Donbass a ferro e fogo

Luís Carapinha

Tudo aponta que se está em presença de mais uma abominável provocação

Cidades e aldeias da bacia do Don continuam a arder, esventradas pela aviação e artilharia do Governo ucraniano levado ao poder pela mão dos EUA e UE. A última vez que tal aconteceu no Donbass foi durante a invasão e ocupação da Alemanha nazi, na II Guerra Mundial. Sete décadas volvidas da libertação do Donbass e Ucrânia do fascismo pelo exército soviético, os dados invertem-se nesta guerra criminosa massivamente silenciada pelos grandes media. Agora e depois de mais de três meses de brutal investida militar da denominada Operação Anti-Terrorista (OAT), a junta golpista instalada em Kiev já começou a cantar vitória. Os tempos mais próximos dirão se não se trata de um falso triunfalismo do poder liberal-fascista. Para já parece evidente que, contrariando os sinais de perda de iniciativa visíveis em algumas frentes da batalha, a campanha militar do governo fantoche de Porochenko ganhou novo fôlego, especialmente a partir da tragédia de 17 de Julho do avião malaio nas estepes de Donetsk (novamente um Boeing da Malaysian airlines…). A queda provocada da aeronave foi igualmente aproveitada para desferir um ataque incisivo nas frentes político-diplomática e da (des)informação.

 

Tudo aponta na história tenebrosa do voo MH17 que se está em presença de mais uma abominável provocação que mostra também até que ponto o imperialismo norte-americano e os estrategas do grande capital estão prontos a chegar – na Ucrânia e no mundo – para conservar a hegemonia planetária de um sistema em incontornável decadência.

As pressões e ameaças sobre a Rússia e, pessoalmente, o seu presidente escalaram a níveis muito perigosos. Depois do golpe de estado de Fevereiro, a Ucrânia saltou para a linha da frente da política agressiva dirigida contra a Rússia. Em Washington e nas capitais da arquitectura mundial da Tríade não se esconde o objectivo profundo de propiciar a desestabilização da Rússia, jogando com as debilidades e contradições estruturais de todo o edifício do capitalismo russo. O triunfo da Maidan de Kiev é também mais um passo decisivo rumo à Maidan russa, momento sedentamente aguardado pela quinta coluna russa e a corte de discípulos (mesmo que não assumidos) da escola de Gaidar que enxameia os corredores do poder no maior país do mundo.

 

Paralelamente à campanha militar na região mineira e densamente industrializada do Donbass, o poder da junta ilegítima acentua a repressão política e a via persecutória contra todo o pensamento opositor. O projecto-piloto neofascista de uma Ucrânia nacionalista, étnica e culturalmente purificada, dobrada à insana agenda estratégica dos EUA e entregue à jurisdição supra-nacional e tratados desiguais da UE – para júbilo dos grandes monopólios (e, claro, do punhado de oligarcas locais) –, não se coaduna nos dias que correm com a manutenção das liberdades políticas e o modelo democrático formal burguês. Por isso multiplicam-se os atropelos às liberdades fundamentais e intensifica-se a campanha para ilegalizar o PCU, acusado pelos golpistas de actividade subversiva.

A corrente anti-democrática e a guerra de agressão no Donbass (carnificina em que Kiev invoca a defesa da unidade territorial que o golpe reaccionário de Fevereiro irremediavelmente socavou) são inseparáveis da nova ofensiva social e económica que o Executivo ucraniano aplica zelosamente, sob a batuta do FMI e os «empréstimos» prometidos por Washington e Bruxelas. Assim, foi já anunciado o novo assalto privatizador que visa acabar com quase tudo o que resta nas mãos do Estado, incluindo sectores estratégicos até aqui intocáveis.

É tudo isto que se «joga» no Donbass a ferro e fogo. É vital não perder de vista a dimensão de classe que perpassa todo o desenrolar do conflito ucraniano. Dado a levar na devida consideração por todas as forças consequentes e realmente anti-fascistas, nesta larga batalha de desfecho incerto.

 



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