Desenvolvimentos

Henrique Custódio

Vários e inesperados desenvolvimentos vieram colocar a administração norte-americana de George W. Bush numa situação delicada, apesar do estilo de terraplanagem com que a sua política se tornou famosa por esse mundo.

Os factos mais relevantes que estão sobre a mesa – algo inesperadamente, repita-se – são, por um lado, a recusa da França, Alemanha e Bélgica em consentir que a NATO alinhe na pretensão dos EUA em «proteger» a Turquia de um futuro e hipotético ataque retaliatório do Iraque e, por outro, a afirmada oposição da França, Alemanha e Rússia (a que já se juntou a China) em dar luz verde a um ataque imediato ao Iraque, propondo em alternativa o reforço das inspecções da ONU e, até, o envio de forças das Nações Unidas para vigiar o regime de Saddam Hussein.

Estes acontecimentos centrais juntam-se a outros igualmente confluentes na oposição frontal ao objectivo dos EUA em desencadear uma guerra contra o Iraque, como sejam os protestos generalizados e amplamente maioritários de todos os povos em todo o planeta (incluindo nos próprios EUA e no Reino Unido), ou a afirmação clara do Papa a opor-se à guerra - tão clara que agora até enviou um emissário pessoal a Bagdad para declarar explicitamente o apoio da Igreja Católica a uma solução pacífica para a crise.

Não se trata de acontecimentos insignificantes ou negligenciáveis: com eles, e de uma assentada, ficou em causa a existência da NATO na sua actual conformidade (a de mero instrumento da política externa dos EUA), foi seriamente fragilizada a pretensão dos EUA em desencadear um ataque imediato ao Iraque e esboçou-se (para já) um nítido clima de confronto de interesses entre os EUA e as potências continentais da União Europeia – a França e a Alemanha.

Não é por acaso que a reacção norte-americana desaçaimou por completo a truculência boçal que a custo tem disfarçado nas pretensas negociações com o mundo e, desatinadamente, pôs-se a insultar a França com afirmações tão imponderadas como a de a considerar, a partir de agora, uma «não aliada», ao mesmo tempo que vai ignorando a Alemanha nos insultos, numa provável (e quase infantil) tentativa de a «cativar» para a causa da guerra, esperando que ela ainda se afaste deste «conluio» com a França.

O certo é que os EUA ficaram em situação bastante mais delicada, pois viram assim inopinadamente restringida a sua margem de manobra para desencadear de imediato a guerra sobre o Iraque.

É claro que os EUA podem desencadear a guerra de qualquer maneira e a todo o momento, como aliás estão fartos de repetir, mas se o fizerem nas actuais circunstâncias, não apenas o farão isoladamente e sem a cobertura da ONU mas, sobretudo, fá-lo-ão sob a oposição expressa, em primeira linha, de países tão importantes como a França e a Alemanha e, em segunda linha, de potências tão significativas como a Rússia e a China, que igualmente já expressaram o seu apoio às teses franco-germânicas.

Obviamente, são os interesses económicos que estão a mover toda esta gente, mas a arrogância imponderada dos EUA – que supunha poder cavalgar o mundo sem entraves de maior – acabou por desembocar numa situação de pré-conflito generalizado.

Pelos vistos, os dados ainda continuam a ser lançados, mas avancem ou recuem, os EUA não apenas estão como ficarão manifestamente mais isolados.



Mais artigos de: Opinião

Paremos as guerras!

Aquilo que durante muitos anos era afirmado apenas pelas forças de esquerda mais consequentes, está hoje mais claro para milhões de seres humanos: o imperialismo norte-americano (que afinal, sempre existe...!) procura aproveitar as circunstâncias históricas criadas pela derrocada do...

Não contem com eles

A nuvem que por breve período ensombrou a excelente coabitação entre Jorge Sampaio e Durão Barroso dissipou-se. Segundo o «Expresso» da semana passada, a questão da cedência da Base das Lajes aos EUA, em caso de ataque ao Iraque, foi sanada com um acordo de...

«Descrispação» e asneira

Não sei o que pensam os línguístas do neologismo «descrispação» que há dois dias me espantou, escrito em letra de forma, para definir o estado das relações entre o Governo PSD-PP e o PS, em fase de «sossego». Mas se a palavra é...

Plágios bons, plágios maus

A Lusa descobriu e divulgou que uma crónica assinada por Clara Pinto Correia (CPC) e publicada na revista Visão, era um plágio: «96 das 106 linhas do texto» eram «rigorosamente iguais (...) frase por frase, parágrafo por parágrafo», a um texto publicado numa...