Protesto popular cresce no Wisconsin
O movimento contra a chamada Lei de Rectificação Orçamental proposta pelo governador do Wisconsin, Scott Walker, continua a granjear apoio nacional e internacional. O protesto transformou-se em ampla resistência, com manifestações, comícios, vigílias e outras acções sob a palavra de ordem «matemos a Lei».
«Todos os sindicatos do sector público se opõem à lei»
O comício frente ao edifício do Capitólio, realizado dia 5 de Março em Madison, capital do Estado do Wisconsin, juntou cerca de 50 mil pessoas, de acordo com a AFL-CIO. Mesmo a polícia admitiu que a iniciativa foi massiva, estimando em 30 a 40 mil o número de participantes. No dia 6, o protesto prosseguiu no mesmo local.
Foi de novo a sólida oposição a uma lei que retira aos trabalhadores do sector público todos os direitos de negociação colectiva, que mobilizou dezenas de milhares para a rua vindos de todo o Estado do Wisconsin, bem como dos vizinhos do Illinois, Indiana, Michigan, Minesota, Colorado, Ohio, ou do Dakota do Norte e do Sul.
Todos os sindicatos do sector público se opõem à lei. No conjunto, representam centenas de milhares de trabalhadores, desde professores e auxiliares de acção educativa, a funcionários do sector da saúde, bombeiros, administrativos e quadros técnicos, etc.. Os estudantes do Secundário e do Superior, que lançaram a centelha da revolta com a ocupação do capitólio, a 15 de Fevereiro, estiveram novamente em força nas iniciativas de 5 e 6 de Março.
Trabalhadores do sindicato dos transportes vieram de todo o centro Oeste do país numa grande caravana automóvel, e os camaradas do sector privado juntaram-se-lhes em solidariedade, sendo possível encontrar nas iniciativas grandes contingentes de operários. Canalizadores, carpinteiros, pedreiros, caldeireiros, electricistas e metalúrgicos, nomeadamente do sector automóvel, manifestaram-se unidos dando expressão à consigna de que «o ataque a uma parte dos trabalhadores é um prejuízo para todos».
Tal reflecte o forte apoio do proletariado e das camadas populares e laboriosas à luta contra a ofensiva anti-sindical e os cortes draconianos promovidos por Walker. Os médicos, por exemplo, sublinharam que as medidas vão deixar milhares de pobres sem assistência médica, enquanto que os afiliados do Sierra Club, a maior e mais antiga organização ecologista norte-americana, rejeitam a norma porque, acusam, esta vai golpear os programas de defesa do meio ambiente no quadro do desenvolvimento de uma economia sustentável.
Movimentação crescente
Chegados de manhã depois de uma marcha de várias horas ocorrida antes do início oficial do protesto de dia 6, um grupo de estudantes de várias nacionalidades deram início à agitação gritando «a democracia é isto». Cartazes feitos à mão parodiavam com a relação servil entre Walker e os ricos irmãos Koch – exposta num telefonema tornado público –, os quais são dos principais financiadores do Tea Party. Ainda no dia 6, a Associação Nacional de Carteiros, uma das promotoras do protesto, acabou por trazer centenas de membros em solidariedade para com a luta.
Já a 2 de Março, a secção 214 da ANLC (na sigla em inglês), de São Francisco, aprovou por unanimidade uma resolução de apoio à convocação de uma greve geral no Estado do Wisconsin e em favor da convocação de uma jornada nacional de defesa dos postos de trabalho. A moção foi a segunda do mesmo género, depois do texto no mesmo sentido votado favoravelmente, em Fevereiro, pela Federação do Trabalho do Centro e Sul, cuja sede é precisamente em Madison.
A 3 de Março, também a estrutura sindical dos enfermeiros promoveu uma marcha de milhares de pessoas na capital estadual exigindo a revogação da Lei Walker e o fim dos cortes aplicados aos trabalhadores.
Antes e durante as grandes movimentações de massas dos dias 5 e 6 de Março, o governador Walker percorreu o Estado num périplo patrocinado por uma organização satélite do Tea Party, a Americanos pela Prosperidade. Mesmo nas pequenas e médias cidades do Wisconsin, Walker encontrou resistência popular a cada paragem, de que serve de exemplo os protestos que encontrou no percurso entre Milwaukee e La Crosse.
No dia 2 de Março, uma iniciativa promovida pela Estudantes em Favor de uma Sociedade Democrática, pela Federação Americana de Trabalhadores Estaduais, Provinciais e Municipais, e pela Federação Americana de Professores e Assistentes, centenas de pessoas cumpriram uma greve contra a Lei Walker na Universidade de Milwaukee no âmbito do Dia Nacional de Acção em Defesa da Educação Pública. Na mesma semana, os estudantes de diversas organizações ocuparam o anfiteatro da Universidade.
Os pobres e os trabalhadores do Wisconsin também se têm mobilizado contra a lei anti-sindical, e em repúdio pelas medidas ditas de austeridade. O reverendo Jesse Jackson liderou uma concentração de protesto, maioritariamente de afro-americanos, na Missão Baptista de Milwaukee, a 4 de Março.
Raízes de uma organização nacional
A atmosfera em Madison é de determinação e unidade, com cartazes de apoio aos protestos nas montras dos estabelecimentos comerciais. Numa pizzaria da cidade, um quadro contabiliza as refeições encomendadas por pessoas da Europa, Ásia, África e América do Norte para serem entregues aos estudantes e trabalhadores que participaram na ocupação do Capitólio. Donativos têm sido enviados de todos os 50 Estados norte-americanos. Moções de Solidariedade estão a ser aprovadas em sedes sindicais locais, federações laborais, de estudantes e organizações comunitárias.
Qual será o próximo passo? O debate sobre o que fazer inclui a reocupação do edifício do Capitólio e a convocação de uma greve geral. Muitos dos grupos envolvidos na luta, incluindo o movimento pelo resgate das famílias falidas em consequência da crise, diz ter um sólido apoio caso se decida avançar para a paralisação.
Na marcha de 6 de Março, o presidente do sindicato dos bombeiros, Mahlon Mitchell, que esteve nos 18 dias de ocupação do Capitólio, garantiu à multidão que «se vocês forem [para a greve geral], nós vamos também».
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* Com o contributo de Bryan G. Pfeifer