A cópia e o original

Jorge Cordeiro

Em Marinho e Pinto mora quase tudo o que caracteriza o populismo em termos de demagogia e inconsistência. Ouvindo-o, ou lendo-o, julgar-se-ia ali residir um poço de virtudes. Para quem, a cada momento, proclama querer acabar com o carreirismo na política, é curioso registar que se disponha a tudo para fazer para garantir a sua «carreira política» – desde escolher o partido que lhe dê mais jeito, impor o lugar em que concorre, ou descartar o anterior para formar um onde mande; para quem enche a boca com a propagandeada postura de respeito pelos compromissos é interessante verificar a velocidade com que se dispõe a saltar do Parlamento Europeu para a Assembleia da República e desta para Presidência da República, numa ambição de poder entre o desmedido e a insensatez; para quem se desdobra em juras sobre a ética no exercício de cargos públicos, recorde-se que aquele que verberou os salários dos deputados do Parlamento Europeu é exactamente o mesmo que declarou que com todo ele fica por ter muitas despesas e necessidades; ou ainda, para quem, dizendo-se disposto a resgatar a democracia e reduzir a abstenção (declarando que o «seu eleitorado é aquele que já não vota»), se esqueça de ter sido precisamente ele que, no passado, incentivou a abstenção.

Marinho é, politicamente falando, uma coisa a meio caminho entre uma caixa de ressonância do PS e um amplificador dos méritos da política de direita. Daí que papagueie as acusações do PS sobre as alegadas responsabilidades da inexistência de uma convergência à esquerda – segundo Pinto devido «à muralha de aço» do PCP – ou simplesmente a secundar as ideias principais que têm sustentado a política de direita. Nenhuma novidade para quem tem afirmado que «há questões em que estou mais de acordo com o PSD do que com o PS. Ideologicamente sou mais próximo do PS», ou para quem já confessou ter defendido um governo de salvação nacional. Quanto ao resto, conhece-se o posicionamento da criatura: assumido federalista, defensor do euro e da União Bancária, apoiante dos tratados europeus e fiel aliado dos que querem sufocar o País com a dívida. Perguntar-se-à, pois, por que razão precisa a direita de apoiar uma mera cópia tendo à mão o original que PS, PSD e CDS lhes faculta.




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