Etapas das sociedades?
Até há não muito tempo vingavam sobretudo as análises da evolução das sociedades apoiadas numa visão linear que começava nas sociedades agrícolas - que já teriam sido historicamente ultrapassadas pelas sociedades avançadas («ocidentais»), e a partir das quais tais análises eram elaboradas -, uma evolução que continuava pelas sociedades industrializadas - de onde as tais sociedades avançadas estariam a sair - e que ia ter, a tal evolução, às sociedades de serviços - onde estariam a chegar as mesmas sociedades avançadas. Isto sempre perspectivado em relação às estruturas socioeconómicas.
Isto é, com base numa grande dose de simplificações, pois elas são bem necessárias para poder fazer tais afirmações, e uma grande dose de boa vontade para ignorar questões que saltam facilmente aos olhos de quem estiver minimamente atento, foi possível derivar tal «lei» de progressão das sociedades. Poder-se-á afirmar que, com tais princípios de elaboração na área da ciência económico-social, mais não se estaria a fazer do que o habitual, por exemplo, na mais clássica das ciências, a Física. De facto, quando se estuda a queda dos graves não se costuma desprezar o efeito do atrito sobre os corpos? E perde com isso, a Física, o seu valor científico?
Mas não é num texto desta natureza que se vai entrar por uma discussão comparada de rigores para duas situações tão díspares. Até porque pensamos que o esforço é melhor aproveitado se nos orientarmos apenas para o caso em apreço. Com efeito - e foi onde começaram a surgir para o autor destas linhas as dificuldades de aceitação de afirmações tão genéricas -, por exemplo, ao serem introduzidos métodos industriais na agricultura, passou esta a ser indústria ou continuou a ser agricultura? Ou, por efeitos de introdução de métodos industriais na área dos serviços, passaram estes a ser indústria ou continuaram a ser serviços?
Mas essa dos métodos industriais é muito vaga, meu amigo, nem sequer explicaste em que consistem. E, em consequência, insinuaste o amalgamar dos diversos sectores, de tudo. E assim não se consegue é distinguir nada, conceptualizar com o objectivo de compreender as mudanças. Pois bem, continua a ser verdade que na agricultura, e na pecuária, os bens são seres que se fazem, produzem, a si próprios, enquanto na indústria são os trabalhadores que fabricam os bens a partir de materiais inanimados. Já os serviços são qualquer coisa de «imaterial», qualquer coisa que umas pessoas fazem a outras, produzem para a usufruição de terceiros.
Ai, ai onde já vai isso! Não é apenas pela natureza dos seus produtos que os três sectores devem ser distinguidos. Ou - … ‘tá bem, vamos a isso, façamos-te a vontade -, a ser deste modo feita a distinção dos sectores produtivos, isto é, através da natureza dos seus produtos, podemos ainda introduzir um quarto sector, como já tem sido proposto sobretudo pelas gentes do quarto poder, o sector da informação. Neste serão então incluídos produtos de outra natureza - produtos «feitos» com informação. E com base nesta classificação é fácil concluir que já é a própria sociedade de serviços que está a ser ultrapassada pela sociedade da informação.
No entanto, este é um caminho que, entre outras coisas - e tal deve bem ser notado -, (I) cuida pouco de pensar a comunalidade do estatuto dos trabalhadores dos diversos sectores enquanto, todos eles, assalariados, (II) não atenta com clareza no factor de predominância de trabalho manual ou trabalho intelectual, (III) não considera suficientemente o facto de as tecnologias da comunicação e informação serem hoje parte integrante, e crescente, dos quatro sectores de produção referidos. Mas é esta uma forma de chegar ao conceito de sociedade da informação de que tanto, umas vezes a torto e outras a direito, se vai falando.
E, se nos ativermos nas nossas análises a um sector da informação distinguível dos outros porque nele a matéria-prima dos seu produtos é a informação, facilmente nos limitamos à área dos meios de comunicação e, em particular, dos meios de comunicação social, dos media, como soe melhor dizer-se. Mas a verdade é que todo o movimento de automatização e automação dos processos de produção começou na área da produção fabril, na indústria, com o seu cortejo de redução de força de trabalho «manual». E, neste processo, que se estendeu aos outros sectores, as tecnologias da informação têm desempenhado um papel determinante.
Por isso, é contestável a base científica de tais leis de evolução socioeconómicas, incluindo os correspondentes conceitos dos diversos tipos de sociedades. Mas afirmamo-lo sem, contudo, negar algum papel analítico positivo a tal teorização…