• Jorge Messias

Mundo <i>à medida</i> e mundo real

«É preciso ter em vista que os homens de maus instintos são mais numerosos que os de bons instintos. Por isso se obtêm melhores resultados governando os homens pela violência e o terror do que com discussões académicas...» («Protocolos dos Sábios de Sião», capítulo Nº.1, 1897).

«O Estado deve não somente professar positivamente e favorecer o catolicismo mas, ainda, impedir o livre desenvolvimento e a difusão de outros cultos… a Igreja afirma não ser permitido aos diferentes géneros do culto de Deus terem direitos iguais aos da religião verdadeira» («Encíclica Deus Imortal, Papa Leão XIII, 1885).

«Debaixo das amplas ondas da história humana fluem ocultas correntes subterrâneas das sociedades secretas que, frequentemente, determinam das profundezas as mudanças que ocorrerão à superfície» («A verdadeira história dos Rosas-Cruzes», Edward Waite, 1977).  

Ficou recordado neste espaço de «Religiões» do Avante! que a explicação fornecida pelos metafísicos para testemunhos como os Protocolos dos Sábios de Sião é de natureza transcendente. São sempre os anjos a soprar a mensagem aos ouvidos dos eleitos.

Neste caso dos Protocolos, o documento era real e as profecias autênticas – reconheceram observadores mais objectivos. Mas tudo fora forjado há poucos anos nos gabinetes da Okrana (os serviços secretos da Rússia czarista), tendo o texto final sido depois aprovado nas sessões de um encontro à porta fechada entre sábios e peritos sionistas e maçons, em Basileia, na Suíça, em 1807. Segundo constava, nesses trabalhos à porta fechada tinham sido tomadas medidas que iriam afectar a humanidade inteira: agir para eleger entre as nações da Europa uma que fosse a mais poderosa e ditasse leis às outras; nacionalizar o ouro e as pedras preciosas; criar uma moeda europeia única e actuar de forma inteiramente original no plano da comunicação de massas e da propaganda.

As forças dominantes das monarquias aristocráticas e dos novos poderes capitalistas e industriais entraram assim de roldão nos palcos da história de uma imensa tragédia apocalíptica. Todo o continente mergulhou então numa gigantesca crise financeira e social que punha as nações a viverem à custa da exploração colonial e determinava, no refluxo, o sistemático desmembramento da economia produtiva das nações colonizadoras. Com a desaceleração da economia cresceram o desemprego e a miséria dos camponeses e dos operários. Agigantaram-se as grandes fortunas, a agiotagem, o crime organizado e a formação de novas camadas sociais constituídas à base da especulação financeira. Organizaram-se em novos moldes os centros clandestinos de decisão a que hoje chamamos confusamente, mercados, centros de reflexão, estruturas monetárias, sociedade civil, etc. Cerradas as portas ao desenvolvimento pacífico, a exclusiva «saída para a crise» passou a consistir na planificação de futuras guerras mundiais.

Por sob o mundo visível, o novo capitalismo começava a lançar a rede de malha miúda dos seus poderes actuais.

 

A atracção dos opostos

 

O novo mundo capitalista em construção parecia no entanto defrontar-se com obstáculos intransponíveis. A imobilidade das monarquias fundamentalistas chocava-se com as dinâmicas do capital. Os ódios institucionais de base religiosa ameaçavam a progressão de novos mercados. E o rápido desenvolvimento de movimentos revolucionários e marxistas constituía gravíssima ameaça aos novos mitos e aos êxitos do capital na «luta de classes» que por todo o lado se intensificava.

Na área do grande capital, os Protocolos funcionaram como uma carta de princípios e de acção dos exploradores – como um guia. Tiveram no mundo capitalista um eco semelhante ao que foi obtido, sensivelmente na mesma altura, pelo Manifesto Comunista, cujo universo eram os explorados, os escravos e os mais frágeis. Ambos os manifestos são marcos antagónicos da gigantesca luta de classes que se desenvolvia e continua a travar-se sem tréguas.

Mas continuemos a tentar descrever o que então se passou. Por exemplo, neste caso da caracterização dos Protocolos, os sionistas contra-atacaram, com o argumento de que o enredo era uma conspiração destinada a desacreditar a luta dos judeus pela criação de uma pátria.

Passaram anos, vieram os nazis, usaram os Protocolos, chacinaram milhões de judeus e tentaram conquistar o mundo inteiro. Era a prova provada de que os sionistas tinham razão. Mas a terra continuou a rodar e vê-se bem, agora, que as ambições sionistas não ficam aquém do pesadelo nazi. Porque sionista não é sinónimo de judeu e os extremos tocam-se.

Continuaremos a tentar este alerta: o nazi-fascismo afinal não morreu.



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