Não contem com eles
A nuvem que por breve período ensombrou a excelente coabitação entre Jorge Sampaio e Durão Barroso dissipou-se. Segundo o «Expresso» da semana passada, a questão da cedência da Base das Lajes aos EUA, em caso de ataque ao Iraque, foi sanada com um acordo de cavalheiros, segundo o qual o Presidente não se opõe desde que fique claro que a decisão foi do Governo.
Brilhante. Com este «não fui eu», Sampaio, que diz continuar a discordar de uma intervenção norte-americana sem o apoio das Nações Unidas, fica de consciência descansada, mesmo que o apoio da ONU não se verifique e se o ataque ao Iraque acontecer, com escala por Portugal.
O Presidente, à laia de justificação deste «lavar de mãos como Pilatos», fez saber que «cada um fará o seu melhor para que a unidade de Estado não esteja em causa, sem prejuízo das posições de cada um». Para que servirão as posições inconsequentes foi coisa que não explicou, mas se calhar também não é preciso. Os portugueses entendem cada vez melhor o que é que podem esperar de Belém.
Em sintonia com Jorge Sampaio está o secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, que ainda esta semana veio dizer que um eventual apoio do seu partido ao protesto de dia 15 contra a guerra dependerá «daquilo que se quiser que a manifestação seja», deixando no ar a suspeita de que esta pode ser uma iniciativa «complacente com Saddam Hussein».
«Não contem connosco para defender o Conselho de Segurança e ao mesmo tempo estar contra o Conselho de Segurança» se este apoiar uma intervenção no Iraque, disse FR, que de dia para dia parece muito complacente com esta e outras guerras.
A pergunta que se coloca, tendo em conta experiências passadas e presentes - como a luta contra o pacote laboral, só para citar um exemplo -, é a de saber para que é que se pode contar com o PS, mas isso são outras histórias.
Voltando ao tema da oposição à guerra, vale a pena registar que também o cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarco, diz compreender que «a lógica das alianças tem um preço», sobretudo no caso de «países mais pequenos, como Portugal», pelo que entende - e não critica - «a lealdade» expressa por Durão a Bush. Ao que apurou o «Expresso», a «lealdade» poderá ter sido trocada pela oferta de meios militares a Portugal, o que torna ainda mais vergonhosa a posição do governo português.
De Belém a São Bento, do Largo do Rato à Sé, a conclusão é óbvia: não contem com eles, contém connosco.