A fome e a sede

Correia da Fonseca

Na televisão ouviu-se há dias uma voz cristã. Não me refiro aos sacerdotes que a TV traz a nossas casas durante a missa que semanalmente celebram perante as câmaras ou, menos frequentemente, no decurso de mais uma romagem a um santuário: falo de D. Januário Torgal Ferreira, bispo castrense, dito das Forças Armadas, entrevistado não apenas como figura da hierarquia da Igreja mas também como cidadão, se é que estas duas condições alguma vez podem ser desligadas uma da outra. Tal como seria esperável, D. Januário foi claro e veemente: já todos decerto sabemos que este bispo parece tomar muito a sério o que está escrito a dado passo do Evangelho segundo S.Mateus, «Seja a tua palavra Sim Sim, Não Não, tudo o que for além disto é malícia». Mas sabemos mais: sabemos que Januário Torgal Ferreira leva também muito a sério o dever cristão da fraternidade e da consequente partilha, da rejeição do farisaísmo, do respeito por todos nos mandamentos do Decálogo sem que seja esquecido o sétimo, o que proíbe o roubo. Que o proíbe sob todas as suas formas, naturalmente, incluindo as que tenham cobertura legislativa mas não legitimidade profunda. Quanto às gigantescas e sofisticadas formas de mercantilismo que transformaram sociedades ditas avançadas em montanhas de podridão, tudo sugere que este bispo se inspira, pelo menos um pouco, no exemplo de Jesus quando, indignado, expulsou do Templo os vendilhões.

 

Um respeitável precedente

 

Como acima se disse, D.Januário Torgal Ferreira foi claro e veemente, o que a jornalista entrevistadora pareceu querer aproveitar para lhe extorquir palavras que permitissem a eventual acusação de que o bispo estaria a transgredir os seus presumíveis deveres de contenção. Este aparente esforço tem um background, digamos assim: é suposto que um cristão, para mais com acrescidas responsabilidades, seja todo ele Tranquilidade e Paz para uso próprio e transmissão aos que o rodeiam. A questão, porém, é que nem sempre pode ser assim. O próprio Jesus disse um dia que não viera trazer a Paz, mas a espada, e para lá da possível ambiguidade que a frase comporta é claro que abre excepções à também conhecida regra de oferecer a segunda face quando a primeira é batida e é sem dúvida um respeitável precedente. No concreto quadro em que as declarações de D. Januário foram produzidas, acontece que o povo português está a ser diariamente esbofeteado não apenas numa das suas faces mas sim no seu fundamentalíssimo direito a existir com dignidade, o que implica a possibilidade de subsistir sem que só o consiga à custa de esmolas. E quem fala em direitos fala num trabalho em que se realize e pelo qual seja pontual e adequadamente pago, fala na possibilidade de constituir família e ter filhos, de deles poder cuidar. Fala também do acesso a cuidados que o mantenham vivo e saudável, isto é, afinal do direito à vida que não deve estar reservado aos que, querendo saúde, têm posses que plenamente permitem pagá-la como já há décadas preconizava na AR um sujeito que, exactamente, podia pagar. Tudo isto e decerto muito mais tem a ver com a enérgica rejeição de D. Januário perante o já tristíssimo quotidiano do povo e o escandaloso projecto orçamental do Governo. E aqui aflora já uma palavra, «escândalo», que faz parte do léxico da cristandade portuguesa, e não só, no sentido de que um cristão, para mais sendo bispo, não deve proferir palavras ou ter atitudes que escandalizem as gentes, isto é, que as choquem, antes devendo cultivar a serenidade e o apaziguamento. Para a aparente infracção dessa regra poderá a entrevistadora ter querido arrastar D. Januário, que muitos terão achado excessivo, assim o expondo a críticas e abrindo espaço para a desvalorização do seu depoimento. A ter acontecido, porém, a tentativa ter-se-á frustrado. Porque, por muito que um bispo deva estar atento às regras que lhe são ditadas e à disciplina a que esteja obrigado, mais obrigações tem para com o povo de que emergiu, para com os que de facto são seus irmãos na cidadania e que não pode abandonar abrigando-se por detrás de palavras dúbias. Em verdade, tem de colocar-se ao lado dos que sofrem da «fome e sede de Justiça» de que também fala o Evangelho. Tem de surgir como um exemplo. Que outros bem podem seguir.



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