O senhor que se segue
Mais de oito mil postos de trabalho estão em risco em quatro multinacionais do sector eléctrico e electrónico que ameaçam com a deslocalização. Os sindicatos estão preocupados e exigem que o Governo enfrente as empresas. Pela sua parte, a luta é garantida.
A Alcoa, a Yazaki, a Phillips e a Lear, quatro gigantes mundiais do ramo da fabricação de material eléctrico e electrónico, ameaçam sair de Portugal, deixando atrás de si mais de oito mil trabalhadores sem emprego, acredita a Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Indústrias Eléctricas de Portugal (FSTIEP/CGTP). O leste da Europa, com mão-de-obra mais qualificada e ao mesmo tempo mais barata, faz mais o seu estilo. Com o alargamento da União Europeia aos países da Europa oriental, receberão mesmo elevados incentivos para aí se fixarem.
Também quando para cá vieram os receberam. Vários milhões foram pagos pelo governo português (ver caixa). Agora, depois de alguns anos a explorar os trabalhadores portugueses, querem sair. Consigo levarão os muitos milhões aqui produzidos. Atrás de si deixarão o desemprego, a miséria e muitos trabalhadores impossibilitados de voltar a trabalhar, doentes, com tendinite, após anos e anos a fazer os mesmos movimentos, cíclicos, violentos, para que os que agora partem pudessem ter os seus milhões. São sobretudo jovens mulheres. «Muitas não podem sequer pegar nos filhos ao colo», considera José Machado, coordenador da federação. Em declarações ao Avante!, o dirigente sindical afirmou serem mais de seis mil os trabalhadores que, em Portugal, sofrem desta doença profissional, para a qual não há legislação preventiva. «Só se faz alguma coisa quando já é tarde», lamenta.
As razões alegadas para as deslocalizações – das quais há ainda apenas fortes indícios e nenhuma confirmação oficial – são, como sempre, a pretensa insatisfação com os índices de produtividade e com o elevado custo de produção das suas unidades em Portugal. A Yazaki já ameaçou que, se não forem atingidos determinados objectivos de produção, poderá abandonar o País ainda este ano. Objectivos esses que são completamente impossíveis de atingir, afirma José Machado. «Nem que os trabalhadores fossem robôs conseguiam produzir tanto», ironiza o dirigente sindical. «Os trabalhadores já estão nos limites», lembra.
Mas esta apetência para esticar ao máximo a resistência física – e a saúde – dos trabalhadores não é exclusiva das quatro multinacionais trânsfugas. Muitas outras usam e abusam de métodos de produção incorrectos e ritmos de trabalho elevados. E em troca o que oferecem? Baixos salários, precariedade, doença. «Nada», constata José Machado.
O dirigente da FSTIEP acusa o Governo de se ajoelhar perante as multinacionais. «Muitas destas empresas actuam à margem das leis portuguesas e ninguém faz nada», acusa. Proibição de realizar plenários de trabalhadores, admissão de milhares de trabalhadores precários, horários de mais de 50 horas semanais, pressões para forçar às rescisões «amigáveis» de contrato, despedimentos individuais e colectivos são o dia-a-dia destes gigantes da electrónica.
Que fazer?
José Machado contesta a ideia de que nada há a fazer para deter as deslocalizações. Na sua opinião, é necessário alterar profundamente a lei que enquadra o contrato de investimento estrangeiro em Portugal, no sentido de disciplinar e tornar mais transparente esse investimento. «Neste momento, precisamos de investimento estrangeiro, mas não deste que temos tido», afirma o sindicalista, que considera muito positiva a iniciativa que o grupo parlamentar do PCP apresentou com o objectivo de regular os processos de deslocalização. O coordenador da federação lembra que o projecto de lei dá corpo a algumas das reivindicações dos sindicatos do sector da fabricação de material eléctrico e electrónico.
O alvo da legislação que o PCP propõe é o chamado «investimento beduíno» que, com uma concepção depredadora da actividade económica, busca sobretudo «obter o maior saque possível de recursos, apoios e mão-de-obra, obtendo num relativo curto espaço de tempo elevado volumes de lucros, após o que se deslocam para outras paragens onde repetem o mesmo comportamento, deixando atrás de si um rasto de desemprego e depressão».
O PCP considera que as deslocalizações são um problema que não se pode resolver inteiramente nos limites de um só país, cabendo às organizações internacionais – União Europeia ou OCDE – uma parte importante das medidas a tomar para impedir e penalizar estes processos. Contudo, no quadro nacional, e ao contrário do que o Governo afirma, muito é possível fazer.
No projecto de lei, o PCP propõe que «todo o investimento suportado por ajudas públicas seja obrigatoriamente sujeito a contrato escrito onde figure, nomeadamente, um nível mínimo de incorporação nacional (o que, obviamente, dificulta depois o processo de transferência para além de constituir um valor acrescentado para o País), um tempo mínimo de duração de investimento nunca inferior a cinco anos». Não pretendendo, com este projecto, afastar a instalação de novas empresas, o PCP considera mesmo que a adopção das medidas inovadoras que propõe são favoráveis ao investimento nacional e estrangeiro, ao protegê-lo da «concorrência desleal que lhe é movida pelo investimento beduíno». Uma empresa que viole o contrato estabelecido terá de reembolsar e indemnizar o Estado português e as autarquias afectadas e será impedida de, por cinco anos, apresentar candidaturas a novas ajudas públicas. Os bens dessa empresa ficarão sujeitos a arresto judicial.
José Machado não tem dúvidas que este projecto de lei, e as medidas que propõe, será chumbado pelos partidos da maioria. Pelo menos se não for suportado pela luta dos trabalhadores. Pela parte da FSTIEP, a luta está garantida. Muitos trabalhadores do sector, e destas quatro empresas, estarão presentes na Tribuna Pública da CGTP – a realizar no próximo dia 14 no largo de Camões, em Lisboa – a denunciar a sua situação e a exigir a defesa dos seus postos de trabalho e a adopção de políticas eficazes de criação de emprego. No dia 21, realizar-se-á um dia de luta dos trabalhadores. José Machado não sabe que forma assumirá, pois ainda está em discussão nas várias empresas. Mas tem uma certeza: será uma grande jornada de protesto e combate. A situação bem o exige.
Chegar, ganhar e partir
Chegados a Portugal à cerca de uma década, as quatro multinacionais do ramo da electrónica, sobretudo da fabricação de componentes para a indústria automóvel, instalaram-se no País com avultados apoios logísticos e financeiros do Estado português. Para além da cedência dos terrenos e de benefícios fiscais, estas empresas receberam, em dinheiro, vários milhares de contos. Muito deste dinheiro foi usado, nos últimos anos, no pagamento de indemnizações aos trabalhadores que rescindiram os seus contratos, acusa José Machado, coordenador da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Indústrias Eléctricas de Portugal.
A Indelma, que deu origem à Alcoa Fujikura, multinacional japonesa com uma fábrica no concelho do Seixal, com mil trabalhadores, recebeu, nos anos de 1991 e 1992, cerca de 660 mil euros do governo português. No mesmo ano de 1992, a Phillips recebeu para cima de 20 mil euros e já em 2001, a mesma Phillips amealhou do erário público 2 milhões de euros. A Yazaki Saltano recebeu, em 2001, mais de 4 milhões de euros. Apenas dois anos antes de ameaçar partir. No ano passado todas terão recebido mais, mas a FSTIEP não conseguiu reunir quaisquer dados referentes a 2002 no caso destas empresas.