Urnas I

«Meia hora a mais de trabalho por dia pode ajudar a salvar da falência muitas empresas de produção de urnas funerárias», exultou para a Lusa um empresário do sector, Cândido Moreira, de Amarante, cidade onde a produção de urnas emprega «várias centenas de pessoas», segundo o mesmo empresário.

Aproveitando a maré, o cangalheiro Moreira, cuja empresa emprega 40 trabalhadores, diz que também «vou ter de despedir pessoas para salvar a empresa» e até já sabe quem vai ser dispensado: «os funcionários mais velhos».

Mas, concerteza, não de imediato: o prudente Moreira irá, decerto, esperar pela «nova legislação de despedimentos» que o Governo prepara a galope para, então sim, se desenvencilhar de uns quantos «trabalhadores mais velhos» pagando-lhes uma tuta e meia de indemnizações.

A funérea figura aproveitou para fazer o choradinho de que «a maioria das empresas do sector luta para aguentar os postos de trabalho que ainda têm», rematando com a «queixa» de que enfrentam a «insolvência de muitos clientes ou os atrasos dos pagamentos».

Que atrasos? Obviamente da Segurança Social, que comparticipa a maioria esmagadora dos funerais. E paga sempre, com atrasos que não ultrapassam, em média, os três meses. Além disso, como «a morte é certa», como diz o provérbio, a «clientela» para as funerárias é coisa que nunca falta, dando origem a um negócio florescente de 200 milhões de euros/ano, à volta do qual se degladiam empresas funerárias dos quatro pontos cardeais.

«Crise» nos funerais, senhor empresário Moreira? Vá enganar outro! E não explore tão miseravelmente quem para si trabalha...

 

Urnas II

 

Continuando no tema das urnas, assinalemos as contas já feitas pela CGTP sobre as consequências deste aumento de meia hora de trabalho/dia: constitui um aumento de duas horas e meia de trabalho por semana e por trabalhador, o que representa um corte efectivo nos salários de 6,25%!

A central sindical unitária sublinha que os horários de trabalho «são matéria que a Organização Internacional do Trabalho, ao longo da sua história, reclama que sejam negociações bilaterais entre patrões e trabalhadores» e que os estados «devem procurar dar atenção aos limites máximos dos tempos de trabalho, mas mesmo nesses casos sustentados por negociações bilaterais».

Como se vê, a luta está aberta e desagua nas ruas do País, para derrotar esta política de «destruição em massa».

 

A meio

 

Foi notícia de 1.ª página no Público: um caso de corrupção vai a julgamento... mas a investigação ficou «a meio». Literalmente.

Citemos. «O patrão do grupo HLC/Conegil começa a ser julgado na próxima quarta-feira [da presente semana] por corrupção activa e branqueamento de capitais, mas a sua empresa terá sido ainda mais favorecida na segunda fase do concurso do aterro, que não chegou a ser investigada. De fora da investigação ficou também o secretário de Estado do Ambiente na altura, José Sócrates.»

Por que é que isto já não surpreende ninguém?



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