Esoterismos?
Em termos de luta política, começa a colocar-se a questão do que se deve, hoje, pôr em causa: a política deste Governo ou este Governo.
Ou seja: prosseguindo a política dos governos que o antecederam, acelerando-a e dando-lhe uma inequívoca característica de classe que outros escamoteavam, a política deste Governo já foi tão evidentemente malévola para os trabalhadores e para as populações, e tão sofrida por eles que será acolhida como justa – ou, pelo menos, compreensível – a luta pelo derrube do governo, no quadro constitucional em que vivemos?
Esta questão é relevante, mas traz uma outra que muito preocupa.
O que talvez mais possa pôr em causa, ou até levar à queda do Governo, deste Governo, não será a sua política contra os trabalhadores e as populações, não será tanto o Código Laboral, nem a empresarialização da saúde, nem a degradação da educação, nem o negócio das portagens para cumprir objectivos orçamentais, nem a subida dos preços, não será o contínuo ataque aos direitos dos trabalhadores e das populações, não serão as esclarecedoras opções perante a paz e a guerra e os aliados que escolhe, não será a orientação da política e/ou o errado das políticas.
O que talvez mais depressa poderá pôr em causa este Governo é o que é mais mediático, é o que tem a ver com casos como o da Universidade Moderna, como o da descoberta da rede da pedofilia e eventuais responsabilidades individuais ainda mais chocantes do que as que já se conhecem e do que as que se adivinham, serão os escândalos da epiderme social.
Não que se desvalorizem, por epidérmicos se lhes chamar, esses males sociais, pois as doenças «da pele» podem em si mesmas ser muito graves, independentemente da gravidade de outras doenças menos visíveis que lhes possam estar na origem e mais profundas, mais da derme serem.
O que nos deve preocupar é que, a ser assim, a ser o Governo (este ou qualquer governo) atacável, ou até derrubável, por razões destas, poderem vir outros governos, com a pele limpa de tais maleitas ou pouco mais tendo que algumas ligeiras borbulhagens ou leves eczemas, e sem problemas de maior – pelo menos nos seus inícios – manterem, continuarem e reforçarem a política anti-social, ou as políticas contra os trabalhadores, contra as populações.
É por isso que, mesmo quando já parece estar-se em condições de atacar o Governo que democraticamente ocupa o poder executivo porque para tal foi eleito, nas condições da democracia que temos, sem que tal ataque, ou até a reivindicação do seu derrube, sejam tomados como anti-democráticos tal a dimensão e o reconhecimento da perversidade da sua política, é esta, a política que tal governo prossegue, que deve estar na mira e nas justificações dos ataques que ao governo se façam.
Até para que essa luta releve o que é mais importante na acção política: o carácter pedagógico, isto é, o contributo para a tomada de consciência, por parte dos trabalhadores, por parte das populações, do que verdadeiramente está em causa, do que verdadeiramente tem a ver com o que é essencial nas suas vidas, com a sua condição de seres humanos explorados e manipulados por um sistema de relações sociais desumanas.