A verdade e o tempo
Seis meses bastaram para que a cortina de esforçadas e voluntariosas promessas que envolveram a Cimeira de Joanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável se desvanecesse. O combate à fome e a meta ali estabelecida, a de reduzir para metade até 2015 a população mundial subnutrida, tida como uma das bandeiras pelos que procuraram esforçadamente encontrar razões para valorizar a Cimeira, está comprometida. A recente declaração do responsável pelo Programa Alimentar das Nações Unidas de que o mundo está prestes a perder o combate que se propôs travar contra a fome, vem evidenciar a insuficiência dos programas assistenciais para dar solução a um problema que reclama uma inversão completa das políticas económicas e financeiras determinadas pelas multinacionais e as instâncias mundiais ao seu serviço. Soluções com as desenhadas em Joanesburgo no sentido de fazerem depender da iniciativa e do investimento de multinacionais as condições para um desenvolvimento sustentável não conduzirão a lado algum.
O ocorrido na Nigéria com a Agência Nacional Veterinária é em si paradigmático. Privatizada por imposição do Fundo Monetário Internacional e das obrigações por este impostas no quadro da «ajuda» àquele país, aquela Agência deixou de poder facultar gratuitamente um conjunto de serviços (vitaminas, vacinas, consultas) a uma população maioritariamente dependente da pecuária, tendo passado a exigir o pagamento a preços insuportáveis, o que está a condenar à miséria e à fome dezenas de milhares de famílias que tinham naquela actividade a sua base de sustento.
Este, como muitos outros exemplos, constitui uma esclarecedora prova de acusação a um sistema que faz da exploração humana e de recursos fonte de rendimento e a uma lógica que vê nas dificuldades e drama humano presente nos países com maiores dificuldades uma oportunidade, para em nome da ajuda e do apoio, abrir novas áreas de negócio, acumular lucros e perpetuar dependências.
Um a um, o tempo, como que a confirmar aquela citação latina de que «a verdade é filha do tempo», se encarregará de provar a fragilidade dos objectivos definidos, a inconsequência das políticas e planos de acção aprovados, a impossibilidade de procurar na lógica do sistema de dominação capitalista as respostas e as soluções que assegurem a toda a humanidade o direito a uma vida digna. Uma verdade que há-de emergir deixando para trás no tempo um pesado e inapagável rasto de sofrimento e desumanidade.