Retratos do trabalho - 1
Ana Valente, operária das indústrias eléctricas
De olhos no futuro
Ana Valente está preocupada com o seu futuro. Tem 28 anos e desde os 18 que é operária na fábrica de indústrias eléctricas Yasaki Saltano de Vila Nova de Gaia. Trabalha toda a noite em pé, das cinco da tarde à uma da manhã, com os pulsos a rodar constantemente na linha de montagem da cablagem. Mas em breve o seu quotidiano pode mudar. Primeiro foram rumores de que a empresa ia fechar, agora são as máquinas que estão a ser embaladas. Menos de metade das linhas de montagem está a funcionar. «O resto das máquinas está a ser embalado para ir para Marrocos e para a Ucrânia. Dizem que têm de diminuir custos, porque uma cablagem aqui custa 13 euros e em Marrocos custa 7», conta Ana.
Muitos funcionários já assinaram a rescisão por mútuo acordo e os subcontratados foram dispensados. «É uma coisa impressionante, todos os dias sete ou oito pessoas rescindem o contrato. Nunca ninguém viu a fábrica como está agora. Eu vou trabalhar lá até ao fim, mas as expectativas não são boas», considera.
Ana é delegada sindical e são muitos os colegas que vão ter com ela questionando-a sobre o que irá acontecer à fábrica. «Anda tudo feito barata tonta», afirma. A administração faz tudo para que os trabalhadores desistam do emprego. Uma das estratégias é trocar as suas funções. «Quem sempre esteve no corte não sabe trabalhar na linha de montagem, por causa da velocidade. É preciso andar sempre atrás da linha a correr. É para pressionar as pessoas para se irem oferecer para rescindir.»
Desde Dezembro, já saíram 700 pessoas das fábricas da Yasaki de Gaia e de Ovar. O Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Eléctricas do Norte vai pedir uma reunião com o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, mas Ana não deposita muitas esperanças no resultado dessa conversa: «Ele foi lá e diz que está tudo bem. Com parte da fábrica parada e o pessoal a sair não vejo que esteja tudo bem.»
As deslocalizações das multinacionais são o pano de fundo em que se movimentam milhares de operários portugueses, a braços com o desemprego e a falta de perspectivas de encontrar um novo posto de trabalho. «Aqui na zona, a Phillips também está a reduzir o pessoal. É todos os dias fábricas a fechar. Isto tem de dar uma volta muito grande. Só criando uma lei que obrigue as empresas a pagar grandes indemnizações se se forem embora. É a única hipótese», garante Ana Valente.
Nem sequer pentear…
As mãos são o instrumento de trabalho de Ana. Muitos são os colegas com tendinite, provocada pela repetição regular dos mesmos movimentos no serviço. «Eu já não tenho a força que tinha nos pulsos. Já não posso ter tantos pesos nas mãos», explica.
Há operários que deixam de mexer os dedos. Os braços e a coluna vertebral acabam por ser também afectados.
Ao longo dos anos, Ana assistiu a muitos casos de tendinites. «São dores horríveis. Vejo muitas pessoas a chorar. Não podem pentear o cabelo, não podem assinar um documento… A empresa tenta fugir de todas as maneiras. Esses são logo os primeiros a ser chamados para rescindir o contrato.»
Ana gosta da sua profissão. «Somos quase todos da mesma idade e damo-nos bem. Depois, há chefes bons e maus. O meu, por acaso, é porreirinho. Mas o que está acima dele já é uma peste… Temos uma linha a funcionar a 190 por cento. É impossível trabalhar assim. Quem está ali anda a correr todo o dia e chega ao fim estourado, cheio de dores. Vão para o posto médico ligar os pulsos, mas ainda é pior porque amassam os tendões. Somos muito pressionados, principalmente quando há encomendas na hora. Anteontem, por exemplo, disseram-nos que tínhamos de fazer 150 cablagens em duas horas. Isso é trabalho para quatro horas! Andam ali em cima de nós. Nessas alturas é horrível.»
Para muitos dos operários, o trabalho não acaba quando saem das instalações da Yasaki. A maior parte dos que trabalham no turno nocturno tem um part-time de quatro horas durante a manhã em restaurantes ou na promoção de produtos nos supermercados. Com salários baixos esta é a única solução encontrada.
A linha dos queimados
O trabalho na fábrica divide-se pelo corte e pelas linhas de montagem. Aqui, fazem-se primeiro os fios, depois o isolamento, os clipes e a inspecção eléctrica. Ana já trabalhou em todas as fases do processo, mas actualmente está na primeira. Efectiva na empresa, Ana é operadora especializada de primeira, mas trabalha na «linha dos queimados», sozinha com mais duas delegadas sindicais. O isolamento é uma das várias formas encontradas pela administração para pressionar os sindicalistas. «Outro delegado sindical, da manutenção, está fechado num gabinete a arranjar painéis. Às vezes as linhas estão paradas porque falta pessoal para tratar dos painéis e ele não pode sair de lá», conta Ana.
Os operários da Yasaki de Gaia aderiram à greve geral. Tradicionalmente, esta é uma fábrica em que as adesões aos protestos sindicais são muito baixos. Por isso, Ana e os restantes delegados ficaram satisfeitos com os resultados obtidos no dia 10 de Dezembro. Quarenta por cento dos trabalhadores do turno diurno e 35 por cento do turno nocturno aderiu. «Andámos duas semanas antes da greve geral a falar com as pessoas nas mesas de lanche, nas salas de fumo, na cafetaria e nos corredores, todos os dias, à hora do almoço e à hora do jantar. E deu resultado. Não foi o que queríamos, mas…»
Não é fácil desenvolver actividades sindicais na Yasaki, mas nem por isso os representantes dos trabalhadores esmorecem. «Antes de um dos últimos plenários, o presidente andou a dar meetings em todas as linhas, a dizer para não virmos ao plenário porque dava uma má imagem à empresa, que os clientes podiam não achar bem e ir para a concorrência, que ainda fechávamos a empresa… Assim desmobilizou muita gente», recorda.
Também a distribuição de folhetos é difícil. «Quando são documentos de que a administração não gosta, querem pôr-nos de lá para fora. Queriam ter o documento antes de o distribuir-mos. Querem fazer censura», acusa.
Ana está a fazer obras em casa. Conta ter pronto nos próximos meses um novo quarto para receber o filho que gostaria de ter em 2004. Mas, «se a fábrica fechar, fica um bocado complicado». Se Ana ficar desempregada, a família perde mais de metade do rendimento. Os seus planos terão de ser adiados?