Eu tenho dúvidas...
Falando na passada semana no anfiteatro da Faculdade de Letras, uma ilustre personalidade da vida política portuguesa levantou a dúvida, considerando o sistema político americano uma oligarquia, pois nele quem dispõe do poder real é quem tem dinheiro. Às suas dúvidas respondeu mais tarde um ilustre psiquiatra que semanalmente se deita no divã de comentarista político, dando como prova da democracia americana o facto de a filha do Presidente poder ser presa por conduzir em estado de embriaguez. O argumento teria o mérito de me fazer sorrir, se não me levasse a recordar que o respectivo pai, esse, é autorizado a conduzir o seu país (e pretender conduzir o mundo) em visível estado de embriaguez política, ideológica e ética. Porque as dúvidas que pela minha parte tenho sobre certos conceitos de democracia não se reduzem à forma, mais ou menos democrática, como é constituído o poder político: referem-se também à política praticada e à forma como é aplicada essa política.
As minhas dúvidas mais gritantes, na actual conjuntura, vêem da pretensão dos EUA quererem impor no mundo (à bomba) os seus conceitos, os seus modelos, com as normas e condições que segundo o Presidente Bush II, correspondem aos interesses americanos.
Mas quem o mandatou para estar organizando já, com os seus generais, o regime de ocupação e o futuro governo do Iraque? E que direito democrático lhe permite anunciar, em violação dos passos dados para uma mais democrática concepção do direito internacional, alcançada após duas guerras mundiais, que ocupará o Iraque com ou sem mandato da ONU, numa «operação cirúrgica» de 72 horas, utilizando 8 vezes mais «bombas inteligentes» do que usou para destruir a Jugoslávia e assaltar o Afeganistão? Será democrático que um governo, invocando ter sido «eleito democraticamente, num regime democrático», se arrogue o direito de agir discricionariamente, com métodos totalitários, segundo o direito da força? E que pensar de dirigentes políticos que, uma vez eleitos em regimes democráticos, se permitam, como Barroso, apoiar tais atitudes, à revelia da legalidade internacional, da Constituição do seu país e do seu próprio povo?
Eu sei que é politicamente incorrecto, talvez mesmo perigoso, levantar dúvidas sobre a democracia dos Estados Unidos. Fica-se sujeito ao linchamento mediático de certos «fazedores de opinião» devidamente alinhados com o pensamento «politicamente correcto» que tem nos USA os seus laboratórios de fabrico. Mas vejo que os factos confirmam as minhas dúvidas.