Recordando as lutas operárias às portas de Abril

Volvidos 29 anos sobre a Revolução de Abril, a comemoração de tão importante facto histórico vai mergulhando na penumbra da memória de muitos, ou é acontecimento de contornos mal definidos para um grande número de jovens «instruídos» por um sistema educativo onde o 25 de Abril é, apenas, mais um feriado.
Com a recuperação das forças conservadoras, a evocação da Revolução dos Cravos foi ganhando a categoria de efeméride de almanaque, procurando reduzir-se a uma cerimónia institucional politicamente correcta, com grande número de deputados de aspecto entediado, regurgitando convenientes hosanas à sua liberdade e à sua democracia. Mas..., a festa nas ruas é outra, é a povo que teima em vitoriá-lo, que insiste na transmissão do seu significado às novas gerações, em suma, é a festa das massas trabalhadoras, daqueles que mais contribuíram para o triunfo do movimento dos Capitães de Abril.
Hoje, a classe dominante cultiva o necessário silêncio ou promove debates académicos sobre a virtual evolução do antigo regime fascista para a democracia (sem revolução). O processo que antecede Abril é confinado a uma crise político-militar: às prisões de alguns oficiais por delito de «reunião ilegal»; à revolta do Regimento das Caldas da Rainha e à destituição dos generais Costa Gomes e António Spínola dos cargos de Chefe e Vice-Chefe do Estado Maior das Forças Armadas. E, sobre o contributo fundamental da luta dos trabalhadoras e da luta dos povos colonizados contra o regime fascista, não há mestrados, nem doutoramentos, porque a arraia-miúda não tem lugar na historiografia deles.
Por tal motivo, e para que a memória não esqueça, julgamos oportuno recuperar alguns dados sobre o poderoso movimento nacional de massas que ameaçava o marcelismo, em Março-Abril de 1974, exigindo melhores condições de trabalho e aumento de salários:
Greves de trabalhadores - Sital (Ovar); Cinorte (Souselas); Empresa Eduardo Jorge (Queluz); Empresa José Bento & Filhos (Cascais); Oficinas Fonsecas, Adega Cooperativa e Grémio da Lavoura (Torres Vedras); vidreiros da Marinha Grande; Fábrica Babcock e Wilcox (São Mamede de Infesta ); Fábrica de Fogões Leão (Porto); Sociedade Industrial de Concentrados (Golegã); Fábrica Efatex (Cartaxo); Empresa Transul e da Beira Rio (Setúbal); Fábrica Equimetal (Barreiro).
Concentrações de trabalhadores - 800 mulheres da Empresa Mattel Incorporated Portugal ( Caldas da Rainha ); Fábrica Hipólito (Torres Vedras); Fábrica MEC (Vila Franca de Xira); Fábrica Soda Póvoa (Póvoa de Santa Iria); Empresa Lever (Sacavém); 200 trabalhadores da Fábrica de Cervejas de Vialonga; 4000 motoristas na Voz do Operário;300 electricistas junto ao Ministério das Corporações; 500 operários têxteis do Barreiro.
Abaixo-assinados de trabalhadores - Fábrica Cergal (Belas); Tabaqueira (Albarraque); Fábrica Mavil (Vila franca de Xira); 1.900 empregados do Banco Totta & Açores (Lisboa); tractoristas de Alpiarça.
Paralisações ou redução de actividade = «fazer cera» - Siderurgia Nacional (Paio Pires), e secções de construção da Lisnave (Cova da Piedade); trabalhadores dos seguros.

Se esta vaga de fundo, se os verdadeiros agentes da mudança, continuam a desfilar na rua, não serão efémeros políticos sem história que silenciarão o 25 de Abril!





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