Comentário

Declarações, promessas e luta de classes

Maurício Miguel

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Por estes dias em que a pressão e a chantagem sobre países e povos se eleva, recordei-me de uma frase de Lénine que nos ajuda a compreender a actual situação: «Os homens sempre foram em política vítimas ingénuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprenderem a descobrir por detrás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes.

Presa na sua própria teia de contradições e perante uma crise sem fim à vista, a UE treme. Face à manobra do primeiro-ministro grego, ameaçando com um referendo, veio ao de cima a arrogância e a prepotência de quem dita leis na UE. Foram feitas declarações mais ou menos inflamadas, reuniões de Merkel e Sarkozy com Papandreu, juras de fidelidade ao Euro e à UE que levaram ao afastamento do primeiro-ministro grego. Papandreu está fora de jogo, a «oposição de direita» que na Grécia dizia estar «contra» as medidas do acordo com a troika, faz agora parte do governo de coligação com o PASOK (socialistas). Com eleições legislativas marcadas, ganham novo fôlego e nova máscara aqueles que na UE e na Grécia querem impor a barbárie contra os trabalhadores e o povo grego. Nada que surpreenda os portugueses, depois de Sócrates, temos Passos Coelho e depois do PS, temos o PSD-CDS/PP. E declarações e promessas também as temos. Quem não se lembra de Passos Coelho em campanha eleitoral dizendo nem pensar em cortes no 13.º mês e no subsídio de férias, e poucos meses depois a anunciá-los. Ou as garantias de que não seriam necessárias mais medidas do que as constantes no programa de agressão, agora dar o dito por não dito e estar já a preparar «ajustamentos».

A dita «resposta à crise» que tantas declarações motivou e tantas promessas acarreta é, na actual situação do nosso país e da UE, e no contexto de aprofundamento da crise do capitalismo, uma declaração de guerra contra a soberania nacional e contra os trabalhadores e o povo português. E escrevemos declaração de guerra pesando o que a expressão traduz. A gravidade da situação do nosso País exigia a imediata renegociação da dívida (prazos, juros e montantes), mas o Conselho Europeu limitou-se a confirmar que o país está a «avançar a bom ritmo» e que o governo deve estar pronto para tomar «medidas adicionais». Ao não fazê-lo e ao insistir no cumprimento e no aprofundamento do pacto de agressão, a UE e o governo português acentuam a via de maior dependência do país e de brutais sacrifícios para os trabalhadores e o povo português. O combate ao défice é a promessa – e apenas isso – a partir da qual se acentuarão ainda mais as diferenças entre países, se reduzirão brutalmente os custos unitários do trabalho nos países da periferia da UE, com o objectivo de acentuar a concorrência entre trabalhadores e a brutal concentração e centralização de capital. Uma promessa tanto mais falsa quanto a reboque da mesma se está a aumentar não só o défice das contas públicas mas todos os outros défices do País. O que a UE faz é dar garantias aos monopólios financeiros para a manutenção da especulação sobre as chamadas dívidas soberanas, afundando a economia real numa profunda crise e transferindo para as futuras gerações os custos. Mas as contradições intercapitalistas continuam a ser muito grandes, a profundidade da crise da UE convoca a calculismos as grandes potências. Não são de levar a sério as promessas de defesa do euro, quando se alimenta a especulação sobre a mesma e se promove a destruição dos aparelhos produtivos, o desemprego e a degradação das condições de vida, particularmente de países de economias mais frágeis como Portugal. Tanto mais que alguns senhores da UE já admitiram que países como a Grécia podem ser obrigados a sair do euro. O euro e a própria UE são instituições «velhas» e «apodrecidas» que se manterão enquanto servirem os interesses das classes dominantes: das grandes potências, dos banqueiros e especuladores, dos que hoje estão no governo e amanhã no conselho de administração de um banco ou de uma multinacional.

Termino voltando a Lénine.

E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam – e, pela sua situação social, devam – formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.»



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