Retratos de trabalho - 2

Isabel Araújo Branco

Ana Cristina Antunes, maquinista

À espera de justiça


Dividia os dias entre as margens norte e sul do Tejo. Ou melhor: ligava-as, transportando milhares de pessoas diariamente, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, umas a ler, outras a dormir, outras ainda a apreciar a vista. Ana Cristina Antunes é maquinista da Fertagus, a empresa do chamado «comboio da ponte» 25 de Abril. Em Agosto foi desvinculada do serviço por participar na greve, juntamente com 20 colegas. Grávida de seis meses, lamenta o processo sem mostrar nenhum desânimo. «Sei que a razão está do nosso lado», afirma.

Enquanto Ana Cristina conversa com o Avante!, o pequeno Daniel vai dando pontapés na barriga da mãe. A entrevista decorre num café da estação do Fogueteiro, onde os maquinistas passam as horas de serviço, impedidos de executar o seu trabalho e proibidos de usar a sua sala, onde está um frigorifico, um microondas e uma televisão comprada por eles.

«Para já temos de cumprir o horário para não perder a razão. Não desanimamos porque estamos todos juntos e isso dá-nos força. Se um desanima um bocadinho, há outro ao lado que dá força. Além disso, sabemos que estamos com a razão. É isso que nos dá força para estarmos aqui todos os dias a cumprir o horário de trabalho, às vezes a levantar-nos às quatro da manhã. As coisas não podem continuar assim», afirma a maquinista.

A administração da Fertagus faz lock-out selectivo, recusando trabalho e remuneração aos maquinistas em greve em períodos não abrangidos pelo protesto. A greve – parcial e após a sétima hora de serviço – foi a forma encontrada pelos trabalhadores para exigir a negociação de um acordo de empresa e a cessação das ilegalidades.

Ana Cristina e os colegas denunciam a existência de diversos atropelos à lei, irregularidades técnicas e anormalidades, que se prendem nomeadamente com a segurança dos maquinistas e dos passageiros. É o caso do apoio nas gares ser dado por vezes por auxiliares comerciais e empregadas de limpeza, da inexistência de dispositivos que aumentem a visibilidade nas gares e da fiabilidade do rádio solo, nomeadamente do seu sistema de alarme.

Mas os maquinistas sentem na pele outras decisões arbitrárias, como a entrada e saída ao serviço em locais sem transportes públicos, a existência de serviços que chegam a ultrapassar as 11 horas diárias e a discriminação salarial entre trabalhadores sindicalizados e não-sindicalizados. Acusam ainda a empresa de não respeitar o descanso semanal e de não cumprir o tempo máximo de serviço sem tomada de refeição, trabalhando por vezes seis horas consecutivas sem pausa.

 

«Gravidez não é doença»

 

Ana Cristina partilha destes problemas, mas acrescenta mais um à lista: em Novembro, foi dispensada sem remuneração, por estar grávida. Primeiro, a empresa recusou marcar uma consulta no médico da empresa, requerida pela médica de família. Argumento: «Gravidez não é doença». «Queríamos saber quais as possíveis consequências do meu trabalho na formação do bebé. De facto, não posso conduzir devido às altas tensões, aos campos magnéticos e às vibrações», esclarece. Já uma colega tinha abortado devido ao esforço feito no trabalho.

Depois de ver recusada a consulta, Ana Cristina fez dois pedidos por escrito, sem obter qualquer resposta. Decidiu então pedir a intervenção da Inspecção Geral do Trabalho. Uma semana depois, a consulta era marcada. Dispensada sem remuneração, só dois meses depois recebeu os documentos necessários para pedir o subsídio de risco específico.

Actualmente, Ana Cristina e os colegas sobrevivem graças a um fundo de solidariedade do sindicato, a título de empréstimo. Sem receber ordenado desde Setembro, a vida destes maquinistas mudou muito nos últimos meses. «Tenho as despesas normais para pagar. As ecografias e a roupa para grávida são muito caras. Tenho as despesas controladas para dois ordenados e assim é muito complicado», comenta.

O Tribunal do Trabalho já se pronunciou sobre o caso: quando os maquinistas não estão em greve ou quando fazem greve apenas numa parte do dia, a empresa tem de pagar as horas de trabalho. O pagamento de juros e de indemnização pelos danos depende da decisão de um julgamento marcado para 21 de Maio.

«Estamos aqui sem fazer nada, não nos pagam, fazem pressão psicológica… Chegaram a telefonar para casa dos maquinistas para não aderirem à greve. Um dia chamaram-me ao gabinete e disseram-me para não fazer greve, que os meus colegas estavam num barco furado, que eu só iria ganhar com isso e que havia prémios e promoções para quem não fizesse greve. Não me convenceram», comenta.

 

Do hotel para o comboio

 

Ana Cristina é licenciada em Gestão Hoteleira mas, em 1999, tornou-se maquinista por o salário ser superior. «Trabalhava num hotel e vi um anúncio para a Fertagus. Como gostava de conduzir e o ordenado era bem melhor, decidi arriscar e entrei.»

A sua função-base é conduzir, mas tem de resolver todos os problemas que surjam. «Não é um trabalho monótono, porque há sempre qualquer coisa», refere a responsável pelo comboio e por todos os passageiros que, à hora de ponta, chegam a ser dois mil.

«No início, as expectativas eram muitas. Durante as entrevistas e o curso, diziam-nos que tínhamos muitas hipóteses de subir. Não foi assim, mas na altura estávamos um bocado iludidos. Esperava que as pessoas fossem avaliadas pelo trabalho. Somos todos sindicalizados, excepto dois maquinistas. Nós somos de nível 1 e os que não fizeram greve já passaram para nível 3», conta Ana Cristina, acrescentando que a diferença entre os salários base é superior a 100 euros mensais.

«Agora não é da profissão que não gosto, é do resto. Acaba por chegar-se a um ponto em que satura, sempre a pressão dos chefes em cima de nós», confessa.

Até Agosto, o dia-a-dia de Ana Cristina não obedecia a uma rotina. «A nossa escala tão depressa pode ser de seis horas seguidas, como podemos trabalhar doze horas, desde que entramos até sairmos. Temos serviços de dez horas. Isso não é pago em horas extraordinárias, porque compensam com serviços de seis horas. Uma semana fazemos serviços grandes, na outra fazemos serviços mais pequenos. Ao fim das dezasseis semanas, fazem a média e dá oito horas de trabalho diário.» Organizar a vida assim é difícil. «Não sabemos quais vão ser os horários daqui a dois ou três dias. Segundo o chefe, o maquinista não tem vida social.»

Hoje, o seu quotidiano é diferente. Dispensada do serviço, Ana nem sempre se junta aos colegas no café da estação. A barriga já pesa e acaba por passar grande parte do dia em casa.

«Vamos ser todos despedidos. Para eles somos uns desordeiros. Acusaram-me de pertencer à facção terrorista do sindicato. Querem que sejamos uma cambada de cordeirinhos, sem questionar nada», considera. Apesar de tudo, Ana não pensa mudar de profissão, «mas nunca se sabe o dia de amanhã». Uma coisa é certa: actualmente, para a Ana Cristina, comboios só para visitar a família.



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