Desnorte
As recentes actuações e discursos dos ministros da Agricultura e do Trabalho e Solidariedade Social dão um retrato cabal do desnorte político e insensibilidade social que caracterizam este Governo chefiado por Durão Barroso.
Começando pelo ministro da Agricultura - Sevinate Pinto de seu nome -, já entrou no anedotário nacional o descalabro da sua actuação na crise dos frangos.
Primeiro, lança o pânico no País ao anunciar que há 49 explorações avícolas (unidades de produção intensiva de frangos e perus) sob sequestro, por suspeita de estarem a dar aos bichos um produto profilático (nitrofurano) que pode causar o cancro, razão pela qual este antibiótico já fora proibido há cerca de 10 anos na União Europeia.
Perante isto, o consumo da carne de frango caiu a pique em Portugal (uma quebra de 80% nas vendas), lançando no desespero os cerca de três mil produtores avícolas nacionais, que assim foram, todos, repentinamente postos em cheque pela anunciada suspeita sobre 49 colegas empresários.
Atarantado pelos protestos dos produtores, que exigiram a imediata divulgação das 49 explorações sob suspeita e sequestro, o ministro cirandou entre Portugal e as instâncias comunitárias propalando o seu medo de que fosse decretado um embargo à carne de aviário portuguesa, foi divulgando nomes às pinguinhas – o que instalou definitivamente o pânico nos consumidores, que passaram a recusar toda a carne de aviário – gabou-se de ter sido ele próprio a denunciar o caso para provar que «levava o assunto a sério», minimizou um eventual embargo da União Europeia com o extraordinário argumento de que as exportações nacionais neste sector «são muito baixas» (o que é uma bela perspectiva para quem exporta…) e, finalmente, garantiu ao País e aos portugueses que tudo se encaminhava para a «normalidade» (não se sabe é com que fundamentos), ao mesmo tempo que, para demonstrar que «não podemos brincar com coisas sérias», admitia que há uma série de anos que os portugueses andam a consumir carne de frango com nitrofurano, especificando mesmo ao Diário de Notícias que, em todos estes anos, «foram consumidos mais de mil milhões de frangos e, muito provavelmente, sempre com nitrofuranos».
Até parece que o ministro Sevinate Pinto nos quer convencer de que não tem qualquer importância consumir esta substância, tão habituados que estamos a ela…
Apesar deste apreciável estendal de asneiras, o ministro da Agricultura acha não haver qualquer motivo para se demitir.
Paralelamente, o ministro do Trabalho e da Segurança Social, Bagão Félix, considerou, com aquele seu ar de serafim esbugalhado, que as falências são «profilácticas», no contexto da economia nacional, contribuindo para a evolução «saudável» dos factores económicos.
Embalado nas suas visões neoliberais da economia, o ministro vê – e mostra que vê – o país como um jogo de estratégia para entreter noites de salão, onde se movimentam as peças num tabuleiro ao gosto dos participantes e se desenham gigantescas vitórias e derrotas a fingir.
É claro que, nestes raciocínios profilácticos e saudáveis sobre falências, o ministro não entra em linha de conta com um pequeno detalhe.
O de que as falências significam desemprego. Que, em Portugal, já galopa assustadoramente para o meio milhão de pessoas sem trabalho.
Recorde-se que este homem, além de ministro do Trabalho, é também, expressamente, ministro da Segurança Social.