«Bush assassino!»

Rui Paz

Desde o sangrento golpe militar de Pinochet no Chile, em 1973, que não se verificava na Alemanha uma condenação tão veemente de um presidente da república do mundo ocidental como está a acontecer face à energia criminosa demonstrada pelo texano Bush junior.

O deputado dos Verdes, Cristian Strõbel, exige a comparência de Bush perante um tribunal internacional para responder por crimes de guerra. Na grande manifestação realizada em Düsseldorf, no último sábado, durante horas consecutivas ouviram-se condenações como «Bush Assassino de crianças!», «Bush assassino de mulheres!», entoadas por milhares de manifestantes na sua maioria jovens, revoltados contra a ameaça que a actual administração da Casa Branca representa para toda a humanidade. Nessa mesma noite, a TV iraquiana mostrava as primeiras imagens de crianças queimadas e decapitadas pelos bombardeamentos norte-americanos e ingleses.

Um mar de gente atravessou a ponte sobre o Reno e, na margem oposta à cidade, vários cordões humanos formaram a palavra «PEACE» (paz) enquanto os helicópteros da WDR munidos de câmaras transmitiam directamente via internet para todo o mundo a magnífica mensagem civilizadora.

Já desde segunda-feira da semana passada que as manifestações na Alemanha se sucedem ininterruptamente. Em Leipzig, após as preces na igreja de S. Nicolau, registou-se o maior desfile de sempre. Na terça-feira seguiram-se as manifestações com milhares de alunos e professores a percorrerem as ruas em numerosas cidades e que culminaram com 50 mil jovens a encherem, de manhã até à noite, a Alexanderplatz em Berlim.

Na sexta-feira, a lista das manifestações anunciadas para o fim-de-semana cobriam completamente a primeira página do «Neues Deutschland». Em Berlim voltaram a juntar-se 50 mil pessoas. Em Frankfurt mais de 50 mil curdos protestaram contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e pela Turquia e apelaram à libertação do dirigente curdo Oçalan. Na sua demagogia belicista os EUA afirmam querer libertar os curdos do norte do Iraque da ditadura de Saddam Hussein, onde estes já desfrutam de mais autonomia do que em qualquer outro Estado da região, nomeadamente na Turquia, onde são presos, torturados e perseguidos em nome da guerra «contra o terrorismo» pelo parceiro da NATO com o apoio do Pentágono. Só agora, ao fim de três anos, o Supremo Tribunal Europeu reconheceu que o rapto de Oçalan na sequência da recusa do asilo político ao dirigente curdo pelos governos socialistas da União Europeia, às ordens dos Estados Unidos, foi um atentado contra os direitos humanos.


Os aliados do crime


O presidente do sindicato Ver.di, Frank Bsirske, apelou ao governo de Schröder para proibir os aviões de guerra norte-americanos de sobrevoarem o espaço aéreo alemão. Aquele dirigente sindical relembrou que a Constituição alemã não permite a participação e preparação de uma guerra de agressão e que o código penal alemão prevê penas até trinta anos de prisão para os governantes que se envolvam em tais aventuras. É essa a razão porque o ministro dos Negócios Estrangeiros Fischer está tão preocupado com a entrada da Turquia na guerra. A argumentação perversa e artificial invocada pelo governo social democrata de Schröder de que os aviões-radar de espionagem, AWACS, tripulados por soldados alemães - e que neste momento já estão de facto a ajudar os agressores americanos - se destinam a proteger o aliado da NATO, a Turquia, ficaria completamente desmascarada. Dada a situação interna nos Verdes e no SPD, as consequências para a coligação governamental poderiam ser fatais. Aliás, também a França autoriza os aviões militares norte-americanos a sobrevoarem os seu espaço aéreo e presta assim uma preciosa ajuda aos agressores em nome do cumprimento dos seus deveres para com as aliados da NATO. Logo no início, quando os Estados Unidos afirmaram a sua disposição de desencadearem esta «guerra preventiva» contra o Iraque, alguns governantes e homens de Estado europeus empurrados pelo mais profundo anseio de paz dos respectivos povos e por interesses nacionais contrários aos de Washington barafustaram contra mais esta violação do direito internacional. Mas, agora que a guerra começou, e que de uma maneira ou de outra colaboram nela, engasgam-se quando interrogados sobre a sua «legitimidade» e «legalidade». Em nome do cumprimento das obrigações para com os aliados, dão todas as facilidades aos agressores, ajudam-nos com sistemas anti-míssil, aviões militares e para aliviar ainda mais o amigo americano aumentam os seus contingentes nos países e regiões limítrofes do Iraque como acaba de fazer a Alemanha enviando mais duzentos soldados para o Koweit. São os aliados do crime.



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