Regimes e imperialismo contra os povos
Os regimes reaccionários árabes procuram conter as crescentes revoltas populares, e o imperialismo tenta garantir o controle da Líbia ao mesmo tempo que se abstém-se de criticar os países que reprimem os povos em luta.
«Hillary Clinton encontrou-se com o Conselho Nacional da Líbia»
Numa decisão que abre um perigoso precedente, o Conselho de Cooperação do Golfo decidiu enviar cerca de um milhar e meio de soldados da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, bem como cerca de 150 carros blindados, para o Bahrein. O objectivo da operação é ajudar o rei Hamad Ben Issa a conter a revolta que alastra pelo país, e ocorre justamente após os mais graves confrontos entre manifestantes e forças de segurança fiéis ao regime.
De acordo com informações divulgadas por agências internacionais, pelo menos sete pessoas morreram e dezenas de outras resultaram feridas durante a violenta repressão dos protestos que, nos últimos dias, recrudesceram no Bahrein.
Sexta-feira, milhares de pessoas saíram às ruas, e segunda-feira os manifestantes prosseguiam a ocupação de uma praça central na capital, Manamá, chegando mesmo a levantar barricadas a fim de se defenderem de nova investida das autoridades.
O centro financeiro e comercial da cidade encontra-se encerrado e os sindicatos convocaram uma greve geral para protestar contra a brutal resposta do executivo às exigências de democratização da vida política no país.
Antes, o monarca Hamad Ben Issa havia promovido uma reforma ministerial com o intuito de aplacar as movimentações de massas, e o Conselho do Golfo decidiu enviar um pacote de ajuda de 20 mil milhões de dólares. Mas nem assim conseguiram conter a revolta popular.
Já anteontem, o executivo do Bahrein foi obrigado a decretar o estado de emergência face à manutenção da luta, levada a cabo sobretudo por jovens, de quem os partidos da oposição do Bahrein se demarcaram após as críticas feitas pelo movimento 14 de Fevereiro à presença no território, dia 11, do secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, e à manutenção da V Frota dos EUA ao largo do país.
A EFE informou que pelo menos duas pessoas morreram terça-feira e mais de 200 ficaram feridas em novos confrontos, desta feita em Sitra, próximo da capital Manamá.
Em clima de insurreição encontra-se igualmente o Iémen. Segundo a Al Jazeera, três pessoas morreram e dezenas ficaram feridas depois de a polícia e o exército terem disparado balas de borracha e granadas de gás lacrimogéneo contra a multidão que se manifestou na capital, Sana. Na maior cidade iemenita, os manifestantes continuam acampados em torno da Praça Tagher, isto apesar do ataque perpetrado, domingo, pela polícia e por grupos armados afectos ao presidente Ali Saleh.
Também neste país, a revolta não se contém com promessas de reformas constitucionais, e na terça-feira circulavam informações que davam conta da sabotagem de um oleoduto em Marib e do corte de uma das principais estradas entre Sana e Safer. Na principal região produtora de petróleo, as forças repressivas também responderam aos protestos com disparos, e na cidade de Adén o total de mortos desde o início da revolta, a 27 de Fevereiro, já ascende a 30.
Já em Marrocos, domingo foi dia de manifestação em Casablanca. A AFP indica que a marcha pacífica foi dispersada à força pela polícia, que perseguiu os manifestantes até à sede do Partido Socialista Unificado, onde parte dos participantes se refugiaram. Dezenas de marroquinos ficaram feridos, mas fruto da resistência popular as autoridades não lograram ocupar o edifício do PSU.
Cerco à Líbia continua
Tensa continua ainda a situação na Líbia. Reunidos em Paris, os países do G8 não chegaram a acordo sobre uma intervenção militar no território, isto depois do Conselho de Segurança das Nações Unidas ter falhado igualmente a imposição de uma zona de exclusão aérea.
Paralelamente à cimeira, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, encontrou-se com representantes do Conselho Nacional da Líbia, consubstanciando, aliás, as palavras do presidente Barack Obama, que, sexta-feira, 11, afirmou estar decidido a tudo fazer para destituir Muammar Khadafi.
Em contacto com os rebeldes líbios está, também, a UE, que enviou a Benghazi um delegado visando conversar com os insurrectos. Os laços entre o imperialismo e os revoltosos são cada vez mais claros – bem como com os regimes reaccionários árabes, que através da Liga se pronunciaram favoráveis à imposição da exclusão aérea à Líbia – à medida que informações veiculadas por órgãos de comunicação social dão conta do avanço das tropas governamentais líbias em direcção ao Leste do país.
Depois de tomarem Ras Lanuf, os militares de Tripoli controlaram Brega e preparam o assalto a Benghazi, manobras militares que parecem reverter o processo de derrube de Khadafi, ansiado pelas principais potências capitalistas, para quem o coronel é um ditador, mas que já mostram mais reservas em qualificar com aspereza os líderes do Bahrein, Iémen, ou Marrocos, preferindo cínicos apelos ao respeito pelos direitos humanos e ao diálogo na esperança de que as revoltas se extinguam ou sejam afogadas em sangue.