O projecto

Henrique Custódio

O argumentário de Passos Coelho contra a actual governação virou agora para os adágios. «O Governo está a colher as tempestades dos ventos que semeou», preveniu ele, sem explicar nem ventos nem tempestades, como de costume.

Este homem, desde que foi despejado do poder, já anunciou a vinda do diabo (que, como é óbvio, não apareceu nem metaforicamente), anunciou suicídios que não existiram, prognosticou sucessivos desastres nacionais com o défice e as contas públicas, concomitantes com também sucessivos sucessos nessas áreas, até mudar a agulha, deixar de anunciar desgraças que nunca vinham e passar a reivindicar os sucessos registados, com desplante e total descaramento, numa reivindicação assente na sua conhecida asserção «...foi graças às reformas do meu Governo».

Pelos vistos, farejou o ar, foi tomado pela pulsão que o anima e voltou para a sua «zona de conforto» (matéria em que é mestre de reconhecido currículo), retomando o registo catastrofista agora embrulhado em adágios, pelo que não estamos livres de um dia destes o vermos de novo a invocar o diabo.

Notoriamente, este homem só colhe das lições da vida a rama do momento, usando-a de imediato para tapar

performativamente o que considera os buracos do quotidiano, mas a sua estrutura mantém-se igual a si mesma, hirta e inamovível, intrínsecamente reaccionária e incapaz de se dissimular.

É por isso que se mantém no seu projecto de vida – erradicar o Portugal de Abril do nosso País – e tem uma enorme dificuldade em escondê-lo.

Fala por metáforas e anexins que metem diabos e tempestades para não dizer ao que vem, mas diz, para mal dos seus pecados – di-lo nestas pulsões catastrofistas que desejam irreprimivelmente para o País todas as desgraças possíveis, para que ele consiga regressar ao poder e fazer-nos regressar, correctivamente, aos trilhos restauracionistas em que julga ter-nos encarreirado.

É este, notória e exclusivamente, o seu projecto – voltar ao poder e prosseguir a política de destruição de direitos que, como todos os «visionários do totalitarismo», ele considera a única saída ou o único caminho para o País que, por seu lado, demorará a esquecer o sinistro e constante martelar do Governo Passos/Portas na tecla «não há alternativa», que (não esqueçamos) chegou a ser assumida pelo comentarismo nacional como verdade inequívoca e indiscutível.

Há mais de ano e meio que o novo Governo está em funções, mas Passos Coelho não resistiu a regressar com o catastrofismo em novas roupagens (a dos ventos e das tempestades). E ei-lo de novo a ameaçar o País com desgraças, ansioso por elas em registo de psicose, denunciando irremediavelmente que o seu desejo de poder pessoal é, de facto, o seu único projecto para o País.

 



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