A lição do Chile

Anabela Fino

«Só morto me impedirão de cumprir o meu compromisso com o povo» – palavras de Salvador Allende que continuam a incomodar, e por isso se persiste em silenciar, 44 anos depois daquele tenebroso 11 de Setembro de 1973 que mergulhou o Chile numa longa noite fascista. Morto em La Moneda o presidente democraticamente eleito que era o símbolo do governo da Unidade Popular, num golpe militar orquestrado pelos EUA como mais tarde se viria a comprovar pelos documentos secretos entretanto desclassificados, o Chile transformou-se numa imensa vala comum onde a par dos milhares de assassinados a ditadura enterrou todos os direitos sociais, políticos e económicos duramente conquistados pelo povo ao longo de décadas. Neste terreno adubado pela mais feroz repressão germinou de novo a besta capitalista que os mil dias da Unidade Popular não logrou liquidar.

Do Chile continuam hoje a sair milhares de milhões de dólares de lucros da exploração do cobre, outra vez nas mãos de multinacionais, tal como sucede com os restantes recursos mineiros e outros bens que deviam ser comuns, das águas à floresta, das pescas à banca, da educação à saúde e à cultura, postos pelo governo de Allende ao serviço do povo e entregues à exploração capitalista pela ditadura de Pinochet, num esbulho que continua nos nossos dias, agora sob a capa da democracia burguesa apaziguada na restauração dos seus privilégios onde não cabe a aspiração de uma sociedade mais justa e igualitária.

O silenciamento deste 11 de Setembro não é fruto do acaso. É preciso fazer esquecer que as regras do jogo dito democrático só se aplicam quando o resultado serve os interesses dos que nos exploram e que a «democracia» ou serve o capital ou terá de se haver com ele. Com golpes fascistas, como no Chile, com «revoluções de veludo» por esse mundo fora, com golpes palacianos como no Brasil, com sabotagens de todo o tipo como na Venezuela, com invasões e guerras se necessário for. E ainda dizem que a História acabou!

 



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