Desenvolvimentos
Vários e inesperados desenvolvimentos vieram colocar a administração norte-americana de George W. Bush numa situação delicada, apesar do estilo de terraplanagem com que a sua política se tornou famosa por esse mundo.
Os factos mais relevantes que estão sobre a mesa – algo inesperadamente, repita-se – são, por um lado, a recusa da França, Alemanha e Bélgica em consentir que a NATO alinhe na pretensão dos EUA em «proteger» a Turquia de um futuro e hipotético ataque retaliatório do Iraque e, por outro, a afirmada oposição da França, Alemanha e Rússia (a que já se juntou a China) em dar luz verde a um ataque imediato ao Iraque, propondo em alternativa o reforço das inspecções da ONU e, até, o envio de forças das Nações Unidas para vigiar o regime de Saddam Hussein.
Estes acontecimentos centrais juntam-se a outros igualmente confluentes na oposição frontal ao objectivo dos EUA em desencadear uma guerra contra o Iraque, como sejam os protestos generalizados e amplamente maioritários de todos os povos em todo o planeta (incluindo nos próprios EUA e no Reino Unido), ou a afirmação clara do Papa a opor-se à guerra - tão clara que agora até enviou um emissário pessoal a Bagdad para declarar explicitamente o apoio da Igreja Católica a uma solução pacífica para a crise.
Não se trata de acontecimentos insignificantes ou negligenciáveis: com eles, e de uma assentada, ficou em causa a existência da NATO na sua actual conformidade (a de mero instrumento da política externa dos EUA), foi seriamente fragilizada a pretensão dos EUA em desencadear um ataque imediato ao Iraque e esboçou-se (para já) um nítido clima de confronto de interesses entre os EUA e as potências continentais da União Europeia – a França e a Alemanha.
Não é por acaso que a reacção norte-americana desaçaimou por completo a truculência boçal que a custo tem disfarçado nas pretensas negociações com o mundo e, desatinadamente, pôs-se a insultar a França com afirmações tão imponderadas como a de a considerar, a partir de agora, uma «não aliada», ao mesmo tempo que vai ignorando a Alemanha nos insultos, numa provável (e quase infantil) tentativa de a «cativar» para a causa da guerra, esperando que ela ainda se afaste deste «conluio» com a França.
O certo é que os EUA ficaram em situação bastante mais delicada, pois viram assim inopinadamente restringida a sua margem de manobra para desencadear de imediato a guerra sobre o Iraque.
É claro que os EUA podem desencadear a guerra de qualquer maneira e a todo o momento, como aliás estão fartos de repetir, mas se o fizerem nas actuais circunstâncias, não apenas o farão isoladamente e sem a cobertura da ONU mas, sobretudo, fá-lo-ão sob a oposição expressa, em primeira linha, de países tão importantes como a França e a Alemanha e, em segunda linha, de potências tão significativas como a Rússia e a China, que igualmente já expressaram o seu apoio às teses franco-germânicas.
Obviamente, são os interesses económicos que estão a mover toda esta gente, mas a arrogância imponderada dos EUA – que supunha poder cavalgar o mundo sem entraves de maior – acabou por desembocar numa situação de pré-conflito generalizado.
Pelos vistos, os dados ainda continuam a ser lançados, mas avancem ou recuem, os EUA não apenas estão como ficarão manifestamente mais isolados.