As multinacionais tomaram conta do governo dos EUA

Petróleo e armamento dominam administração Bush

A pretensa «guerra de libertação» do Iraque é uma das mais sinistras tramas do imperialismo. O que está de facto em jogo são os interesses das multinacionais.

A Halliburton continua a pagar a Dick Cheney um milhão de dólares por ano

A galeria de retratos que a seguir publicamos, com a devida vénia ao nosso congénere Solidaire, semanário do Partido do Trabalho Belga, é bem o exemplo dos interesses instalados ao mais alto nível na administração norte-americana. Longe vão os tempos em que o capital exercia pressão sobre os políticos para impor a política que mais lhe convinha. Hoje dispensa os intermediários e mete directamente a mão na massa através de algumas das suas mais proeminentes figuras, que sem o mínimo resquício de pudor subordinam o poder político ao poder económico que representam.
Um dos exemplos mais significativo é o vice-presidente Dick Cheney, que foi durante cinco anos o administrador delegado da sociedade Halliburton, uma das maiores holdings norte-americanas. Com interesses nas mais diversas áreas, a Halliburton é particularmente activa nos sectores do petróleo e do armamento.
Segundo o jornal britânico The Guardian (12/3/03), a Halliburton continua a pagar ao seu antigo patrão qualquer coisa como um milhão de dólares por ano. Não se trata apenas de uma forma de reconhecimento pelos bons serviços de Cheney, apesar de este ter conseguido, enquanto esteve à frente da sociedade, duplicar o número de contratos conseguidos pela Halliburton junto do governo dos EUA, atingindo os 2,3 mil milhões de dólares em 2000. Na verdade, desde que assumiu o cargo de vice-presidente, Cheney não deixou de privilegiar a Halliburton: a sua filial KBR, por exemplo, foi a escolhida para construir, por 33 milhões de dólares, o campo de concentração de Guantanamo onde estão encerrados em condições inumanas e sem quaisquer direitos os presumíveis membros da Al’Qaeda.
A KBR tem também já o contrato para a recuperação dos poços de petróleo incendiados (não se sabe por quem) no Iraque, e a Halliburton foi uma das empresas convidadas a apresentar projectos para a reconstrução do Iraque. Sabendo-se que os contratos «preliminares» ascendem a mais de 900 milhões de dólares e que incluem, entre outras coisas, escolas e hospitais, não é de estranhar que as forças norte-americanas assistam impávidas e serenas à destruição e ao saque das principais cidades iraquianas, incluindo escolas e hospitais.

Os «libertadores»

George W. Bush - Presidente. Foi dirigente de diversas empresas petrolíferas, entre as quais a Harken. Toda a família Bush tem interesses no sector petrolífero, onde investiu a fortuna arranjada pelo avô do actual presidente graças aos seus negócios com os nazis.

Dick Cheney - Vice-presidente. Administrador e accionista da Halliburton (petróleo, defesa, construção); remunerações: 35,1 milhões de dólares de salários mais 1 a 5 milhões de dólares de outras retribuições. Director da Procter & Gamble (higiene); remunerações: entre 0,25 e 0,5 milhões de dólares. Director da Brown and Root Saudi (construção); remunerações: desconhecidas. Accionista da Anadarko Petroleum; remunerações: entre 0,25 e 0,5 milhões de dólares. A mulher de Cheney, Lynn Cheney, retomou a sua função de directora da Lockheed Martin (armamento); remunerações: 0,5 a 1 milhão de dólares.

Donald Rumsfeld - Ministro da Defesa. Director da Gilead Sciences (biotecnologia); remunerações: até 30 milhões de dólares em acções. Director da Asea Brown Boveri LTD (nuclear); remunerações: 148 020 dólares. Mandatário da SCF-III LP (energia); remunerações: 17 000 dólares. Director da Gulfstream Aerospace (filial da General Dynamics, armamento); remunerações: 5000 dólares.

Colin Powell - Ministro dos Negócios Estrangeiros. Accionista da General Dynamics (aeronáutica, defesa); remunerações: 1 a 5 milhões de dólares em acções. Conferencista do Carlyle Group (o banco do complexo militar-industrial dos EUA); remunerações: 100 000 dólares. Serviços para a Arthur Andersen (auditoria) e GE Power Systems (altas tecnologias); remunerações: 59 500 dólares de cada uma. Director da Gulfstream Aerospace; remunerações: 5000 dólares.

Condoleezza Rice - Conselheira do presidente para a Segurança Nacional. Membro do Conselho de Administração da Chevron (petróleo); remunerações: entre 0,25 e 0,5 milhões de dólares.

Robert Zoellick - Representante dos EUA para o Comércio Externo. Conselheiro da Enron (energia, em falência); remunerações: 50 000 dólares. Director da Said Holdings (comércio de armamento); remunerações: menos de 200 000 dólares.

Paul Wolfowitz - Ministro adjunto da Defesa. Co-presidente da «Nunn-Wolfowitz task force» para a Hughes Electronics; remunerações: 300 000 dólares. Consultor da Northrop Grumman (aeronáutica, defesa); remunerações: 6000 dólares. Consultor da BP Amoco (petróleo); remunerações: 10 000 dólares.

Dov Zakheim - Subsecretário da Defesa. Vice-presidente da Systems Planning Corporation (consultores de defesa); remunerações: 277 749 dólares. Conselheiro da Northrop Grumman (aeronáutica, defesa); remunerações: 11 000 dólares.

Douglas J. Feith - Subsecretário da Defesa. Accionista da Sunoco (petróleo); remunerações: até 650 000 dólares de acções. Presidente da Feith & Zell (gabinete de advogados tendo como clientes Loral Space and Communications Ltd e Northrop Grumman); remunerações: salário de 246 045 dólares, mais 5000 dólares por cliente.

David S. C. Chu - Subsecretário da Defesa. Vice-presidente da Rand Corp. (principal empresa de pesquisa e consultadoria do Pentágono); remunerações: 226 000 dólares.

Edward C. Aldridge Jr. - Subsecretário da Defesa. Administrador da Aerospace Corp. (pesquisa na defesa); remunerações: 470 000 dólares. Director e accionista da United Industrial Corp. (defesa); remunerações: 35 000 dólares, mais até 250 000 dólares de acções. Director da AAI (defesa); remunerações: 4000 dólares. Vice-presidente da McDonell Douglas Electronics (aeronáutica militar, comprada pela Boeing); remunerações: desconhecidas.

Richard Armitage - Ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros. Presidente da Armitage Assoc. LLP (consultores para a Raytheon, Boeing, Brown and Root...); remunerações: 246 965 dólares. Accionista da Coastal Corp. (defesa); remunerações: 0,5 a 1 milhão de dólares.


Mais artigos de: Internacional

A lei da selva

A tomada do Iraque pelas forças anglo-americanas fica marcada por dois acontecimentos: o hastear da bandeira americana nos locais mais emblemáticos do país, e o caos generalizado que sobreveio à queda do regime iraquiano. As imagens de pilhagem e destruição a que o mundo tem vindo a assistir confirmam a ideia de que o objectivo dos EUA não foi apenas o de derrubar Saddam Hussein mas também o de destruir o Iraque. Cumprido o desígnio, as atenções voltam-se para a Síria.

Os mortos dão vida à Bolsa

O jornal de economia L’Expansion (Fevereiro de 2003) analisou a influência das guerras promovidas pelos EUA sobre o Dow Jones desde que este índice bolsista foi criado, em 1896, e chegou à conclusão de que, se no dia seguinte ao desencadear dos conflitos o Dow Jones baixa em média 2%, seis meses mais tarde, pelo...

Um crime imperdoável

Os EUA permitiram o saque e destruição do Museu de Bagdad. Este atentado contra o património mundial, verdadeiro crime contra a humanidade, não foi acidental.