Mentiras de guerra
Primeiro correu que Saddam podia estar morto, ou ferido; depois, que Umm Qasr, o pequeno porto marítimo iraquiano no Golfo, havia «caído»; em seguida, que os «aliados» tinham tomado Nassariyah; mais tarde foi a vez de Basra ser dada como «embedded», expressão com que os militares e os jornalistas que os acompanham (sujeitos a censura militar) designam situações «garantidas»; veio a seguir a notícia da «descoberta» de uma fábrica de armas químicas em Na Najaf, no centro do Iraque, não confirmada pelo Pentágono, que entretanto foi avançando estar a recolher «informações».
O rol podia continuar, com o avanço dos americanos no terreno, com as cidades que podiam ocupar mas não ocupam, com os homens e os aparelhos que não perderam mas que afinal tiveram «incidentes», mas não vale a pena.
O que se passa, como escreveu recentemente no The Independent o jornalista inglês Robert Fisk, é que estamos a ser intoxicados pela desinformação veiculada pelos jornalistas «embedded», que apenas reportam o que interessa às forças invasoras.
A fazer fé no muito que se ouviu nos primeiros dias da bárbara agressão ao Iraque, não só os ataques eram todos «cirúrgicos», como as cidades caíam que nem tordos e os militares iraquianos se rendiam aos milhares, excepção feita a «bolsas de resistência» obviamente destinadas à extinção.
Em menos de uma semana verificou-se que nada disto era verdade. Mas no mesmo espaço de tempo, como também sublinha Robert Fisk no seu artigo, não se disse que os EUA estão de novo a usar munições com urânio empobrecido, tal como fizeram em 1991, responsáveis, segundo muitos especialistas, pela proliferação de casos de cancro.
Também não se diz que os EUA estão a usar armas de fragmentação; e a atingir alvos civis, desde bairros residenciais a instalações universitárias; e a privar povoações inteiras de água e luz; e a fazer mortos e feridos entre a população iraquiana.
Em claro passa igualmente o facto de a designação escolhida pelo Pentágono para o ataque a Bagdad - «choque e pavor» - ser, como recorda Fisk, uma divisa clássica das páginas da velha revista nazista Signal...
Depois da farsa da «guerra de libertação», os EUA e a Grã-Bretanha montaram, mais uma vez, a farsa da «guerra em directo». Não fora o trabalho abnegado e sério de jornalistas não «embedded» e a cobertura da agressão ao Iraque não passaria de um ruído ensurdecedor.