos distúrbios, das agressões, verdadeira cultura de duplo fio fanatismo/ódio, não é fenómeno que se esgote no minimundo dos futebóis, que nele tenha nascido como erva que ninguém regou ou como subproduto inevitável. Não serei o primeiro, muito longe disso, a vir lembrar que esta tristíssima coisa das claques que surgem como expressão supostamente simpática, pelo menos aceite como tolerável, de uma sociedade toda voltada para a agressividade como seu primeiro mandamento, tem raízes, significados, efeitos e riscos. Talvez já tenha passado o tempo em que a assumida presença de grupos neonazis ou similares entre as claques, quando não liderando-as, era fenómeno corrente, mas só por ingenuidade exagerada podemos acreditar que apenas por coincidência é que eles, os neonazis, estavam lá, e que as práticas das claques deixaram de ser em larga medida coincidentes com os clássicos métodos das mais características extremas-direitas.
O que as faz agitar-se, berrar, escavacar, não tem nada a ver com desporto em geral e com futebol em particular, mas tem tudo a ver com a violência e o seu quase ritual culto. Quem supor que isto acontece por acaso merece ir direitinho para o céu, não o dos santos mas o dos parvalhões.
E, uma vez aqui chegados, talvez valha a pena perguntarmo-nos se será por mera coincidência que o «boom» da violência nos futebóis e a multiplicação de claques que de facto nela se especializam, quer em versão «soft» quer em versão «hard», ocorre no tempo em que a hegemonia do hipercapitalismo se afirma nos quatro cantos do mundo e o neoliberalismo sem limites para a agressividade se pavoneia como verdade definitiva e absoluta. Talvez entre a brutalidade nas bancadas, a brutalidade nos relvados, a brutalidade nos mercados (incluindo o laboral) e a brutalidade das bombas de fragmentação haja um vínculo íntimo e uma grande coerência interna. Enquanto, naturalmente, continuamos a gostar de futebol, como é nosso direito.