«Descrispação» e asneira

Carlos Gonçalves

Não sei o que pensam os línguístas do neologismo «descrispação» que há dois dias me espantou, escrito em letra de forma, para definir o estado das relações entre o Governo PSD-PP e o PS, em fase de «sossego». Mas se a palavra é feiosa, a substância é bem pior.

Fosse pela via de Belém, ou de um qualquer poder fáctico, é uma evidência que o PS meteu na gaveta a contestação de elementos essenciais da política do Governo.

Depois dumas «dicas» anti-dogmáticas de putativa revisão do Pacto de Estabilidade «medieval», ei-lo atreladinho ao sucedâneo caseiro - o Programa de Estabilidade e Crescimento. Depois da «compreensão» com os trabalhadores, ei-lo de amarelo sujo no Pacote Laboral – carpindo lágrimas de crocodilo. Depois da retórica parlamentar, ei-lo de «nim», desertando da luta pela paz – e juntinho com o PMinistro, caluniando como «amigos de Sadam» os que combatem a agressão imperialista.

E nesta situação de pré-guerra, recessão instalada, crise social e overdose de mistificação, é o PS a trazer à agenda a (contra)«reforma do sistema político», anti-democrática, anti-comunista e anti-PCP, procurando o «prime time», mas de facto escamoteando os problemas do país e fazendo o jogo da direita. Por isso se fala de «inflexão» do PS, quando melhor seria dizer «reinflexão», que, em última análise, no essencial, há tantos anos, é sempre para a direita que o PS (re-in)flecte, flecte, insiste, insiste.

E nem se estranha que FRodrigues tenha explicado à Notícias Magazine a sua «admiração» por «algumas facetas» de DBarroso, referindo-se à sua «tenacidade e teimosia» na oposição. Assim, o líder do PS, como que preconiza a gestão duns fogachos de oposição qb, para que conste, enquanto espera, como fez este PMinistro, que o poder lhe caia no regaço, numa longínqua manhã de nevoeiro..

É a imitação de DBarroso, como fez Guterres de Cavaco no governo, dos seus truques e políticas de direita. Um péssimo sinal, porque, ao contrário do que diz FRodrigues, o Governo não deixou caír a «dramatização da herança PS» nem a «agressividade da direita», e mantém a sua arrogância. E se por acaso lhe promete algo - uma inócua forcinha a Vitorino para a NATO - é porque em troca atrela o PS a novas cedências e cumplicidades.

Bem andaria FRodrigues se abandonasse a «descrispação» e a admiração pela direita e os interesses, antes que «reconste» que «o PS só tem feito asneiras».



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