Retratos do trabalho - 1

Isabel Araújo Branco
Quem são os jovens trabalhadores portugueses? O que fazem nas suas profissões? Quais os seus direitos? Que salários recebem? Quais as consequências das condições de trabalho no seu quotidiano? O Avante! começa a publicar neste número um conjunto de artigos sobre cerca de uma dezena de jovens trabalhadores, cada um com uma profissão diferente. No final ficará um retrato do mundo laboral português, contado na primeira pessoa.

Ana Valente, operária das indústrias eléctricas  

De olhos no futuro


Ana Valente está preocupada com o seu futuro. Tem 28 anos e desde os 18 que é operária na fábrica de indústrias eléctricas Yasaki Saltano de Vila Nova de Gaia. Trabalha toda a noite em pé, das cinco da tarde à uma da manhã, com os pulsos a rodar constantemente na linha de montagem da cablagem. Mas em breve o seu quotidiano pode mudar. Primeiro foram rumores de que a empresa ia fechar, agora são as máquinas que estão a ser embaladas. Menos de metade das linhas de montagem está a funcionar. «O resto das máquinas está a ser embalado para ir para Marrocos e para a Ucrânia. Dizem que têm de diminuir custos, porque uma cablagem aqui custa 13 euros e em Marrocos custa 7», conta Ana.

Muitos funcionários já assinaram a rescisão por mútuo acordo e os subcontratados foram dispensados. «É uma coisa impressionante, todos os dias sete ou oito pessoas rescindem o contrato. Nunca ninguém viu a fábrica como está agora. Eu vou trabalhar lá até ao fim, mas as expectativas não são boas», considera.

Ana é delegada sindical e são muitos os colegas que vão ter com ela questionando-a sobre o que irá acontecer à fábrica. «Anda tudo feito barata tonta», afirma. A administração faz tudo para que os trabalhadores desistam do emprego. Uma das estratégias é trocar as suas funções. «Quem sempre esteve no corte não sabe trabalhar na linha de montagem, por causa da velocidade. É preciso andar sempre atrás da linha a correr. É para pressionar as pessoas para se irem oferecer para rescindir.»

Desde Dezembro, já saíram 700 pessoas das fábricas da Yasaki de Gaia e de Ovar. O Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Eléctricas do Norte vai pedir uma reunião com o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, mas Ana não deposita muitas esperanças no resultado dessa conversa: «Ele foi lá e diz que está tudo bem. Com parte da fábrica parada e o pessoal a sair não vejo que esteja tudo bem.»

As deslocalizações das multinacionais são o pano de fundo em que se movimentam milhares de operários portugueses, a braços com o desemprego e a falta de perspectivas de encontrar um novo posto de trabalho. «Aqui na zona, a Phillips também está a reduzir o pessoal. É todos os dias fábricas a fechar. Isto tem de dar uma volta muito grande. Só criando uma lei que obrigue as empresas a pagar grandes indemnizações se se forem embora. É a única hipótese», garante Ana Valente.

 

Nem sequer pentear…

 

As mãos são o instrumento de trabalho de Ana. Muitos são os colegas com tendinite, provocada pela repetição regular dos mesmos movimentos no serviço. «Eu já não tenho a força que tinha nos pulsos. Já não posso ter tantos pesos nas mãos», explica.

Há operários que deixam de mexer os dedos. Os braços e a coluna vertebral acabam por ser também afectados.

Ao longo dos anos, Ana assistiu a muitos casos de tendinites. «São dores horríveis. Vejo muitas pessoas a chorar. Não podem pentear o cabelo, não podem assinar um documento… A empresa tenta fugir de todas as maneiras. Esses são logo os primeiros a ser chamados para rescindir o contrato.»

Ana gosta da sua profissão. «Somos quase todos da mesma idade e damo-nos bem. Depois, há chefes bons e maus. O meu, por acaso, é porreirinho. Mas o que está acima dele já é uma peste… Temos uma linha a funcionar a 190 por cento. É impossível trabalhar assim. Quem está ali anda a correr todo o dia e chega ao fim estourado, cheio de dores. Vão para o posto médico ligar os pulsos, mas ainda é pior porque amassam os tendões. Somos muito pressionados, principalmente quando há encomendas na hora. Anteontem, por exemplo, disseram-nos que tínhamos de fazer 150 cablagens em duas horas. Isso é trabalho para quatro horas! Andam ali em cima de nós. Nessas alturas é horrível.»

Para muitos dos operários, o trabalho não acaba quando saem das instalações da Yasaki. A maior parte dos que trabalham no turno nocturno tem um part-time de quatro horas durante a manhã em restaurantes ou na promoção de produtos nos supermercados. Com salários baixos esta é a única solução encontrada.

 

A linha dos queimados

 

O trabalho na fábrica divide-se pelo corte e pelas linhas de montagem. Aqui, fazem-se primeiro os fios, depois o isolamento, os clipes e a inspecção eléctrica. Ana já trabalhou em todas as fases do processo, mas actualmente está na primeira. Efectiva na empresa, Ana é operadora especializada de primeira, mas trabalha na «linha dos queimados», sozinha com mais duas delegadas sindicais. O isolamento é uma das várias formas encontradas pela administração para pressionar os sindicalistas. «Outro delegado sindical, da manutenção, está fechado num gabinete a arranjar painéis. Às vezes as linhas estão paradas porque falta pessoal para tratar dos painéis e ele não pode sair de lá», conta Ana.

Os operários da Yasaki de Gaia aderiram à greve geral. Tradicionalmente, esta é uma fábrica em que as adesões aos protestos sindicais são muito baixos. Por isso, Ana e os restantes delegados ficaram satisfeitos com os resultados obtidos no dia 10 de Dezembro. Quarenta por cento dos trabalhadores do turno diurno e 35 por cento do turno nocturno aderiu. «Andámos duas semanas antes da greve geral a falar com as pessoas nas mesas de lanche, nas salas de fumo, na cafetaria e nos corredores, todos os dias, à hora do almoço e à hora do jantar. E deu resultado. Não foi o que queríamos, mas…»

Não é fácil desenvolver actividades sindicais na Yasaki, mas nem por isso os representantes dos trabalhadores esmorecem. «Antes de um dos últimos plenários, o presidente andou a dar meetings em todas as linhas, a dizer para não virmos ao plenário porque dava uma má imagem à empresa, que os clientes podiam não achar bem e ir para a concorrência, que ainda fechávamos a empresa… Assim desmobilizou muita gente», recorda.

Também a distribuição de folhetos é difícil. «Quando são documentos de que a administração não gosta, querem pôr-nos de lá para fora. Queriam ter o documento antes de o distribuir-mos. Querem fazer censura», acusa.

Ana está a fazer obras em casa. Conta ter pronto nos próximos meses um novo quarto para receber o filho que gostaria de ter em 2004. Mas, «se a fábrica fechar, fica um bocado complicado». Se Ana ficar desempregada, a família perde mais de metade do rendimento. Os seus planos terão de ser adiados?



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