Comunistas aumentam votação apesar do sufrágio sujo
O partido do primeiro-ministro Vladimir Putin declarou-se vencedor das eleições de domingo em 12 regiões e repúblicas russas. De acordo com os dados provisórios da Comissão Eleitoral, difundidos por agências internacionais, o Rússia Unida (RU) assegurou 374 dos 540 lugares em disputa. A maioria de deputados obtida pelo RU, ponderando os círculos proporcionais e os uninominais, esconde, no entanto, uma erosão da base eleitoral do partido do governo, diz o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR).
Segundo informações prestadas pelo secretariado do PCFR, em conferência de imprensa realizada segunda-feira, se for excluída a região do Daguestão (na qual sobejam as irregularidades e se avolumam os indícios de fraude massiva), o PCFR passou de 13 para 22 por cento entre sufrágios regionais, enquanto que o RU alcançou cerca de 46 por cento dos votos.
Os resultados são, para a direcção comunista, um bom pronúncio para as próximas eleições legislativas, já que o PCFR cresceu em termos de votos absolutos em nove das 12 regiões consideradas. Em Nijni Novgorod subiu quase 140 mil votos; em Kursk quase 35 mil; em Kirov mais de 10 mil; em Orenburg mais de 40 mil; em Tver mais de 96 mil; em Komi quase 7500; em Khanti-Mansi mais de três mil; em Adigeia quase sete mil; e em Tchukotka, onde o partido iniciou as candidaturas praticamente do zero, passou de 944 para 1222 votos, sendo ainda de ter em conta que o multimilionário Román Abramóvich era candidato pelo RU.
Em Kalininegrado, o PCFR passou de pouco mais de 15 para 22 por cento do total de boletins.
Em suma, o PCFR viu o número de votos crescer em 113,57 por cento face a 2007, e, em contraste, o Rússia Unida perdeu mais de três milhões de votos recolhendo menos 44,26 por cento dos votos garantidos há quatro anos.
«Isto não é uma eleição»
Comentando a jornada eleitoral, o presidente do PCFR, Guenadi Ziugánov, sublinhou que nunca o RU tinha ido tão longe na campanha suja e nas irregularidades registadas. «Os comunistas prepararam 50 mil delegados para o sufrágio, e onde os nossos observadores puderam actuar sem constrangimentos e de acordo com a lei, chegámos a obter a maioria dos votos, como em Arzamas», lembrou Ziuganov.
Os exemplos de fraude divulgados pelo PCFR e por meios de comunicação são, em parte, coincidentes. Os segundos citam informações de uma ONG, que registou situações como duplicação de votos e o descarregamento de eleitores que não compareceram às urnas, ameaças a observadores e impedimento do escrutínio de assembleias de voto, ou percentagens de 20 por cento dos votos recolhidos nas residências (Daguestão), o que suporia que 1/5 dos eleitores se encontrava doente e incapaz de se dirigir à respectiva secção no sufrágio.
Já os comunistas russos avançam dados mais concretos, particularmente graves no Daguestão e em Tambov. Nesta região, por exemplo, toda a propaganda do PCFR foi retirada e os dirigentes comunistas locais foram pura e simplesmente banidos da televisão local durante o período de campanha. No dia das eleições, a maioria dos observadores comunistas foi impedida de cumprir a sua função, pelo que «tais factos exigem o envio imediato de uma comissão de investigação», frisa o PCFR.
Quanto ao Daguestão, o PCFR sustenta ter alcançado a maioria dos votos em 34 assembleias. Em muitas das secções a sua actividade foi igualmente impedida. Assembleias de voto foram invadidas e existem relatos de roubo e enchimento de urnas com votos no RU.
Nesta região, a divulgação dos resultados esteve suspensa durante 12 horas. «Parece que se sentaram a cozinhar os resultados», concluiu Ziuganov, para quem «isto não são eleições, mas uma paródia».